Soberanismo em Perspectiva Comparada: Javier Milei, AfD e os Limites da Integração Regional

Anthony Inforçatti Oaks

Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)

Coordenador: Prof. Dr. Roberto Rodolfo Georg Uebel

O avanço do regionalismo nas últimas décadas trouxe dilemas centrais para os Estados nacionais: até que ponto a integração econômica e política fortalece ou limita a soberania? Nesse cenário, Javier Milei, presidente da Argentina, e o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) se destacam por suas posturas críticas às estruturas supranacionais: o Mercosul e da União Europeia, respectivamente. Embora situados em contextos distintos, ambos convergem em um discurso diante da soberania e um discurso populista que questiona a legitimidade das uniões aduaneiras.

Milei critica abertamente a Tarifa Externa Comum do Mercosul, argumentando que ela mobiliza a política comercial argentina e impede acordos bilaterais mais vantajosos. Sua visão reflete uma descrença em relação à lógica de integração regional, vista como um obstáculo à liberdade econômica e à abertura irrestrita ao mercado global. De forma paralela, a AfD rejeita as regulações comunitárias da União Europeia, denunciando a “burocracia de Bruxelas” e defendendo a retomada da soberania monetária e comercial da Alemanha. A crítica ao euro e às normas comunitárias ecoa um euroceticismo que busca reverter a centralização de poder em instituições supranacionais.

Tanto Milei quanto a AfD privilegiam acordos bilaterais e a autonomia nacional frente às pressões de integração. Para Milei, a Argentina deveria negociar diretamente com parceiros estratégicos sem depender dos vínculos do Mercosul. Já a AfD sustenta que a Alemanha deve recuperar sua capacidade de decisão econômica, reduzindo a influência de órgãos supranacionais da UE. Esse posicionamento revela uma lógica de soberanismo que se opõe ao multilateralismo profundo, questionando a perda de autonomia nacional e vendo a integração como uma ameaça à liberdade de ação dos Estados.

O discurso de Milei é marcado por uma retórica anti-sistema, que contrapõe o “povo” às elites políticas e burocráticas. Seu uso de decretos e medidas rápidas busca contornar consensos parlamentares e acelerar reformas econômicas, reforçando uma lógica de liderança personalista. A AfD, por sua vez, mobiliza um discurso populista de direita, apresentando-se como defensora do povo contra as elites de Bruxelas e contra partidos tradicionais alemães. A retórica dura contra instituições comunitárias e nacionais reflete tendências autoritárias, em que a legitimidade política é construída na oposição às estruturas estabelecidas.

A análise comparativa mostra que Javier Milei e a AfD compartilham uma agenda soberanista e populista que desafia os fundamentos do regionalismo global. Ao rejeitarem a integração profunda e privilegiarem acordos bilaterais, ambos fragilizam os blocos econômicos e reforçam a fragmentação do sistema internacional. O impacto dessa postura é a erosão da lógica cooperativa que sustenta o regionalismo global, abrindo espaço para um cenário de maior unilateralismo e competição entre Estados.

Deixe um comentário