Erro das pesquisas sugere que os EUA estão mais conservadores

As pesquisas eleitorais nos EUA deixaram a desejar, de novo. Indicavam vitória de Joe Biden por margem maior. Em 2016, apontavam vitória de Hillary Clinton. A autocrítica em andamento sugere que o país é mais conservador do que os institutos imaginavam.

No fim da apuração dos votos, Biden deve ficar com 4,5 a 5 pontos de vantagem sobre Trump – ante 7,2 pontos que a média das pesquisas nacionais do site Real Clear Politics apontava. Nem todos erraram. Institutos como AtlasIntel e o do Emerson College previam vantagem de 5 e 4 pontos, respectivamente, enquanto Ipsos dava sete pontos, o que estaria certo com margem de erro de 2,5 pontos. 

Em alguns Estados competitivos, como Wisconsin e Ohio, os erros foram maiores, e a disputa foi muito mais apertada do que pesquisas sugeriram. Institutos locais parecem ter se saído melhor do que os nacionais nos Estados. 

Uma análise mais precisa sobre o que deu errado deve levar tempo. Primeiro é preciso que a apuração seja concluída. Em seguida, uma força-tarefa dos institutos de pesquisa, liderada pela Associação Americana para Pesquisa de Opinião Pública (Aapor, na sigla em inglês), vai esmiuçar os dados para entender o que ocorreu. Mas institutos e analistas já têm hipóteses. 

A mais óbvia é a de que o eleitorado mais conservador do presidente Donald Trump foi subrepresentado nas pesquisas, especialmente nas amostras de “likely voters” – aqueles que de fato votarão. Uma das razões por trás da subrepresentação desse voto pode ser explicada pela falta de confiança desse eleitorado nos institutos. 

“É plausível não ter havido apoiadores de Trump o suficiente porque eles confiam menos nas instituições, neste caso institutos de pesquisas ligados a jornais, TVs ou universidades”, diz Scott Keeter, assessor sênior para pesquisas do Pew Research Center. Ele aponta possíveis semelhanças entre esses eleitores, os de Jair Bolsonaro no Brasil e os que votaram pelo Brexit em 2016 – que tampouco foram capturados por pesquisas. “É uma boa teoria, mas ainda não sabemos o quanto disso é real.” 

Keeter afirma que esse será um problema difícil de se consertar em pesquisas futuras, que exigirá elevar esforços para que esse eleitorado acredite que os institutos não estão enviesados contra ele. 

Depois de 2016, a maioria dos institutos fez ajustes para incluir em suas amostras o eleitor branco, rural e com baixo grau de escolaridade, que foi crucial para a eleição de Trump há quatro anos. Mas o contexto desafiou mudanças metodológicas e técnicas antigas.

A pandemia levou a uma votação antecipada recorde – estima-se que 60% tenham votado antes. O voto antecipado por correio, no entanto, exige certo treinamento e pode ser facilmente invalidado. Se a assinatura do eleitor for diferente da registrada no Escritório Eleitoral ou se a cédula não for enviada no envelope correto, o voto é anulado. Isso pode ter ocorrido com parte dos votos democratas enviados por correio, afirma Scott. 

Outro aspecto relacionado à pandemia diz respeito à própria campanha. Apoiadores de Trump tendem a se preocupar menos com covid-19 e fizeram campanha presencial, batendo de porta em porta na reta final. Os democratas, não. Isso pode ter favorecido Trump e também ajuda a explicar por que, provavelmente, mais eleitores do presidente americano votaram no dia da eleição do que apoiadores de Biden. 

Relatório recente do Pew fala ainda do possível voto envergonhado em Trump, o que faria entrevistados não declararem a real intenção de voto. “(…) Nem todos os entrevistados que apoiaram Trump podem ter sido honestos sobre seu apoio a ele, seja por algum tipo de preocupação em ser criticado por apoiar o presidente ou simplesmente pelo desejo de enganar”, afirma o Pew em um post sobre pesquisas em seu blog. 

Um problema que se mostra comum a todos os institutos e vem sendo um desafio cada vez maior em países onde o voto é obrigatório é capturar a real taxa de intenção de voto. Como há quatro anos, a amostra de eleitores que provavelmente votarão foi falha – além de uma taxa de votação recorde (65,1%), muito mais gente votou em Trump do que se esperava. 

Mas como realmente saber quem vai votar no dia da eleição? Jonathan Hanson, especialista em estatística e políticas públicas da Universidade de Michigan, afirma que talvez seja preciso uma combinação mais complexa de respostas para saber quem vai de fato votar. 

 “Os institutos podem definir esse eleitor simplesmente perguntando se ele pretende votar. Ou combinar isso a outras respostas a perguntas como ‘o quanto você está interessado na campanha?’ ou ‘você sabe onde é seu local de votação?’”, diz. “Segundo as respostas, é possível captar a provável taxa de intenção de voto. Se alguém disser que pretende votar, mas não sabe onde se vota, por exemplo, pode ser excluído dessa amostra.” 

Outro ajuste que talvez tenha de ser feito é sobre o real peso do candidato e o quanto ele é capaz de mobilizar seu eleitorado, afirma Clifford Young, do Ipsos nos EUA. “Um ponto de reflexão será: até que ponto a marca Trump pesou na decisão de quem votou?”, diz. 

Young afirma que Trump é uma figura que as pessoas amam ou odeiam, e isso pode pesar de forma diferente nas pesquisas. “Hoje sabemos que muito mais eleitores de Trump ficaram foram do grupo de ‘likely voters’”, argumenta. “Isso mostra que a marca Trump pesou, mas não capturamos isso nos nossos modelos. Se o Pelé decide concorrer para presidente no Brasil, talvez haja pessoas que inicialmente não iriam votar, mas que decidem sair de casa para votar nele.” 

Para Andrei Roman, fundador da AtlasIntel, o grande problema das pesquisas é a baixa taxa de resposta. “Se um instituto liga para 100 pessoas e consegue cinco entrevistas, não dá para assumir que sua amostra é representativa (de todos os subgrupos importantes)”, diz. “Se isso ocorre, não há como garantir que sua seleção é aleatória. Em vez disso, deve-se supor o contrário e rever a metodologia para lidar com esse potencial viés.” 

O problema de representatividade nas amostras talvez ajude a explicar por que nos Estados mais competitivos quem acertou mais foram os institutos locais. Eles conhecem a cultura política local e talvez estejam pesando melhor os subgrupos nas amostras, afirma Scott. “Outra vantagem é o fato de institutos que trabalham para jornais locais serem mais conhecidos e, talvez por isso, terem a confiança de mais eleitores do que os institutos nacionais”, acrescenta. 

Em Iowa, o instituto Selzer & Co., que fez pesquisa para o jornal local “The Des Moines Register”, previu que Trump venceria por sete pontos no Estado, quando outras pesquisas falavam em dois pontos. Trump derrotou Biden com diferença de 8,2 pontos no Estado. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/11/20/erro-das-pesquisas-sugere-que-os-eua-estao-mais-conservadores.ghtml

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