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A vitória do Homem Glúten ressentido

Pedro de Santi.

Há quase dois, anos, escrevi para este espaço um texto propondo o tipo “Homem glúten”, como uma das figuras da posição masculina do início do século 21 (http://notaalta.espm.br/fala-professor/o-homem-glutem-o-troglodita-e-o-to-de-boas-homens-do-seculo-21/).
Falava então sobre o padrão de homem médio que se sentia acuado pelos ativismos feminista, étnico e LGBT, que identificam o inimigo no homem branco heterossexual de classe média. Aquele tipo mediano, sempre dominante em nossa cultura, via-se pela primeira vez questionado e mesmo acuado, pelo discurso politicamente correto. Ele sentiu, então, o sabor da opressão sofrida por minorias sociais. A muitos, isto pareceu uma justiça, ou ainda, uma forma de leva-los à empatia por uma experiência que até então desconheciam.
De improviso e em tom anedótico, ao longo de um debate com alunos da ESPM, veio-me à mente a ideia de que aquele homem tornara-se um significante negativo, o vilão da vez, como acontecia então com o glúten, no campo na nutrição. Gordura, açúcar, sal; todos foram alvos específicos da vigilância alimentar. Mas chegara a vez do glúten. Chegamos a ter anúncios de água mineral que ostentam em suas embalagens: “sem glúten”! Assim criei o “Homem glúten”.
Também neste espaço, por muitas vezes tematizei a importância dos coletivos e ativismo em direção de uma convivência social mais tolerante, considerando-os uma das faces mais positivas da política, neste século. Mas também, por vezes, chamei a atenção para a dimensão repressiva envolvida num policiamento ostensivo da expressão alheia. Se tratava de maior tolerância ou de nova ordem? Mais tolerância implica em mais vozes com direito de serem ouvidas; nova ordem implica na mesma violência excludente, apenas com outra referência.
Se fosse esta última possibilidade, teríamos uma nova versão do mecanismo psicológico da identificação com o agressor. Aquele que se viu oprimido, ao se ver em posição de poder, reproduz a opressão sofrida. E não muda o jogo, como se poderia esperar que acontecesse.
Os perigos do uso da repressão como forma de impor uma nova ordem politicamente correta pareciam claros. Em termos de repressão, o modelo anterior tem muito mais experiência e tradição.
Não deu outra. O policiamento voltou às mãos de quem com ele tem maior intimidade. Num efeito quase como de um elástico tenso estalando, vemos o retorno do Homem glúten ao centro da agenda. Está difícil aguentar o Facebook: das pessoas mais inesperadas vemos a expressão de valores que pareciam ter desaparecido, mas que revelam ter estado apenas calados.
Um dos impasses dos grupos que se declaram oprimidos foi apostar na identidade de vítimas, a serem compensadas socialmente. Mas isto os mantinha na posição de vítimas. O Homem glúten tem feito o mesmo e está, literalmente, se armando a título de defesa.
Sendo eu mesmo branco (predominantemente), de classe média (enquanto der) e heterossexual (até prova em contrário), poderia estar feliz com esta reviravolta, só que não.
Ainda sonho com um ambiente que esteja em conflito, mas não cindido em dois (e por dois tão ruins, no caso) ou dominado por qualquer um. Isto para todos nós, mas meu narcisismo se desloca de minha existência imediata para o futuro de minhas filhas. Que elas vivam num mundo com menos ressentimento odioso.

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