A corrida global por estrutura tecnológica capaz de sustentar inteligência artificial (IA), supercomputação e “data centers” colocou a Europa em posição de alerta. O continente, que já perdeu protagonismo em setores como semicondutores e plataformas digitais, pode mais uma vez ficar trás de Estados Unidos e China se não acelerar investimentos e integração política em infraestrutura digital e energética. O diagnóstico foi consensual entre executivos e autoridades presentes-no Atlantic Convergence, seminário realizado em Lisboa, no fim de setembro, pelo provedor alemão de interconexão DE-CIX.
“Estamos perdendo um momento decisivo em termos de transformação digital”, disse a executiva-chefe (CEO) da MEO – principal marca do grupo Altice em Portugal -, Ana Figueiredo. “A transformação digital está redefinindo nossas economias, cadeias de valor e a forma como as pessoas se comunicam, trabalham e aprendem neste novo mundo.” A MEO é uma das principais operadoras de Portugal, com redes fixa, móvel, TV e energia, entre outros serviços.
A CEO acrescentou que a infraestrutura, tão importante quanto a energia e o transporte, é a base sobre a qual se constroem a competitividade, a segurança e a soberania tecnológica da Europa. “Mas é hora de reconhecer que a Europa precisa liderar novamente.”
Figueiredo, que figura entre as cinco mulheres mais poderosas dos negócios em Portugal, segundo a “Forbes”, afirmou que a base dessa mudança passa por “campeões europeus” capazes de implantar redes e hubs digitais em escala continental.
“Devemos retomar a vanguarda da inovação tecnológica, com mais investimentos em telecomunicações”, disse a CEO. “Precisamos e devemos investir na próxima geração de infraestrutura digital. Não há computação quântica, nem tecnologia digital, nem inteligência artificial sem uma rede forte, robusta, resiliente e segura.”
A MEO anunciou investimentos em uma nova estação de cabos submarinos e em um centro de operações na área portuária no Norte de Portugal. Além disso, em parceria com a Angola Cables (por meio da TelCables Europa), assinou um memorando de entendimento, em junho, para reforçar a interligação das suas redes de “data center” e expandir sua oferta de serviços de telecomunicações no nível internacional, que favorece o Brasil.
A parceria prevê interligar, por fibra óptica submarina, os “data centers” da MEO (Portugal) e da Angola Cables (Fortaleza – CE), criando um “supercorredor empresarial”. A colaboração abrange áreas como cabos submarinos, conectividade IP (protocolo internet) e redes internacionais de interligação entre “data centers”. : Esse elo, segundo as companhias, impulsiona a criação de um ecossistema digital pelo Atlântico entre Portugal, Brasil, África e Estados Unidos.
Se não acelerar a integração no bloco, a UE ficará espremida entre China e EUA” — Rod Evans
De fato, Portugal reúne algumas vantagens competitivas, como geografia favorável para a instalação de novos cabos intercontinentais e incentivos regulatórios à inovação. “Nossa Costa oferece condições ideais para a próxima geração de cabos submarinos”, disse a presidente do conselho de administração da Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), Sandra
Maximiano. A Anacom é a entidade reguladora de Portugal. A ideia é criar um polo de “data centers” movidos a energias renováveis, inteligência artificial e computação quântica. Para Maximiano, a posição estratégica do país entre Europa, África e Américas o coloca no centro de uma encruzilhada digital e geopolítica.
O esforço para emergir e garantir a soberania já culminou em algumas iniciativas. Os aliados pretendem criar um fórum de segurança do Atlântico para conectar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a União Europeia (UE) e as organizações da União Africana e da América do Sul; construir um sistema conjunto mais resiliente; revisar o arcabouço legal e regulatório; e aumentar o investimento na segurança de sistemas digitais críticos.
Mas os desafios vão muito além dessas propostas, e de cabos e computadores. Pedro Godinho Matos, que chefia a área de marketing e consumidores da Siemens Energy Portugal, destacou que centenas de milhões de pessoas ainda não têm acesso confiável à internet ou à eletricidade, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul. A Siemens atua em diferentes mercados, da Europa à África e às Américas, buscando maneiras de acelerar a implantação dessas tecnologias, disse o executivo.
“Estamos vendo nos EUA pessoas incorporando o conceito de pequenos reatores modulares em seus complexos de ‘data centers'”, ‘, disse Rod Evans, vice-presidente da Nvidia para Europa, Oriente Médio e África (Emea), nas áreas de supercomputação, fábricas de IA e parceiros de nuvem. “A minha maior preocupação é com as linhas de transmissão e as redes elétricas, e não tanto a geração de energia.”
Para o executivo, o gargalo agora está nas subestações, nas conexões com a rede e na capacidade de levar a energia aonde é necessária. Em países como a Espanha, disse ele, há excedente de energia que não é economicamente viável transportar pela rede até as grandes cidades, como Madri e Barcelona. Em sua opinião, os governos terão que se mobilizar e começar a investir em infraestrutura crítica.
“Eu acredito na revolução da inteligência artificial, mas também não estou tão confiante sobre a rapidez com que governos, instituições e o sistema de energia poderão atender toda a demanda que a IA e os ‘data centers’ exigem”, disse o CEO da consultoria Alamo Solutions Business Development, de Madri, Armando Jiménez San Vicente.
“Estive com o pessoal do Brasil analisando toda a infraestrutura e as possibilidades que ela oferece”, disse San Vicente. “E há grande potencial de negócios na África, na América do Sul e até na América do Norte, com o México, se ele se envolver mais em alguns desses projetos e apoiar o desenvolvimento dos Estados Unidos.”
San Vicente destacou também a importância da segurança cibernética, especialmente nas transmissões. “E se o uso de energia nuclear voltar, isso também será uma questão sensível. Então, precisa estar na mesa de negociações.” Para demonstrar a dimensão do problema, ele lembrou que um grande apagão na Espanha (em abril de 2025) provocou perdas de quase US$ 4 bilhões em um só dia para a economia nacional – cujo Produto Interno Bruto (PIB) foi de US$ 1,7 trilhão em 2024. A seu ver, é uma questão de segurança nacional.
A dependência energética e a descoordenação política entre os 27 membros da União Europeia são vistos como pontos fracos do bloco em relação às duas grandes potências tecnológicas. “O potencial existe e a Europa poderia ser uma força motriz substancial. Mas, se não acelerar a integração entre seus países, ficará isolada e espremida entre [o poder da infraestrutura dal China no Leste e [a capacidade de escala dos] Estados Unidos no Oeste”, alertou Evans.
