Maksut Shadayev, ministro do governo russo, participou de uma reunião televisionada com o presidente Vladimir Putin neste verão [no Hemisfério Norte] para apresentar uma reclamação – e um discurso.
Cerca de 90 milhões de russos estavam usando aplicativos de mensagens como o WhastApp, cujos proprietários estavam se “comportando de uma maneira cada vez mais destrutiva em relação aos usuários russos”, disse Shadayev. Sua solução: um “aplicativo de mensagens totalmente russo”. “Isso é extremamente importante”, respondeu Putin.
Semanas depois, o presidente sancionou uma lei estabelecendo um “aplicativo de mensagens nacional” e concedeu esse status ao Max, um aplicativo pouco conhecido, de propriedade da principal rede social russa, a Vkontakte (VK), controlada diretamente pelo círculo íntimo de Putin.
Desde então, a Roskomnadzor, autoridade que regula a internet na Rússia, “restringiu parcialmente” as chamadas pelo Telegram e WhatsApp, alegando que elas são usadas para dar “golpes”, “extorquir”e “promover atividades terroristas e de sabotagem”.
As medidas foram passos importantes em uma das maiores repressões às liberdades on-line desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. O Estado também está mirando redes privadas virtuais (VPNs), criminalizando pessoas que acessam “materiais extremistas” pela internet, agindo para “estrangular” tecnologias de países “hostis” e forçando trabalhadores migrantes a instalar um aplicativo de vigilância em seus dispositivos.
Ativistas de direitos digitais temem que o Max sirva como um livro aberto para o governo, oferecendo novas formas de vigiar e perseguir críticos do regime. Os serviços de segurança já têm acesso ilimitado aos dados da controladora VK – e, ao contrário do WhatsApp e Telegram, o Max não possui criptografia de ponta a ponta, o que significa que as mensagens são armazenadas nos servidores da VK. O contrato de uso do Max também permite explicitamente o compartilhamento de dados com órgãos de segurança.
“O Max é basicamente um cavalo de Tróia”, diz Mikhail Klimarev, presidente da ONG Internet Protection Society. Ele observa que a maioria das condenações criminais por manifestações on-line já decorre de atividades na VK e acrescenta: “É impossível acreditar que o Max será diferente”.
O WhatsApp denunciou as restrições como “tentativas do governo de violar o direito das pessoas à comunicação segura” e prometeu fornecer “comunicação criptografada de ponta a ponta, inclusive na Rússia”.
O Telegram disse que já está “combatendo ativamente o uso malicioso de sua plataforma”, segundo um comunicado citado pela agência estatal de notícias Tass.
Em 2014, a VK foi confiscada de seu fundador Pavel Durov, que então lançou o Telegram como uma alternativa segura. Agora, a VK está, na prática, sob controle da estatal de energia russa Gazprom e Yuri Kovalchuk, frequentemente chamado de o “banqueiro pessoal” de Putin.
Segundo uma fonte, a VK começou a trabalhar no Max em 2024 e o conceito é parecido com o WeChat da China: reunir mensagens, serviços governamentais e operações bancárias em uma única plataforma.
Uma campanha de marketing agressiva foi feita no começo do verão, com celebridades ligadas ao governo promovendo o Max como tendo conexão estável em qualquer lugar – um recurso essencial na Rússia de hoje, onde a internet frequentemente cai devido a ataques ucranianos e experimentos do próprio Estado.
“Fiquei impressionado com o fato de ele funcionar até mesmo no estacionamento”, escreveu no Instagram um influenciador renomado, sobre o Max.
A partir desta semana, as escolas passarão a ter de usá-lo para conversas oficiais. As operadoras de telecomunicações russas começaram a permitir o uso do Max pelos clientes sem que eles esgotem seus limites mensais de dados. Muitas autoridades e governos municipais transferiram as comunicações para o Max.
A tática funcionou: o número de usuários do Max passou de 1 milhão no começo de junho para os atuais 30 milhões, segundo sua assessoria de imprensa. O WhatsApp e o Telegram possuem, cada um, mais de 90 milhões de usuários russos mensais, segundo a empresa de pesquisas de mídia Mediascope.
O novo aplicativo surge no momento perfeito para a VK, que teve um prejuízo de 94,9 bilhões de rublos (US$ 1,2 bilhão) no ano passado, apesar de sua receita ter crescido quase 25%. A VK não respondeu imediatamente a um pedido para comentários feito na quinta-feira. Na metade de julho, Putin ordenou medidas para “estrangular” softwares de países “hostis” – que incluem os EUA, Reino Unido e Estados-membros da União Europeia. “Eles estão tentando nos estrangular, e devemos responder da mesma forma”, disse ele.
Se o governo vai se contentar com as “restrições parciais” ou avançar para uma proibição total, ainda é uma questão em aberto.O WhatsApp, controlado pela Meta, tem sido alvo de atenção especial.
Em julho, um parlamentar de destaque disse que “seu destino na Rússia está selado”, e outro acrescentou que “é hora de o WhatsApp se preparar para deixar o mercado russo”.
Outros produtos importantes da Meta, incluindo o Facebook e o Instagram, foram classificados como “extremistas” e estão bloqueados na Rússia desde 2022, com o Facebook também rotulado como “organização terrorista”. O concorrente LinkedIn foi banido em 2016, enquanto o X e o YouTube continuam acessíveis, mas com forte limitação.
Todos esses serviços – incluindo o Instagram, onde o Max foi amplamente promovido – ainda podem ser acessados por meio de VPNs, mas o Estado vem apertando cada vez mais o cerco contra eles.
O destino do Telegram, baseado em Dubai, é menos claro. Após uma fracassada tentativa de bloquear o aplicativo em 2018, o Estado não apenas fechou os olhos, como também passou a adotá-lo ativamente.
Praticamente todos os governadores e órgãos locais mantêm um canal no Telegram. Ele se tornou uma ferramenta central de comunicação para os militares e um refúgio para blogueiros pró-guerra, que não se convenceram da ideia de um aplicativo de mensagens nacional.
“Não se constrói soberania nacional criando um único aplicativo de mensagens ‘correto’ para todas as ocasiões”, escreveu o Rybar, um dos maiores canais pró-guerra no Telegram.
No começo de julho, um alto integrante do governo de Putin referiu-se publicamente ao Telegram como “condicionalmente russo”. Mas o veículo independente The Bell informou, na metade de julho, que as discussões sobre política em relação ao Telegram ainda estão em andamento. O Kremlin não respondeu a um pedido para comentários na quinta-feira.
A lei do “aplicativo de mensagens nacional” de Putin é apenas um passo no mais recente ataque do Kremlin às liberdades on-line. No final de julho, o Parlamento aprovou outra lei criminalizando buscas por “materiais sabidamente extremistas na internet”. Foi a primeira vez que o simples acesso a conteúdo considerado “extremista” se tornou ilegal – centenas de processos anteriores eram por “curtir” ou compartilhar materiais proibidos.Neste mês, passou a ser ilegal anunciar no Instagram e outras plataformas “extremistas”. Diante do risco de multas de até US$ 6.000, blogueiros e marcas passaram os últimos dias do verão apagando freneticamente postagens antigas.
Trabalhadores migrantes de países com entrada sem visto na Rússia agora são obrigados a instalar um aplicativo em seus dispositivos que envia sua localização às autoridades. Se não houver dados por três dias, eles podem ser impedidos de acessar contas bancárias e outros serviços – e, eventualmente, deportados.
“Tudo isso é uma nova etapa da censura. O Kremlin está se preparando para as consequências de uma guerra prolongada”, diz Sarkis Darbinyan, do grupo de defesa da privacidade Roskomsvoboda.
