Milhares de manifestantes acampados na principal praça de Madri e em outras cidades espanholas exigiram nesta quarta-feira que o Parlamento aprove rapidamente novas medidas para proteger inquilinos e conter a grave crise habitacional do país.
Os protestos foram desencadeados na semana passada pelo dramático despejo de uma mulher de 87 anos de sua casa em Madri, onde vivia havia mais de sete décadas. O caso chamou a atenção para a crescente pressão sobre inquilinos de longa data nas principais cidades e destinos turísticos, onde a disparada dos aluguéis, a gentrificação e a escassez de moradias a preços acessíveis têm alimentado tensões sociais e políticas.
O governo minoritário de esquerda da Espanha aprovou dois decretos na terça-feira com uma série de medidas, incluindo a proibição de despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, mas sua plena implementação depende da aprovação da fragmentada Câmara dos Deputados, que deve realizar uma votação na sexta-feira.
Muitos ativistas disseram que mesmo essas medidas são insuficientes para enfrentar a crise.
“Não é suficiente. Talvez seja um ponto de partida ou uma medida paliativa”, disse à Reuters Julio Gomez, de 32 anos, funcionário do setor farmacêutico, acrescentando que estava disposto a permanecer com sua barraca na praça Puerta del Sol, em Madri, “pelo tempo que for necessário”.
Outros criticaram a decisão do governo de dividir as medidas em dois projetos separados, diante da expectativa de que um deles, que prorroga automaticamente os contratos de aluguel para evitar aumentos abusivos, seja rejeitado por uma estreita maioria de direita. “Eles fizeram isso para que um seja aprovado e o mais forte seja rejeitado, só para conseguir fazer um deles passar por muito pouco”, disse o veterinário Gonzalo Sánchez, de 26 anos.
O Sindicato dos Inquilinos de Madri, que organizou os protestos iniciais, classificou algumas das medidas como “migalhas”, embora também tenha chamado a iniciativa do governo de uma “vitória histórica” para o movimento social.
Enquanto isso, dezenas de pessoas se reuniram nesta quarta-feira em Burjassot, perto de Valência, para impedir o despejo de Daniel Gonzalez, professor universitário que vive em sua residência desde 2009. Diante do protesto, autoridades judiciais concordaram em adiar seu despejo por pelo menos dez dias.
Gonzalez disse que paga o aluguel em dia há mais de 17 anos, apesar de o imóvel ter mudado de mãos entre fundos de investimento. Após uma disputa judicial que durou quase uma década, porém, os tribunais acabaram decidindo a favor do proprietário.
A repercussão pública do despejo, na semana passada, de Maricarmen Abascal, de 87 anos, em Madri, levou a um acordo com o proprietário do imóvel, a empresa Urbagestion, para permitir que ela permaneça no apartamento pagando o mesmo aluguel. Ela continua hospitalizada após o despejo, mas deve voltar para casa nos próximos dias.
Ricardo Alonso, coproprietario da Urbagestion, disse ao jornal El Economista que ele e seu sócio foram alvo de uma campanha de pressão por causa do despejo e citou, entre os episódios, o envio de uma caixa contendo baratas vivas.
