A cientista que quer tornar gentil a tecnologia

A inteligência artificial (IA) é frequentemente associada a algo frio, suspeito e, às vezes, maligno. Mas a cientista americana Rosalind Picard quer dotar a computação de um aspecto essencialmente humano: torná-la gentil. 

Professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Rosalind também é escritora, palestrante, consultora e empresária. Em 1995, publicou o livro “Affective Computing” (Computação Afetiva, em tradução livre) que praticamente passou a designar esse novo campo de pesquisa. 

“Anos atrás comecei a fazer uma coisa que parecia meio louca”, disse Rosalind, ontem, na “Live do Valor”, na qual falou sobre os avanços da inteligência artificial no setor de saúde. Seu trabalho no Media Lab, laboratório de pesquisa interdisciplinar do MIT, concentrou-se na criação de sistemas inteligentes capazes de interpretar as emoções humanas, como ritmo da fala, tom de voz, expressões do rosto e postura corporal. Reações como alterações elétricas na pele também passaram a ser medidas. 

Um dos fatores que mais motivavam a pesquisadora era entender por que as pessoas ficavam tão irritadas com os computadores, a ponto de chegar a destruí-los para descontar a frustração. Em um desses episódios extremos, recorda-se Rosalind, um morador de Nova York jogou seu PC em uma frigideira quente. 

A conclusão é que faltava à tecnologia a capacidade de entender dados emocionais e responder, de maneira adequada, aos sentimentos humanos. É disso, basicamente, que trata a computação afetiva, em especial as aplicações voltadas à área médica. “No futuro, ninguém vai querer ser atendido por um robô, porque somos muito mais imprevisíveis e complexos que os algoritmos”, disse Rosalind. 

Uma das empresas que a cientista fundou, a Empatica, criou um relógio inteligente que detecta convulsões potencialmente fatais em pacientes com epilepsia. O dispositivo, batizado de “Embrace” – “como um abraço”, disse a pesquisadora – foi o primeiro do seu tipo a receber certificação do FDA, órgão que regula alimentos e remédios nos Estados Unidos, para uso tanto em adultos como em crianças. O relógio já está disponível comercialmente. 

O sistema do Embrace detecta padrões semelhantes aos que causam as convulsões e avisa os familiares do usuário por meio do celular. É uma medida fundamental, afirmou Rosalind, porque em meio à convulsão o paciente não consegue pedir ajuda. 

Em casos de Sudep (sigla em inglês para morte súbita inesperada em epilepsia), o risco de morte diminui em 65% se a frequência das convulsões é reduzida ou o paciente tem alguém para ajudar, informou a pesquisadora. Embora pouco conhecido, o problema, disse ela, é muito mais frequente do se imagina. 

Recentemente, a Empatica recebeu aprovação da União Europeia para o Aura, sistema de IA que analisa dados e ajuda a detectar infecções virais, incluindo os vírus H1N1, da gripe de mesmo nome, e o SARS-CoV-2, da covid-19. O caráter é preventivo. “O dispositivo mostra que você está infectado mesmo que só pareça cansado”, afirmou Rosalind. 

No caso da covid-19, uma das maiores preocupações é com os reflexos que a pandemia pode ter no aumento de distúrbios mentais como a depressão, disse a pesquisadora. “Estamos aprendendo a ser antissociais. Você está andando na calçada e vê algum vindo em sua direção. Então, se afasta”. 

Esse tipo de comportamento, alertou, pode agravar os efeitos da solidão e do isolamento, com sérias consequências para a saúde mental, principalmente entre os mais jovens. “Precisamos abordar a questão das doenças mentais, que estão aumentando.” 

A cientista também é confundadora da Affectiva, cujos sistemas analisam o  comportamento humano e estão sendo usados para melhorar a segurança de motoristas e passageiros dentro do carro ou a resposta do consumidor a mídia. 

De maneira geral, a previsão é que a adoção da inteligência artificial na área da saúde seja comparativamente mais lenta que em outros setores de atividade, afirmou Rosalind. Os profissionais de saúde tendem a ser mais conservadores, principalmente em segmentos que tratam diretamente da vida humana. Além disso, há pelos menos dois outros fatores envolvidos. Um deles é o processo de aprovação de produtos na área médica, que tende a ser longo e complexa. O outro é que, mesmo quando a inovação é comprovadamente útil e recebe sinal verde, nem sempre os pacientes têm recursos para pagar pelo tratamento. 

O mais provável, disse a pesquisadora do MIT, é que a curva de desenvolvimento da tecnologia continue em ritmo mais acelerado que o de sua adoção. 

No MIT, várias pesquisas de inteligência artificial aplicadas à saúde estão em andamento. Uma das mais interessantes, disse Rosalind, é um estudo para “traduzir” a linguagem de crianças que quase não falam ou só repetem sons, o que pode ajudar pais ou cuidadores a entender o que a criança quer ou como se sente, mesmo sem que isso não seja verbalizado. 

Na academia em geral, muitos pesquisadores também têm se dedicado a encontrar maneiras de melhorar a vida dos pacientes com a inteligência artificial. Entre os exemplos mecanismos para cirurgias robóticas e modelos que identificam se uma pessoa está passando de uma situação de comprometimento cognitivo leve para algo mais grave, como Alzheimer. 

“Os pesquisadores de IA têm muito a aprender com o que acontece na sociedade e não apenas vendo dados”, afirmou a professora. O exemplo, disse, vem da própria mãe. Octogenária e com Alzheimer diagnosticado, ela teve uma grande melhora recentemente. O motivo? Um romance. “Temos muito a aprender com as interações humanas, com coisas que trazem alegria à vida.” 

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/03/30/a-cientista-que-quer-tornar-gentil-a-tecnologia.ghtml

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