Guerra no Irã deve reabrir corrida nuclear

A disposição de Donald Trump de atacar os adversários ao mesmo tempo em que deixa os aliados desconcertados ameaça jogar o mundo em uma nova era nuclear.

Do Atlântico Norte ao Pacífico Ocidental, governos pelo mundo vêm debatendo de forma cada vez mais pública se eles também não precisam ter a bomba. Após declarações de Trump sobre tomar a Groenlândia, os governos da Alemanha e Polônia, países que há muito se davam por satisfeitos em desfrutar da proteção nuclear dos EUA, começaram a ver com bons olhos as propostas da França de estender a abrangência da capacidade de dissuasão estratégica do país para o restante do continente.

China e Rússia, ambos integrantes de longa data do seleto clube de países com armas nucleares, têm disparado as sirenes para o risco de que elas se proliferem no Japão e na Coreia do Sul, mesmo enquanto Pequim e Moscou modernizam seus próprios arsenais. Por sua vez, os Estados Unidos, o único país a já ter usado uma arma nuclear contra uma população civil, vêm avaliando a retomada dos testes atômicos para cumprir com um decreto presidencial de Trump, após um hiato de mais de 30 anos.

Na mesma semana em que o presidente americano deu um ultimato os líderes do Irã para abandonar seu programa nuclear, o governo Trump fez circular um relatório que levanta a possibilidade de dar à Arábia Saudita, rival regional do Irã, acesso a tecnologias de enriquecimento e reprocessamento de urânio, segundo documentos vistos pela Bloomberg. Na Europa, um diplomata disse que a necessidade de o continente desenvolver suas próprias capacidades nucleares é hoje tema de debate ativo em várias capitais.

Em janeiro, o Boletim dos Cientistas Atômicos adiantou os ponteiros de seu “Relógio do Juízo Final” para 85 segundos antes da meia-noite – o ponto mais próximo da catástrofe nuclear em que já esteve. Entre os motivos citados estão os ataques de Trump a instalações nucleares iranianas, os esforços dele para construir o escudo antimísseis “Domo Dourado” e o fim do mais recente tratado de controle de armas entre EUA e Rússia.

“A possível obtenção dessas armas de destruição em massa é discutida abertamente até em países que prometeram nunca as teriam”, ‘, disse o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, em entrevista. “Mas a existência de mais armas nucleares, em mais países, não tornarão o mundo mais seguro – ao contrário.”

“É mais importante do que nunca manter as normas de não proliferação que serviram ao mundo tão bem ao longo do último meio século”, ‘ disse Grossi.

Embora hoje apenas nove países sejam considerados potências nucleares, mais de 20 outros têm programas de energia nuclear, bases industriais e capacidade em engenharia que lhes permitiriam conseguir uma bomba. Bastam 25 quilos de urânio altamente enriquecido ou 8 quilos de plutônio para se obter uma arma capaz de destruir uma pequena cidade.

Essa corrida é estimulada pela ideia de que abrir mão de armas nucleares deixa os países vulneráveis – sendo que Líbia, Ucrânia e, agora, o Irã coloca em evidência as consequências disso. Embora ter um arsenal nuclear não garanta proteção antiataques, ele eleva muito as apostas em jogo de qualquer agressão.

Quanto mais países conseguirem a bomba, mais difícil se tornará para as grandes potências controlar seu uso, e mais perigoso o mundo se tornará. Em 2025, Índia e Paquistão trocaram ataques aéreos em mais um episódio de tensão entre os dois vizinhos, que passaram a ter armas nucleares nos anos 90.

Especialistas em não proliferação advertem que o sistema de controle de armas nucleares, construído a duras penas durante a Guerra Fria, pode se desintegrar. O sistema foi desenvolvido depois que EUA e União Soviética se viram forçados a encarar a possibilidade de aniquilação nuclear e decidiram recuar.

Em 1987, o presidente americano Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbatchov assinaram um tratado eliminando mísseis balísticos de alcance intermediário que ambos os países apontavam para os lados opostos da fronteira que então dividia a Europa. Poucos anos depois, acertaram grandes reduções nos estoques de ogivas, o que mais tarde se tornou o tratado Novo Start.

Ambos os acordos venceram e não foram substituídos, uma vez que as relações entre Washington e Moscou se deterioraram e os EUA passaram a temer a capacidade que a China tem de expandir seu arsenal por estar fora desses acordos bilaterais. Agora, em um momento em que é normal mísseis convencionais atingirem cidades na Europa e no Oriente Médio, os demais tratados que controlam as corridas armamentistas pelo mundo também passaram a ter um futuro incerto.

Ambos os acordos venceram e não foram substituídos, uma vez que as relações entre Washington e Moscou se deterioraram e os EUA passaram a temer a capacidade que a China tem de expandir seu arsenal por estar fora desses acordos bilaterais. Agora, em um momento em que é normal mísseis convencionais atingirem cidades na Europa e no Oriente Médio, os demais tratados que controlam as corridas armamentistas pelo mundo também passaram a ter um futuro incerto.

O pior cenário seria o de uma chamada “cascata de proliferação”, “, disse William Alberque, pesquisador do centro de estudos Pacific Forum que já negociou questões nucleares na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) e no governo americano.

“Se a Coreia do Sul for adiante [em obter armas nucleares], o Japão [também] vai”, disse Alberque. “Depois, Taiwan vai. Então, a China entra em pânico e agora passa a ter um prazo para invadir Taiwan. A possibilidade de uma cascata no Oriente Médio e no Leste Asiático torna essas duas regiões muito mais perigosas.”

O próprio Trump está entre os líderes mundiais que têm alertado para o aumento do risco de conflito nuclear. Durante sua campanha eleitoral em outubro de 2024, ele disse que os EUA estavam “muito perto de viver” uma 3ª Guerra Mundial e se comprometeu a evitá-la.

No entanto, a decisão de EUA e Israel de atacar o Irã para eliminar seu programa nuclear só mostra como a situação é precária. Em junho, inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) verificaram que o Irã possuía mais de 440 quilos de urânio enriquecido perto do grau necessário para uma bomba, teoricamente suficiente para produzir mais de dez ogivas em pouco tempo.

Apesar de o TNP permitir aos signatários o enriquecimento de urânio e de países como Argentina, Brasil, Alemanha, Japão e Holanda o usarem como combustível, muitos em Israel e nos EUA consideram o estoque iraniano de uso duplo, civil e militar, inaceitável. Tomar posse desse estoque poderia exigir o envio de soldados em terra a um país com mais de 90 milhões de habitantes.

No entanto, a linha mais dura adotada pelos EUA contra o Irã contrasta com sua abordagem em relação a um de seus aliados regionais, a Arábia Saudita, que há muito ameaça tentar obter a bomba caso o Irã também o faça.

Em fevereiro, a Casa Branca enviou ao Congresso um relatório de três páginas argumentando a favor do compartilhamento de tecnologia nuclear sensível com Riad, inclusive uma possível cooperação no enriquecimento de urânio e no reprocessamento de plutônio. O documento, visto pela Bloomberg, sustenta que tal acordo seria favorável aos interesses de segurança dos EUA e daria a Washington maior visibilidade sobre o programa saudita.

“A Arábia Saudita é um parceiro importante dos EUA no Oriente Médio”, destacou a Casa Branca, em comunicado. O acordo de Trump com a Arábia Saudita é um “pacto baseado em risco sobre energia nuclear pacífica que reafirma o compromisso mútuo de ambos os países com a não proliferação e estabelece as fundações para uma parceria nas próximas décadas.”

Especialistas americanos em não-proliferação pensam diferente.

‘Isso rompe com todos os precedentes”, disse Robert Kelley, que foi diretor da AIEA e encabeçou inspeções no Iraque e na Líbia. “A ideia de o governo estar disposto a dar à Arábia Saudita a capacidade de fazer exatamente as coisas pelas quais está bombardeando o Irã parece hipócrita.”

Trump fez diversos alertas sobre os perigos das armas nucleares e, ainda em fevereiro de 2025, aventava a ideia de cortar o arsenal americano e abrir negociações sobre desarmamento com Rússia e China. No entanto, suas ações no Irã acabaram fazendo com que a posse de armas nucleares pareça ser algo ainda mais valioso.

Quase dez anos antes, Trump havia contemplado um ataque preventivo similar contra a Coreia do Norte para impedir Kim Jong-un de expandir seu arsenal atômico. Em vez disso, o presidente acabou optando por duas reuniões de cúpula, uma em Singapura e outra em Hanói, que quebraram precedentes diplomáticos e atraíram os holofotes da mídia, mas que acabaram não tendo sucesso.

Trump rejeitou a oferta de Kim, de desativar seu já envelhecido complexo nuclear de Yongbyon, por considerá-la insuficiente. Kim não se mostrou disposto a abrir mão de seu “escudo e espada nucleares”, , que protegeram sua dinastia contra operações de troca de regime como a que resultou na morte de Muamar Khadafi.

Os EUA ajudaram a derrubar o líder líbio menos de dez anos após ele ter desistido de obter armas nucleares. O caso da Ucrânia, que após a Guerra Fria abriu mão das armas nucleares produzidas pelos soviéticos que estavam posicionadas em seu território, oferece uma história com moral parecida à da Líbia, para outros países pequenos que queiram dissuadir inimigos poderosos.

Agora, a maioria dos especialistas em não proliferação colocam a Coreia do Norte entre os países nucleares já consolidados. O país lança rotineiramente mísseis balísticos no Mar do Japão, capazes de transportar ogivas atômicas contra territórios da Coreia do Sul, Japão e até dos EUA continentais.

O sucesso da Coreia do Norte vem reconfigurando os cálculos estratégicos no Leste Asiático, onde o presidente da China, Xi Jinping, também promove avanços em sua capacidade nuclear como parte de uma tendência histórica de expansão militar. O Pentágono estima que a China tenha mais de 600 ogivas e possa passar de 1.000 até 2030.

Pequim continua a desenvolver novos sistemas de lançamento com capacidade nuclear, como mísseis intercontinentais e ogivas hipersônicas projetadas para driblar defesas antimísseis, embora seu último teste de uma bomba nuclear tenha sido em 1996. Em estudo de 2025, o país argumentou que tem seguido uma abordagem “extremamente contida” e que não entraria em uma corrida armamentista.

A ampliação dos arsenais nucleares na região – combinada às ameaças ocasionais de Trump de redução do apoio militar – tem abalado a confiança na capacidade de Washington de garantir a segurança de aliados como Japão, Coreia do Sul e Taiwan. São três economias avançadas, com histórico de geração de energia nuclear e sólidas indústrias de armas, que há muito são consideradas as de maior potencial para se tornarem potências nucleares.

Mais de 75% dos sul-coreanos são favoráveis a que o país tenha armas nucleares, segundo o centro de estudos Asan Institute – o maior patamar na história. Embora o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, tenha dito a seu gabinete ministerial no fim de 2025 que se o país tentasse obter armas nucleares seria “impossível” não sofrer uma condenação internacional, a Rússia argumenta que os esforços de Seul para desenvolver um programa de submarinos nucleares já representam um risco de proliferação.

Mesmo no Japão, onde os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki em 1945 há muito resultaram em forte oposição às armas nucleares, as opiniões vêm mudando. Em dezembro, um assessor da primeira ministra do Japão, Sanae Takaichi, disse a repórteres que, diante do agravamento das tensões com a China quanto ao futuro de Taiwan, o país deveria ter a bomba.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/03/31/guerra-no-ira-deve-reabrir-corrida-nuclear.ghtml

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