Guerra de informação na Ucrânia está longe de acabar

THE NEW YORK TIMES – Foi nesse campo que a guerra começou, no início de 2022, semanas antes de Vladimir Putin começar a invadir a Ucrânia com seus foguetes, veículos blindados e tropas, quando ele alegava que a massiva concentração de soldados ao longo das fronteiras ucranianas não passavam de mais um exercício militar. E foi nesse campo que os EUA e seus aliados alcançaram suas primeiras vitórias, quando tornaram públicas informações de inteligência que antecipavam a invasão e o pretexto que Putin usaria para justificá-la.

Então, quando a invasão começou, em 24 de fevereiro, o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, abriu um segundo front na guerra de informação. Ele vestiu uma camiseta oliva-escuro de soldado e iniciou uma torrente de tuítes desafiadores, com discursos e imagens de vilarejos devastados em grande parte direcionados para o público russo. Sua metamorfose, de um presidente relativamente impopular para um David que desafia um Golias, tem sido essencial para amalgamar apoio popular, militar e econômico para a Ucrânia nos EUA e na Europa.

Nessas primeiras batalhas de informação, os americanos e os ucranianos mostraram que tinham aprendido lições de 2014, quando a Rússia foi preponderante em propaganda, atacando a Crimeia e o leste da Ucrânia alegando estar atendendo súplicas dos moradores russófonos das regiões. EUA e Ucrânia também têm obtido grande ajuda desta vez, em razão dos testemunhos da invasão e suas brutais consequências estarem sendo tão bem documentados.

Mas a guerra de informação, assim como a guerra física, está longe de ser decidida. Dez semanas após o início dos combates, muitos russos parecem aceitar a narrativa de Putin. Ao redor do mundo, muitos países permanecem nos bastidores ou, como a China, se colocam do lado da Rússia.

Ainda que comentários públicos de Washington tenham servido para impulsionar os ucranianos e unir seus aliados, alguns desses comentários entraram diretamente no jogo das alegações de Putin de que os malignos EUA estão determinados a enfraquecer a Rússia; como na fala do presidente Joe Biden sobre Putin, “Este homem não pode continuar no poder”, e na declaração do secretário da Defesa, Lloyd Austin, de que o objetivo dos EUA é uma Rússia “enfraquecida”.

A Rússia foi surpreendentemente vagarosa em relação a preparar seus habitantes e o mundo para uma invasão em escala total, talvez porque seus líderes estavam convencidos de que Kiev cairia rapidamente. Mas após esse início moroso, o Kremlin engatou a marcha e acelerou. Domesticamente, fechou todos os meios de comunicação independentes, esmagou protestos e ameaçou com até 15 anos de prisão qualquer um que desafie o governo com “informação falsa” sobre a invasão.

A Rússia apressou-se também para adaptar suas narrativas a um campo de batalha em transformação. Depois que Moscou mudou o foco de Kiev para o sudeste ucraniano, o objetivo de tirar nazistas do poder na capital mudou para um foco que define a guerra na Ucrânia como uma luta existencial em nome da Santa Rússia, contra a hegemonia americana e seus comparsas da Otan. O que começou como uma “operação militar especial” se transformou numa guerra defensiva semelhante à 2.ª Guerra, a “Grande Guerra Patriótica”, na qual a Rússia foi obrigada a defender-se contra os nazistas e os fascistas.

“Quebramos a espinha do fascismo”, declarou o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa e apoiador ferrenho da guerra contra a Ucrânia, em um sermão proferido em 3 de abril — que transformou uma invasão não provocada numa nobre cruzada. Em 3 de maio, ele retificou sua terminologia: “Não queremos lutar com ninguém”, afirmou em um sermão no Kremlin. “A Rússia nunca atacou ninguém. É impressionante que um país grande e poderoso jamais tenha atacado ninguém, mas apenas defendido suas fronteiras”.

É difícil aferir quantos russos realmente acreditam nisso, dado o perigo decorrente de discordar. Há muitos relatos de que noções a respeito de uma Otan hostil e ucranianos traiçoeiros são amplamente comuns, mas também há muitos relatos de russos horrorizados com a guerra que não podem mais se expressar sem enfrentar repressão imediata.

A guerra de informação também chegou a Ásia, África e América do Sul, onde a Rússia mobilizou diplomatas e meios de comunicação controlados pelo Estado, como a rede global RT, para divulgar seus argumentos. O objetivo não é necessariamente conquistar apoio, mas manter calados os países não alinhados. Enquanto alguns países, mais notavelmente a China, escolheram o lado da Rússia, outros, como a Índia, têm evitado antagonizar os russos para não perder contratos de fornecimento de equipamentos militares ou energia da Rússia.

Muitos outros agem dessa maneira simplesmente porque pouco conhecem e pouco se importam com a Ucrânia. A narrativa da Rússia para esses países é que Moscou luta para evitar que os EUA criem um mundo unipolar que os engoliria, sem ninguém que apoie seus interesses. Essa estratégia evocou memórias da assistência que a União Soviética deu aos movimentos independentistas pós-coloniais no Vietnã, em Angola e outros países.

Os EUA colocaram em prática seus próprios esforços diplomáticos para ganhar mais apoio de países como Índia e África do Sul. E a Ucrânia postou recentemente um vídeo no Twitter no qual o comandante das forças ucranianas agradece 37 países que, de acordo com o tuíte, dão “assistência e apoio inabalável nesses tempos difíceis”. A lista não é completa — alguns países asiáticos que não estão na lista forneceram ajuda não letal — mas vale notar que não há verbetes da África ou da América do Sul.

Conforme a guerra se arrasta, a atenção nos EUA e em outros lugares tende a enfraquecer, e questões a respeito do impacto da guerra sobre os preços mundiais da energia e dos alimentos tendem a se intensificar. Um discurso de Biden, na terça-feira, a respeito da necessidade de apoiar a Ucrânia perdeu-se em meio ao alvoroço do vazamento do rascunho de decisão da Suprema Corte. E os US$ 33 bilhões que Biden busca em assistência militar e outras ajudas para a Ucrânia certamente encontrarão resistência, especialmente em razão de não haver nenhuma perspectiva de quando ou como esta guerra pode acabar.

O desvanecente comprometimento do Ocidente é parte do cálculo de Putin. Apesar dele parecer ter errado o cálculo sobre a fúria do Ocidente e a resposta à invasão, seus 22 anos de governo crescentemente autocrático lhe ensinaram que paixões invariavelmente se esvaem e que custos elevados erodem compromissos.

Enquanto ex-agente da KGB, Putin vê o mundo como um campo de batalha de manobras conspiratórias. Em seus discursos, as revoluções coloridas na Ucrânia e em outras ex-repúblicas soviéticas, assim como a Primavera Árabe e outros levantes pelo planeta, não passam de maquinações para consolidar o domínio americano. Enquanto herdeiro da visão de mundo soviética, ele acredita — mais do que muitos líderes ocidentais — na importância da guerra de informação tanto para dar ao seu regime um lustro de legitimidade quanto para desafiar a democracia liberal. Nesse campo de batalha, mentiras são a munição da duradoura e cada vez mais pessoal luta de Putin para permanecer no poder.

À medida que a guerra entra numa nova fase, enquanto suas imagens e horrores se normalizam e os custos aumentam, fica ainda mais difícil para o governo Biden e Zelenski manterem sua liderança inicial na guerra de informação. Isso torna ainda mais imperativo para o Ocidente pressionar com a narrativa de que esta guerra não foi escolha da Ucrânia e de que o custo de permitir a Putin conseguir o que ele quer seria muito maior do que os sacrifícios necessários para impedi-lo. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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