Negociadores da Ucrânia e da Rússia se reuniram em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para discutir questões territoriais que podem levar ao fim do conflito. As conversas, por ora sem avanços aparentes, continuarão neste sábado (24), sob mediação dos Estados Unidos.
Trata-se da primeira sessão de negociações diretas após Moscou exigir de Kiev a retirada de suas tropas do leste ucraniano para encerrar o conflito, em curso desde fevereiro de 2022. Em paralelo, ataques aéreos russos provocam a pior crise energética da Ucrânia desde o início da guerra.
“A questão do Donbass é fundamental. Será discutido como os três lados veem isso”, disse o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, citando a porção leste do país, hoje quase toda ocupada por Vladimir Putin, e voltando a colocar na mesa o assunto que, da perspectiva russa, significa a cessão do território invadido.
“O mais importante é que a Rússia esteja pronta para encerrar esta guerra, que ela iniciou”, escreveu ainda o líder ucraniano em comunicado. Após a reunião, Zelenski disse que ainda era muito cedo para tirar conclusões sobre o desfecho a partir das conversas desta sexta.
“Veremos como a conversa evolui amanhã e qual será o resultado.” Em uma mensagem na rede X, o negociador ucraniano Rustem Umerov afirmou que as conversas se concentraram “nos parâmetros para pôr fim à guerra da Rússia e na continuação lógica do processo de negociação orientado a avançar rumo a uma paz digna e duradoura.
Kiev vive hoje, por um lado, sob crescente pressão do governo de Donald Trump para que se chegue a um acordo de paz na guerra com Moscou, que já dura quase quatro anos. O americano chegou a tratar Zelenski como um empecilho para as conversas.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reforçou, antes do encontro, a posição de Moscou nas negociações, o que sugere pouca margem de manobra para o governo de Zelenski. “É bem conhecida a posição da Rússia de que a Ucrânia e suas Forças Armadas devem deixar o território do Donbass. Essa é uma condição muito importante”, afirmou.
Por outro lado, a Ucrânia atravessa o inverno com blecautes e problemas no fornecimento de aquecimento em grandes partes do país, resultado de ataques russos que têm a infraestrutura como alvo. O frio está intenso, com temperaturas caindo abaixo de zero.
O chefe da maior produtora privada de energia da Ucrânia, Maxim Timchenko, disse à gência Reuters nesta sexta que a situação se aproximava de uma “catástrofe humanitária” e que a Ucrânia precisa de um cessar-fogo que interrompa os ataques à infraestrutura energética.
A Rússia afirma querer uma solução diplomática, mas diz que continuará trabalhando para alcançar seus objetivos com ações militares enquanto uma solução negociada permanecer fora de alcance.
Zelenski e Trump se encontraram na quinta-feira (22), e o ucraniano descreveu a conversa de positiva. Os americanos também se reuniram com os russos e discutiram, além da guerra no Leste Europeu, a Groenlândia, principal motivo das rusgas recentes entre EUA e Europa, e o conselho criado por Trump para reconstrução de Gaza.
A exigência de Putin de que a Ucrânia entregue os 20% que ainda detém da região oriental de Donetsk, uma das que compõem o Donbass, tem sido um obstáculo fundamental nas negociações —Kiev se recusa a ceder terras que a Rússia não conseguiu capturar.
Parte da negociação envolve um acordo de garantias de segurança dos EUA para a Ucrânia, que, segundo Zelenski, já estaria pronto e à espera de uma data e local para assinatura, embora os detalhes de como essas garantias funcionariam ainda estejam pouco claros.
Moscou tem rejeitado propostas de estabelecimento de forças europeias em território ucraniano como garantia. Isso indica que qualquer movimento nesse sentido deve passar pelos EUA. Sob Trump, o país tem se aproximado de Putin e pressionado Zelenski ao adotar a retórica do Kremlin para as causas e saídas possíveis para o conflito.
Questionado sobre o uso dos ativos congelados de Moscou para financiar a reconstrução em território ocupado pela Rússia, Zelenski disse que a ideia de reconstruir “as partes deles” é absurda.
“Claro que lutaremos [para usar os ativos para a Ucrânia], e é absolutamente justo no que se refere ao uso de todos os ativos congelados”, disse Zelenski. Moscou tem rejeitado essa ideia, que tem resistência mesmo entre aliados europeus de Kiev, que veem o uso desses ativos como um ponto de disputa com a Rússia para o futuro.
