Indústria chinesa recua 13,5% no 1o. bimestre

As fortes quedas dos indicadores econômicos não representam um choque, a surpresa na verdade é o fato de a agência de estatística chinesa ter revelado o grau de deterioração da economia 

Produtores de petróleo e fabricantes de cigarros tiveram meses decentes em janeiro e fevereiro na China. Mas ninguém mais teve. Os aguardados indicadores econômicos de janeiro e fevereiro da China, divulgados ontem, confirmaram o que há muito estava aparente em virtude das medidas de restrição na circulação: o país praticamente parou nesse início de ano. 

A produção industrial caiu 13,5% em janeiro/fevereiro sobre igual período do ano passado – queda mais acentuada que a registrada durante a crise financeira de 2008 – depois de crescer 6,9% ao ano em dezembro. Dos 41 maiores setores industriais, 39 tiveram contração: petróleo e gás e tabaco foram as únicas exceções. 

Combinado com a queda de 13% do setor de serviços em janeiro/fevereiro, os dados sugerem que o PIB chinês caiu 13% nos dois primeiros meses do ano, estima a consultoria Capital Economics. 

Outros dados divulgados ontem também mostraram quedas recordes. As vendas no varejo caíram 20,5% ao ano em janeiro/fevereiro, com os consumidores evitando lugares movimentados, como shoppings e restaurantes. 

O investimento em ativo fixo – uma medida do setor de construção – recuou 24,5% ao ano A construção de imóveis caiu 44,9% nos meses de janeiro e fevereiro. As vendas de imóveis residenciais encolheram 34,7%, enquanto o investimento no setor de imóveis diminuiu 16,3%. Todos esses números ficaram bem abaixo das expectativas dos economistas e representam uma significativa contração em relação as leituras positivas dos períodos comparáveis anteriores. 

A taxa de desemprego subiu de 5,2% em dezembro para 6,2% em fevereiro, um nível recorde, refletindo o impacto direto da paralisação na produção. Apesar dessa taxa não ser alta pelos padrões internacionais, esse aumento preocupa as autoridades chinesas, que elegeram o emprego como principal prioridade de política pública. 

Nada disse surpreende, dado o grande número de fábricas paralisadas, problemas na cadeia de fornecimento e trabalhadores em quarentena. O que surpreende um pouco é o fato de a agência de estatística chinesa ter revelado o grau de deterioração da economia. Isso representa um desafio para aqueles que rejeitam automaticamente todas os dados oficiais da China. 

O quadro pintado pelos dados oficiais é bastante plausível. O crescimento caiu bastante entre todos os segmentos industriais, mas mais acentuadamente entre as empresas do setor privado e firmas com investimentos fora do país. A produção de itens que exigem muita mão de obra, como telefones celulares, automóveis e computadores caiu muito – a produção desses três itens recuou mais de 30% em relação ao mesmo período do ano passado. A indústria pesada, que exige muito capital, onde o Estado é mais dominante e o trabalho migrante, menos importante, saiu-se bem melhor. A produção de aço bruto, petróleo e vidro até mesmo cresceu. 

Os dados de março, quando forem divulgados, poderão em tese ser piores. Mas não porque a economia continua se deteriorando. Na verdade, nos últimos dez dias os sinais de retomada são perceptíveis. Cerca de três quartos das pessoas que deixaram as cidades chinesas mais importantes antes do Ano Novo Lunar já retornaram, segundo uma análise feita pelo Morgan Stanley sobre números de migração compilados pela gigante de buscas na internet e mapeamento Baidu. No fim de fevereiro, mais da metade ainda não havia retornado. O consumo de energia e os congestionamentos de trânsito também aumentaram. 

O problema é que os números de janeiro e fevereiro da China são divulgados juntos por causa do Ano Novo Lunar, e a paralisação do país só começou no fim de janeiro. Portanto, os números combinados, por piores que sejam, ainda incluem duas semanas de dados “normais” do começo de janeiro. Com isso, os números de março poderão ser terríveis, mesmo supondo a continuidade de uma retomada gradual da produção. 

E o impacto no crescimento no primeiro semestre será terrível, porque o coronavírus agora está se propagando para outros países. Isso significa que as fábricas chinesas poderão intensificar suas atividades apenas para perceber que os clientes internacionais não terão condições de fazer encomendas. 

Mesmo que tudo corra bem na China de agora em diante, os investidores deverão se preparar para mais dados ruins da segunda maior economia do mundo. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/03/17/dados-mostram-colapso-da-economia-chinesa-e-indicam-pib-negativo.ghtml

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