The Economist; Como a guerra no Irã vai remodelar o Oriente Médio

Das muitas guerras no Oriente Médio moderno, poucas tiveram um impacto tão profundo quanto as do Golfo. A primeira, em 1991, marcou o início do momento unipolar dos Estados Unidos. O país formou uma coalizão que expulsou as forças de ocupação de Saddam Hussein do Kuwait após apenas quatro dias de combates terrestres. Quilômetros de veículos do Exército iraquiano carbonizados ao longo da chamada “rodovia da morte” deixaram uma imagem indestrutível do poderio americano. Os monarcas do Golfo decidiram se aproximar cada vez mais dos Estados Unidos em busca de proteção.

A segunda Guerra do Golfo, em 2003, inaugurou uma era de dúvidas para os Estados Unidos. O Exército de Washington derrubou o regime de Saddam em poucas semanas, apenas para se ver atolado por quase uma década lutando contra uma violenta insurgência. O espectro do Iraque paira sobre todas as ações militares desde então. George W. Bush esperava que a invasão desencadeasse uma onda democrática em todo o Oriente Médio. Em vez disso, varreu o principal rival estatal do Irã na região, abrindo caminho para um período de hegemonia iraniana, enquanto seus aliados consolidavam seu poder no Iraque, Líbano e Iêmen.

A guerra que começou em 28 de fevereiro com um ataque americano e israelense ao Irã pode ser corretamente chamada de terceira Guerra do Golfo. Ela já envolveu todos os oito países que fazem fronteira com o Golfo Pérsico, juntamente com mais de meia dúzia de outros. Os primeiros eventos foram dramáticos. Ali Khamenei, o líder supremo do Irã, foi morto em um ataque aéreo israelense no início da guerra. Drones iranianos choveram sobre as cidades normalmente pacíficas do Golfo. Os preços globais da energia dispararam.

Muitos oficiais esperam que os combates continuem por várias semanas. É difícil prever como terminarão, em parte porque os objetivos de Donald Trump parecem estar em constante mudança. Seja como for, porém, a terceira Guerra do Golfo não será menos transformadora do que as anteriores. O Irã sairá enfraquecido. Os estados do Golfo terão que lidar com sua recém-descoberta vulnerabilidade. Juntamente com os Estados Unidos e Israel, eles também poderão ter que lidar com uma ameaça enfraquecida, mas persistente, não muito diferente daquela que o Iraque representou na década seguinte à sua derrota no Kuwait.

Alto número de mortos

No momento em que a revista The Economist foi para a gráfica, um grupo iraniano de direitos humanos com sede em Washington afirmou que 1.114 civis foram mortos, incluindo mais de 180 crianças. O número de mortos militares é desconhecido. Israel realizou uma série de assassinatos com o objetivo de decapitar o regime. Além de Khamenei, dezenas de outros funcionários teriam sido mortos, entre eles o ministro da Defesa e o chefe da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), a guarda pretoriana do regime.

É impossível generalizar sobre como os iranianos se sentem: o país é diverso, com 92 milhões de habitantes. Houve comemorações na noite em que Khamenei foi morto e cenas de luto no dia seguinte. Alguns ativistas da oposição argumentam que os iranianos que inicialmente apoiaram uma guerra contra o regime já estão cansados dela, tendo suportado quase uma semana de bombardeios sem fim à vista. Outros argumentam o oposto: que os iranianos temem que a guerra termine muito cedo, com o regime intacto e pronto para descarregar sua raiva em seu próprio povo.

https://www.estadao.com.br/internacional/como-a-guerra-no-ira-vai-remodelar-o-oriente-medio

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