Nova aliança militar contra Pequim tem efeitos imediatos na segurança global

A decisão da Austrália de romper um gigantesco contrato para receber submarinos convencionais da França e optar por modelos de propulsão nuclear construídos com os EUA tem reverberações importantes para a segurança global. 

A primeira lição é que as prioridades geopolíticas dos EUA são: China, China e China. O plano dos submarinos é a peça central da aliança Aukus (EUA, Reino Unido e Austrália) para conter Pequim. 

O presidente Joe Biden tem falado da necessidade de direcionar suas energias à China, e a recente saída do Afeganistão reflete isso. 

A segunda é que Biden quer que a Austrália tenha um papel maior na Ásia, apoiando militarmente os EUA. O premiê australiano, Scott Morrison, também vê Pequim como maior ameaça no longo prazo. 

E isso apesar de a Aukus ser um convite a mais retaliações da China e a mais problemas para o comércio exterior da Austrália, economia dependente das commodities. 

Na China, reforçará o ponto de vista de que esses países não querem apenas competir com os chineses, mas sim contê-los, com uma rede militar ao seu redor, especialmente em vias de navegação como o Mar do Sul da China. Pequim advertiu que o plano alimentará uma “corrida armamentista”. 

A China terá mais um desafio militar no Pacífico. Estrategistas chineses imaginavam que o país teria de desafiar o poderio naval dos EUA e do Japão na região, mas os submarinos nucleares darão à Austrália a capacidade de entrar nesse jogo também. 

Isso reforça ainda a percepção de que Pequim não enfrenta só os EUA, mas os EUA e seus aliados. 

Para a Europa, é um incentivo para que pense em maior autossuficiência no setor de defesa, já que as prioridades dos EUA estão em outro lugar. A Aukus é embaraçosa para a investida da União Europeia por um papel maior no Indo-Pacífico, uma vez que os EUA veem o Reino Unido, em vez do bloco europeu, como principal parceiro. 

É um golpe para o prestígio da França, não apenas pelo dinheiro, mas para o presidente Emmanuel Macron, cujo relacionamento com Biden já anda tenso. Paris dirigiu sua ira pelo cancelamento do contrato aos EUA, não à Austrália. 

A perda para a França é ganho para o Reino Unido, pois se encaixa bem na narrativa do premiê Boris Johnson de um “Reino Unido Global” pós-Brexit, saindo das sombras da Europa e afirmando-se no cenário mundial por si só. 

Ainda vai levar anos para a Austrália ter um submarino nuclear na água. Mas o impacto na segurança global está sendo imediato. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/09/17/nova-alianca-militar-contra-pequim-tem-efeitos-imediatos-na-seguranca-global.ghtml

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