Biden revê política externa e faz alerta à Rússia

O presidente dos EUA, Joe Biden, diante de uma série de desafios iniciais na política externa, delineou sua visão para expandir o envolvimento multilateral do país com o mundo e dar ênfase aos direitos humanos, durante visita ao Departamento de Estado ontem. 

Em seu primeiro discurso sobre política externa como presidente, Biden disse que buscou contato com os aliados americanos tradicionais – como Canadá, México, Reino Unido, Alemanha, França, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Japão, Coreia do Sul e Austrália – para começar “a recompor os hábitos de cooperação e reconstruir a força das alianças democráticas que se atrofiaram ao longo dos últimos anos de negligência e, eu diria, de abusos.” 

“As alianças dos EUA são nosso maior patrimônio. E liderar com diplomacia significa ficar lado a lado com nossos aliados e principais parceiros mais uma vez”, afirmou. O presidente americano não mencionou o Brasil – tampouco falou com o presidente Jair Bolsonaro desde que assumiu. 

Os comentários do presidente marcam uma mudança na doutrina do governo Trump de “os EUA em primeiro lugar”, que na avaliação de Biden minou a influência do país no exterior. 

O novo presidente americano também quis mostrar ao mundo seu afastamento drástico em relação ao presidente russo, Vladimir Putin, em uma contraposição ao republicano Donald Trump, que evitou o confronto direto e muitas vezes procurou minimizar as ações danosas do dirigente russo. 

Biden disse ontem que os dias de “submissão” dos EUA ao presidente russo acabaram, e cobrou a libertação imediata do líder da oposição russa Alexei Navalny. 

Navalny, ativista anticorrupção e adversário político mais relevante de Putin atualmente, foi preso em 17 de janeiro. A detenção ocorreu quando Navalny voltava de uma estadia de cinco meses na Alemanha, onde se recuperava de um envenenamento por um agente neurotóxico que ele atribuiu ao Kremlin. 

“Deixei claro ao presidente Putin, de uma maneira muito diferente de meu antecessor, que os dias em que os EUA aceitavam passivamente as ações agressivas da Rússia – a interferência em nossa eleição, os ataques cibernéticos, o envenenamento de seus cidadãos – acabaram”, disse Biden, que na semana passada falou com Putin. Segundo funcionários da Casa Branca, foi uma primeira conversa tensa. 

“Não hesitaremos em elevar o custo sobre a Rússia e em defender nossos interesses vitais e o nosso povo”, continuou Biden. 

Antes de seu discurso, o presidente americano e a vice-presidente, Kamalla Harris, se reuniram com o secretário de Estado, Antony Blinken, e falaram aos funcionários do Departamento de Estado, na primeira visita do presidente a um órgão do governo desde que assumiu o poder. 

As observações de Biden procuraram elevar o ânimo depois de discordâncias entre funcionários de carreira e a liderança política e a saída de experientes diplomatas no governo de seu antecessor. 

“No nosso governo vocês contarão com nossa confiança e serão empoderados”, disse Biden. “Os EUA estão de volta. A diplomacia está de volta. Vocês são o centro de tudo o que eu pretendo fazer. São o cerne disso. Vamos reconstruir nossas alianças.” 

O ex-presidente Trump encarava com grande desconfiança as alianças feitas pelos EUA no pós-Segunda Guerra, ao ver os membros da Otan como concorrentes econômicos que deveriam pagar mais por sua própria defesa. Trump apoiou fortemente a Arábia Saudita e seu príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, e vetou tentativas do Congresso de conter vendas de armas a Riad. 

Biden disse ontem que está pedindo uma avaliação integral do Pentágono sobre a postura militar dos EUA no mundo inteiro. Isso inclui congelar o plano de Trump de retirar cerca de 9.500 soldados da Alemanha – iniciativa que chocou aliados europeus e gerou protestos de democratas e republicanos no Congresso. 

O presidente também está encerrando o apoio dos EUA a operações ofensivas no Iêmen, dando sequência a um movimento anterior para interromper a venda de tecnologia de bomba inteligente para a Arábia Saudita. O país foi criticado pela maneira como conduziu a guerra contra os rebeldes houthis do país vizinho, alinhados ao Irã. O governo Biden irá nomear um enviado especial para o Iêmen, encarregado de ajudar a acabar com o conflito. 

Biden disse que sua política externa será elaborada para beneficiar a classe média americana. “Todas as ações que adotamos em nossa conduta no exterior precisam ter em mente as famílias trabalhadoras americanas”, disse. 

Biden enfatizou o interesse bipartidário nos EUA em ver os militares recuarem em Mianmar, após tomarem o poder no fim de semana. Ele afirmou que esse foi um problema que ele discutiu com o líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell, e também com líderes estrangeiros. 

“Os militares birmaneses deveriam renunciar ao poder que eles tomaram”, disse Biden. Mais cedo ontem, os EUA e a China chegaram a um acordo sobre a questão de Mianmar no Conselho de Segurança da ONU, que emitiu uma declaração pedindo que todas as pessoas detidas pelos militares sejam libertadas. 

O presidente disse ainda que aumentará o limite de admissão de refugiados no próximo ano fiscal para 125 mil pessoas – mais do que oito vezes acima do limite de 15 mil implementado por Trump em seu último ano no cargo. O número de Biden é também maior do que o teto de 110 mil que o ex-presidente Barack Obama implementou no fim de seu governo. 

Ontem ainda o assessor de Segurança Nacional, Jake Sullivan, disse que o governo está realizando uma análise completa da decisão do governo Trump de se aproximar da Coreia do Norte. Sullivan, no entanto, não disse se Biden tentará se reunir com o líder Kim Jong-un, acrescentando que quaisquer esforços diplomáticos serão coordenados com o Japão e a Coreia do Sul. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/02/05/biden-reve-politica-externa-de-trump-e-faz-alerta-a-russia.ghtml

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