A casa inteligente

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Boa parte do público não entende muito bem qual a utilidade de um assistente digital. Já uma caixa de som ligada a um serviço de streaming, isso todos entendemos bem. Portanto, o  principal lançamento da Apple, esta semana, foi o HomePod.

Não é grande: uma caixa de som cilíndrica, 17 centímetros de altura por 14 de diâmetro. Tampouco é um produto particularmente novo — Amazon, Google e Sonos têm máquinas que podem ser vistas como concorrentes. E, ao menos de cara, não parece trazer um algo a mais que justifique o preço de no mínimo o dobro perante as alternativas. Ainda assim, do ponto de vista do marketing, de como encara o mercado que deseja abrir, o HomePod é inovador, como mostrou artigo assinado por  Pedro Dória, publicado no estadão de 11/06.

Trata-se de um assistente digital. Serve para gerenciar uma casa inteligente. Mas não foi assim que a Apple o anunciou: ela diz estar vendendo uma caixa de som de grande qualidade que tocará a música que o usuário pedir por comando de voz. E este talvez seja um lance de gênio. Afinal, todo mundo terá um assistente digital. Serão tão comuns quanto smartphones. Mas boa parte do público não entende muito bem qual a utilidade de um aparelho destes. Já uma caixa de som ligada a um serviço de streaming como Spotify ou Apple Music, isso todos entendemos bem.

O ponto de confusão é a natureza de uma casa inteligente. Os produtos para montar uma já estão no mercado, mas não conversam entre si.

Há lâmpadas, por exemplo, de inúmeras marcas. Philips série Hue, Lifx, Osram série Sylvania. Todas se encaixam nos bocais comuns que já temos em casa. A diferença é que podem ser controladas pelo celular: liga e desliga, mexemos na cor, no nível de luminosidade, estabelecemos até cenários para mudar todas num só toque. Num clima romântico só algumas acendem, o leve alaranjado baixinho. Quando é preciso foco, um brancão forte — ou, então, um único foco azul escuro para ver o filme à noite.

Existem controles remotos inteligentes, como o Harmony, da Logitech. Controla a TV, AppleTV, Chromecast, caixa de cabo, barra de som ou sistema 5.1, até o CD Player de quem tem. Quer assistir ao canal de notícias? Num só botão ele liga tudo o que for necessário e já faz as escolhas corretas. Passar de lá para Netflix ou GloboPlay ou Amazon Prime é fácil — basta, também, um único botão.

Aqui, são raros, mas nos EUA termostatos inteligentes que gerenciam os aparelhos de ar condicionado e aquecedores da casa começam a ficar comuns.

O ponto fundamental é: fora do universo daquele tipo de gente que adota rápido novidades tecnológicas, estes equipamentos ainda são raros. Como existem, não conversam entre si — o sistema de ar, o controle remoto e as luzes. Máquinas como o HomePod, porém, conversam com todos. E, repentinamente, basta uma ordem de voz: ‘quero ver minha série’. A temperatura vai a 20°C, as lâmpadas ligam conforme sua preferência para ver TV e o serviço de streaming já está na tela, com o novo episódio no pause esperando seu play.

Até maio deste ano, 35,6 milhões de americanos tinham já uma máquina destas em casa — 130% mais do que no mesmo mês do ano anterior. Desta turma, quase 71% tinha um Echo da Amazon, e 24% o Google Home. Este é o mercado crescente no qual a Apple quer entrar. O maior uso é para responder perguntas simples. Vai chover hoje? Os assistentes respondem. Quanto deu a loteria? Ele também sabe. Me chama um Uber? Ele chama. O segundo maior uso é como caixa de som. Toque Sgt. Pepper’s, por favor.

Porque é este uso que as pessoas percebem de imediato. Dê uma ordem, ele executa. A ideia de que uma casa inteligente vai-se montando aos poucos ainda é abstrata. E, neste ponto, a Apple segue imbatível. Ela não está tentando, como Google e Amazon, vender o futuro próximo. Limita-se àquilo que as pessoas já conhecem.

Ainda assim, há um truque. Por enquanto, o HomePod só serve para quem tem AppleMusic. Usuários de Spotify ou Deezer fazem melhor em procurar os assistentes dos outros.

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