Com o fim das midterms, aliados árabes dos EUA se preparam para a guerra

Nos saguões de mármore de um hotel cinco estrelas em Manama, capital do Bahrein, oficiais militares em trajes de gala se misturaram a embaixadores e analistas políticos no último fim de semana, trocando cartões de visita e conversando enquanto saboreavam pratos de tiramisù com café árabe.

Os sorrisos e os apertos de mão calorosos no encontro – o Diálogo de Manama, uma conferência anual sobre segurança – escondiam o tema sombrio que dominava boa parte das conversas. A possibilidade de que os Estados Unidos pudessem, em questão de dias, retomar a guerra contra o Irã, o que provocaria uma onda de ataques com mísseis e drones iranianos contra a própria cidade onde estavam reunidos, pairava sobre o evento como uma nuvem escura.

Enquanto o presidente americano, Donald Trump, avalia um novo ataque ao Irã em algum momento após as eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3, autoridades dos países árabes do Golfo temem que seus países – que abrigam bases militares americanas, empresas ocidentais e valiosas instalações de petróleo e gás – sejam os mais atingidos, como ocorreu depois que os EUA e Israel atacaram o Irã em fevereiro. Elas também temem que os combates sejam ainda mais intensos desta vez.

As posições iraniana e americana sobre um possível acordo para evitar uma crise ainda estão “muito distantes”, disse Anwar Gargash, uma autoridade de alto escalão dos Emirados Árabes Unidos, aos participantes da conferência. “Se essas posições não forem aproximadas, então teremos de nos preocupar com o pior.”

As Forças Armadas dos EUA realizaram ataques limitados à ilha iraniana de Qeshm nesta segunda-feira, 2, segundo autoridades americanas. Ainda assim, Trump disse à emissora Fox News no mesmo dia que “há uma chance muito boa de chegarmos a um acordo”.

Autoridades militares americanas e israelenses elaboraram uma lista ampliada de alvos para atacar, incluindo instalações de energia e outros locais vitais para a economia iraniana. O Irã advertiu que retaliaria com força, atacando infraestruturas críticas e cabos submarinos de comunicação na região.

Os países do Golfo já estão abalados e trabalham para reparar infraestruturas de energia e sistemas de radar danificados na última rodada de ataques, além de lidar com grandes impactos econômicos. Embora seus governos operem sistemas avançados de defesa aérea e tenham trabalhado para reforçar suas defesas, a capacidade de se protegerem de novos ataques é limitada pela escassez global de interceptadores de mísseis.

A Arábia Saudita também se prepara para a possibilidade de uma guerra em várias frentes, enquanto os houthis, rebeldes iemenitas apoiados pelo Irã, lançam ataques com mísseis e drones contra o reino quase diariamente, tendo como alvos aeroportos e instalações petrolíferas.

Os países do Golfo, ricos em energia, há muito se apresentam a turistas e investidores como refúgios seguros em um Oriente Médio volátil. Agora, alguns cidadãos e residentes estão estocando água e dinheiro ou preparando “bolsas de emergência” com itens essenciais para levar em caso de fuga de casa. Outros mudaram seus planos de viagem para voltar para casa o mais rápido possível, preocupados com a possibilidade de ficarem retidos fora da região caso ataques com mísseis e drones levem os países a fechar seu espaço aéreo.

Embora um cessar-fogo preliminar tenha sido alcançado em junho – seguido por vários meses de impasse e episódios esporádicos de combates -, moradores do Golfo temem que agora seja “apenas uma questão de tempo” até que seus países sejam arrastados de volta para uma guerra em grande escala, disse Khalid Al-Jaber, diretor-executivo do Conselho do Oriente Médio para Assuntos Globais, instituto de pesquisa sediado no Catar.

“A parte assustadora desta vez é que a guerra será pior do que antes”, afirmou. “Será maior. Será muito mais difícil para todos.”

Os últimos dias foram marcados por uma intensa movimentação diplomática e por apelos à desescalada entre os aliados árabes mais próximos de Trump, incluindo a Arábia Saudita, que enviou seu ministro da Defesa, Khalid bin Salman Al Saud, ao Irã na semana passada para defender a paz. O Catar tem liderado um esforço para chegar a um acordo entre autoridades iranianas e americanas antes que seja tarde demais. Nos últimos dias, autoridades iranianas sinalizaram que as negociações avançaram.

Embora Trump tenha dito que não atacaria antes das eleições de meio de mandato, ele deu a entender que, depois delas, todas as possibilidades estarão em aberto.

Como resultado, as eleições se tornaram um marco sombrio na contagem do tempo para pessoas em todos os países árabes do Golfo, muitas das quais sabem pouco sobre o sistema eleitoral americano ou sobre os candidatos que disputam os cargos.

O que elas sabem é que, até o fim das eleições de meio de mandato, podem esperar, razoavelmente, que suas vidas continuem normalmente. Podem dirigir até o trabalho e ir ao shopping, navegar pela Netflix no celular e cuidar de seus jardins com água dessalinizada em abundância.

Depois disso, ninguém sabe o que acontecerá.

“Estamos extremamente preocupados”, disse Badr Abdelatty, ministro das Relações Exteriores do Egito, na conferência em Manama. “Precisamos fazer um esforço muito grande para impedir a escalada. Estamos muito confiantes de que a segunda rodada será mais perigosa, mais destrutiva e não levará a lugar nenhum.”

Donald Blome, subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos do Oriente Próximo, disse aos participantes da conferência que os canais diplomáticos entre Washington e Teerã continuavam ativos, embora os americanos estivessem “preparados para seguir em outra direção”.

O evento terminou no domingo, 1º, e muitos dos participantes deixaram a região o mais rápido possível.

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