Por que uma empresa de IA limpou gratuitamente um apartamento em Nova York

Imagine a cena: uma equipe de profissionais de limpeza com câmeras acopladas e, de quebra, uma pessoa responsável por preparar refeições, todos equipados com aparatos de gravação de alta tecnologia, chegando à residência de alguém.

Não se trata de um reality show, nem de um cenário saído de um romance de Aldous Huxley ou Margaret Atwood.

Trata-se, na verdade, de uma iniciativa em Nova York, onde empresas de IA têm enviado equipes de culinária e limpeza gratuitamente até a casa das pessoas.

Há, porém, uma condição: a empresa está coletando dados para treinar a próxima geração de robôs capazes de cozinhar e limpar, e cada centímetro do apartamento passa a ser registrado.

A iniciativa, chamada Shift, da empresa de IA Micro AGI, integra um movimento crescente de companhias que desenvolvem a próxima geração de robôs autônomos — que, segundo líderes do setor de tecnologia, poderiam no futuro executar tarefas que vão desde lavar louça até atuar como cuidadores residentes.

No apartamento no Upper East Side, a recepção é feita por dois jovens recém-formados, na faixa dos 20 e poucos anos, que circularam pelo ecossistema de startups em busca de oportunidades.

Como a demanda pelas limpezas gratuitas é muito alta, eles permanecem em Nova York por tempo indeterminado, realizando cerca de cinco limpezas por dia, cinco dias por semana. A principal diferença em relação a uma equipe de limpeza convencional é o uso de câmeras acopladas aos bonés, conectadas por cabos a seus celulares.

O objetivo central da oferta é registrar tarefas que exigem destreza manual, para treinar robôs do futuro a utilizar as mãos. Por isso, durante o trabalho, a atenção se concentra intensamente nas mãos enquanto as atividades são executadas.

“Toneladas” de dados

Bercan Kilic, fundador da Shift, afirmou à BBC que o objetivo do exercício de coleta de dados é “fazer a humanidade avançar”.

Ele citou modelos de IA existentes, como o ChatGPT, capazes de gerar frases a partir de textos previamente disponíveis online. No entanto, destacou que cada cozinha, sala e ferramenta é ligeiramente diferente, de modo que robôs precisariam ser treinados para se adaptar a ambientes distintos e ao uso de diferentes objetos.

Segundo Kilic, a maior dificuldade é que, para funcionar, as equipes de limpeza precisam coletar “toneladas” de dados.

“No mundo real, cada objeto é diferente, a iluminação é diferente e nada permanece igual ao que era algumas horas antes. Os modelos precisam aprender como as mãos, as câmeras e os ambientes funcionam juntos”, afirmou.

O modelo de negócios da empresa depende da possibilidade de vender os dados valiosos coletados dentro das residências, de forma anonimizada, para empresas de robótica e outras companhias de IA, a fim de treinar robôs.

Kilic afirmou que, no futuro, a Shift poderia oferecer serviços gratuitos ou com desconto para “qualquer habilidade que a humanidade consiga demonstrar”, observando que, além de limpar apartamentos em Nova York, a empresa também mantém equipes de mecânica consertando carros na Turquia.

Ainda não parece haver um limite claro para o que robôs humanoides poderiam fazer no futuro, e a BBC também reportou o desenvolvimento de robôs para apoiar soldados humanos em campo de batalha.

Preocupações com privacidade

Especialistas em dados e privacidade alertaram que consumidores devem ter cautela ao oferecer informações — especialmente acesso ao próprio lar — em troca de serviços supostamente gratuitos.

Rory Mir, diretor de acesso aberto e engajamento comunitário em tecnologia na organização Electronic Frontier Foundation (EFF), disse haver observado um “aumento preocupante” de práticas de “pagar com privacidade” e de “suborno por dados”.

“Ainda que isso venha acompanhado de dinheiro ou de um serviço imediato, os dados compartilhados podem retornar como um problema. Mesmo que exista confiança na empresa que coleta as informações, sempre há risco de que elas sejam repassadas a outras empresas ou governos”, afirmou.

“Já se passaram décadas em que nossos dados foram usados para nos manipular com publicidade e práticas predatórias, como a precificação por vigilância.”

Mir acrescentou que o compartilhamento de dados contribui para “sistemas que podem não ter os melhores interesses das pessoas em mente”.

Já Calli Schroeder, diretora do programa de IA e direitos humanos do Electronic Privacy Information Center (EPIC), classificou a iniciativa da Shift como “uma forma diabolicamente criativa de vender a invasão de privacidade”.

Ela afirmou que a tecnologia desenvolvida a partir dos dados coletados poderia, um dia, deixar trabalhadores de limpeza sem emprego. Também alertou que o benefício de uma limpeza gratuita é “insignificante” quando comparado ao potencial lucro de compilar e vender conjuntos de dados valiosos.

“Muita gente subestima o nível de informação sensível que gravações dentro de casa podem capturar”, disse.

“Não se espera que todo mundo goste”

Kilic, por sua vez, afirmou que a Shift seria “de longe a plataforma mais honesta” em relação ao que acontece com os dados.

“É evidente que dados são usados todos os dias, mas não se sabe para quê, e não há pagamento por isso”, disse, referindo-se às informações coletadas por sites e redes sociais.

“Mas um serviço gratuito significa que, ao menos, existe uma compensação; é tão honesto e transacional quanto isso”, acrescentou.

“Se não quiser participar, não precisa. Não se espera que todo mundo goste, e isso não é um problema.”

Enquanto algumas pessoas se preocupam com as implicações de privacidade dos planos da Shift, outras se mostram animadas com a possibilidade de participar ativamente da revolução da IA.

Os integrantes da equipe de limpeza comentaram a crença de que a IA deve transformar de maneira profunda o mundo do trabalho, mas que quem adere cedo não teria por que temer. Um deles afirmou ter enviado um kit de filmagem e monitoramento para a mãe, que grava imagens do próprio ponto de vista enquanto realiza tarefas domésticas.

E, embora a empresa alegue que os profissionais recebiam valores acima da média praticada para limpeza em Nova York, a equipe — formada por pessoas da Geração Z — aparentava entusiasmo genuíno em participar do boom da IA, ainda que isso significasse sujar as mãos em apartamento após apartamento na cidade.

https://www.bbc.com/news/articles/cpwerjy20kyo

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