Nada de Siri ou Alexa, na SAP quem manda é a Joule

Nos últimos meses, um nome tem sido repetido com frequência cada vez maior nos corredores da SAP, maior empresa de software da Europa. Joule, como informalmente é chamada, ocupa papel de destaque nas visitas aos clientes, que a ouvem com atenção e até certa surpresa ao conhecê-la pessoalmente. Mas não se trata de alguma super executiva ou especialista renomada. Joule é uma inteligência artificial. “Ela será a principal forma de o usuário interagir com nossos sistemas”, diz Rui Botelho, presidente da SAP no Brasil.

Uma das principais características da Joule é sua capacidade de interagir por comandos de voz, à semelhança de assistentes digitais conhecidas como Siri, Alexa ou Cortana. Ela ouve o usuário, interpreta a solicitação e responde aos pedidos, quase como em uma conversa entre duas pessoas.

A diferença crucial está no foco. Enquanto as assistentes mais populares se dedicam a tarefas individuais cotidianas – esclarecer uma dúvida na internet, informar a previsão do tempo, tocar uma lista de música -, o sistema da SAP foi desenhado para lidar com demandas empresariais complexas, com autonomia para acessar dados sensíveis e apoiar decisões cujo impacto se reflete diretamente nos negócios.

“Diante de um questionamento, a Joule aciona todos os processos necessários para atender à demanda. Interage de maneira natural, dando respostas e fazendo perguntas ao usuário, e coordena os recursos tecnológicos que estão por trás dela”, afirma Botelho.

O potencial das ferramentas de IA é tão grande que recentemente o executivo-chefe (CEO) da SAP, Christian Klein, declarou que no prazo de três anos os teclados estarão extintos nos escritórios, substituídos pela interação por voz, cita o executivo.

“Conversar” com a inteligência artificial vai demandar algum tipo de treinamento para que os profissionais aprendam a fazer perguntas capazes de extrair os melhores resultados da IA, mas mesmo quem não passar por esse aprendizado poderá usar a Joule sem dificuldades, diz Botelho. “A própria ferramenta faz perguntas e sugestões, o que facilita o uso.”

No ano passado, a SAP colocou no ar quase 1,5 mil sistemas de IA embutidos em projetos de seus clientes. Quase dois terços dos negócios da companhia já contam com inteligência artificial. No Brasil, o número de casos chega perto de 400. “IA não é moda”, ressalta Botelho. “Queremos garantir que os clientes aumentem sua produtividade em até 30% com o uso da inteligência artificial.” Maximizar os resultados depende de uma série de fatores. O primeiro é a disponibilidade dos dados – quanto mais integrados eles estiverem, melhor o funcionamento da IA.

“Vamos supor que o sistema de compras identifique a falta de uma determinada matéria-prima”, diz o executivo. Sem uma integração mais ampla dos dados, a inteligência artificial pode adotar medidas preventivas, como procurar mais fornecedores, mas o alcance é restrito porque a ferramenta só trabalha com uma fração das informações disponíveis.

Dá para ir além se mais dados estiverem visíveis para a IA, como disparar ordens de compra, calcular o impacto da escassez na rentabilidade e refazer cálculos de preço dos produtos.

A estratégia da SAP depende, em grande parte, da capacidade de migrar os clientes para a nuvem computacional. Durante décadas, prevaleceu no setor o chamado modelo “on-premise”. As empresas mantinham seus dados em servidores e infraestrutura próprios e nas instalações físicas da organização. Os softwares eram comprados na forma de licenças.

O advento da nuvem mudou esse eixo. Os programas ganharam o modelo de assinatura, como uma conta de água ou luz, e os dados passaram a ser abrigados na infraestrutura de grandes fornecedores como AWS, Microsoft e Google – os chamados “hyperscalers”. Com isso, a nuvem tornou-se a grande via de acesso das informações e dos recursos tecnológicos.

Desde que assumiu como único CEO da SAP (havia uma estrutura de comando compartilhada entre dois executivos), há seis anos, Klein tem reforçado a mensagem de que o futuro da companhia está na nuvem.

A diretriz vem acompanhada de uma ofensiva para acelerar a migração dos clientes.

A carteira atual de pedidos em nuvem da SAP atingiu € 21,1 bilhões (US$ 25,3 bilhões) e cresceu 25% no ano fiscal 2025 (desconsiderando o impacto de flutuações cambiais), cujos resultados foram divulgados no mês passado. Apesar do crescimento, o desempenho frustrou investidores ao ficar abaixo da estimativa, que era de 26%. A carteira atual de pedidos é importante porque indica o montante de receita que a empresa espera receber no futuro com a nuvem. Para este ano, a companhia prevê uma leve desaceleração. Na Bolsa de Frankfurt, as ações da empresa indicam queda de 18% neste ano até ontem (19) e de 38% nos últimos 12 meses.

A SAP não divulga resultados por país, mas o Brasil foi mencionado como destaque internacional no segmento de nuvem no relatório financeiro global mais recente. “A aderência à nuvem é muito grande no país”, ressalta Botelho, que está à frente da subsidiária há dez meses.

A nuvem também é fundamental para aproveitar as vantagens da IA, diz o executivo. “As empresas que querem permanecer dentro de seus próprios centros de dados podem ficar para trás dos concorrentes. É uma visão equivocada.”

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/02/20/nada-de-siri-ou-alexa-na-sap-quem-manda-e-a-joule.ghtml

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