Conflito recrusdesce e ameaça envolver mais países do Oriente Médio

A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã entrou em uma nova e mais perigosa fase ontem, ampliando-se para além do território iraniano e arrastando o Líbano e países do Golfo para o centro do conflito. Sem qualquer sinal de desescalada – e com o presidente Donald Trump prometendo uma “grande onda” de ataques ainda por vir – o envolvimento direto de novos atores aprofunda temores de uma guerra prolongada no Oriente Médio, sem prazo para acabar.

Após a morte do líder supremo Ali Khamenei no fim de semana, Teerã intensificou disparos de mísseis e drones contra países do Golfo Pérsico. Paralelamente, o Hezbollah – aliado do regime iraniano – lançou projéteis contra Israel a partir do Líbano, abrindo uma nova frente de combate e provocando bombardeios israelenses em Beirute.

Para Thomas Wright, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional no governo Biden e pesquisador sênior da Brookings Institution, as primeiras 48 horas do conflito já configuram uma escalada significativa, avaliando que os ataques devem se prolongar por bastante tempo com o envolvimento de outros atores da região.

“Se chegarmos ao fim da semana e as respostas iranianas pela região continuarem, e se eles forem percebidos como relativamente resilientes aos ataques, isso pode ter impacto na situação geral”, afirma Wright. “Acho que será difícil para países que estão sendo atacados ficarem de fora. Eles provavelmente acabarão entrando no conflito, direta ou indiretamente.”

Reforçando a possibilidade de escalada, Trump afirmou ontem que os EUA têm “capacidade de prolongar por muito mais tempo” do que o prazo projetado de quatro a cinco semanas para suas operações militares contra o Irã. Durante uma cerimônia de entrega da Medalha de Honra, na Casa Branca, ele também detalhou pela primeira vez um conjunto de quatro objetivos que espera alcançar para reduzir a ameaça que, segundo ele, é representada por Teerã.

“Estamos destruindo a capacidade de mísseis do Irã, e estamos fazendo isso a cada hora”, disse Trump, acrescentando que os ataques também estavam “aniquilando sua Marinha” e garantindo que “este regime doentio e sinistro” em Teerã “nunca mais poderá obter uma arma nuclear” ou continuar a patrocinar grupos militantes em todo o Oriente Médio.

Embora no sábado tenha mencionado o objetivo central de derrubar o regime iraniano, Trump não colocou isso nas declarações mais recentes, adotando um tom menos explícito. Em meio às contradições, Wright vê sinais de possíveis divergências estratégicas entre Washington e o governo israelense do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, quanto ao desfecho desejado para o conflito.

“[Benjamin] Netanyahu quer destruir o regime – incluindo a Guarda Revolucionária (IRGC) – e estabelecer algum tipo de governo alternativo no Irã que, se não for democrático, seja pelo menos menos hostil a Israel”, diz o especialista. “Acho que Trump também gostaria disso, mas talvez não se importe tanto com essa questão e estaria perfeitamente disposto a adotar um ‘modelo venezuelano’, no qual outra pessoa de dentro do próprio regime assumiria o poder, desde que estivesse disposta a assinar um acordo nos termos dele e trabalhar mais alinhada com ele”

Além disso, o Trump disse à emissora americana CNN que uma “grande onda” de ataques ainda está por vir e afirmou ao New York Post que não descarta o envio de tropas terrestres ao Irã. “Nem começamos a atingilos com força”, disse. “A grande onda ainda nem aconteceu. A maior está chegando em breve.”

Apesar das novas ameaças, o regime iraniano se manteve firme desde os ataques de sábado e deu continuidade à retaliação, lançando ondas de mísseis contra alvos em países que abrigam instalações militares dos EUA. No Kuwait, uma fumaça preta foi vista nas proximidades da embaixada dos EUA, e três caças F-15 americanos foram abatidos por engano, segundo o Exército dos EUA. Todos os seis tripulantes foram resgatados em segurança.

Também foram registradas fortes explosões em Dubai e Samha, nos Emirados Árabes Unidos, e em Doha, capital do Catar. Um dos maiores exportadores mundiais de gás natural liquefeito, o Catar interrompeu a produção, alegando não haver condições seguras para escoamento pelo Estreito de Ormuz (leia mais ao lado).

A Arábia Saudita, por sua vez, fechou a refinaria de Ras Tanura, uma das maiores do país, após ataques com drones provocarem um incêndio no local – uma das várias instalações de energia que se tornaram alvo do Irã. Além disso, a embaixada dos EUA em Riad foi atingida por dois drones, resultando em incêndio “limitado” e danos materiais leves ao edifício, informou ontem o Ministério da Defesa saudita.

“Isso expõe as limitações do Irã nos ataques”, afirma Wright. “Basicamente, eles estão lançando drones contra áreas turísticas nos Emirados Árabes Unidos e atingindo setores de energia e de dados onde conseguem, mas, até agora, parecem menos capazes de atingir diretamente tropas americanas e israelenses.”

No primeiro ataque a atingir aliados dos EUA na Europa, um míssil iraniano do tipo Shahed atingiu a base aérea britânica de Akrotiri, no Chipre. O Reino Unido e o Chipre afirmaram que os danos foram limitados e não houve vítimas. Aliados europeus, que inicialmente se distanciaram da decisão de Trump de entrar na guerra, passaram a sinalizar disposição para ajudar a conter a capacidade de retaliação do Irã.

Após a entrada do Hezbollah no conflito em apoio a Teerã, a resposta de Israel no Líbano – incluindo bombardeios direcionados aos subúrbios do sul de Beirute – matou ao menos 50 pessoas e deixou mais de 150 feridos, forçando milhares a deixar suas casas, segundo as autoridades libanesas.

Em reação à decisão do Hezbollah de se juntar ao confronto, o primeiro ministro libanês, Nawaf Salam, afirmou que o governo decidiu proibir todas as atividades militares do grupo, classificadas como ilegais, e exigiu que a organização entregue suas armas e passe a atuar exclusivamente como partido político.

Do lado americano, os militares informaram ter atingido mais de 1.250 alvos no Irã desde o início das operações, incluindo centros de comando e controle, o quartel-general da IRGC e de sua Força Aeroespacial, além de sistemas de defesa aérea, instalações de mísseis balísticos e antinavio embarcações, submarinos e redes de comunicação militar. A Cruz Vermelha do Irã elevou o número de mortos no país para 555 e afirmou que mais de 130 cidades em todo o país foram atacadas.

Em comunicado separado, o Comando Central das Forças Armadas dos EUA afirmou ter destruído 11 embarcações iranianas. Seis americanos morreram no conflito.

Nesse cenário, Wright avalia que a estratégia do Irã de ampliar o conflito e arrastar outros atores regionais pode sair pela culatra, ao estimular a formação de uma coalizão mais ampla contra Teerã.

“O que fizeram pode ser visto como tão indiscriminado que acabe produzindo o efeito contrário ao desejado”, diz. “Se a intenção era isolar EUA e Israel, podem acabar reforçando o argumento de que o regime é, de fato, uma força altamente desestabilizadora na região.” (Com agências internacionais)

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/03/03/conflito-recrusdesce-e-ameaca-envolver-mais-paises-do-oriente-medio.ghtml

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