Microsoft quer superinteligência, mas foge da ideia de IA geral, explica executivo

Desde o lançamento do ChatGPT há três anos, a OpenAI vem repetindo um refrão: trabalha para construir uma inteligência artificial geral (AGI), um conceito para qual não há uma definição sólida mas que posiciona sistemas em nível cognitivo equivalente ou superior ao humano. Durante todo esse período, a Microsoft, principal apoiadora da OpenAI nos últimos anos, tentou se distanciar dessa ideia — um dos motivos eram os gatilhos contratuais entre as partes que “liberavam” a OpenAI e limitavam o acesso da empresa fundada por Bill Gates à tecnologia da startup.

Nos últimos meses, no entanto, algo parece ter mudado: a Microsoft passou a falar na busca por uma “superinteligência”, um conceito para o qual também não há consenso na indústria e que é interpretado de maneiras diferentes pelas gigantes da tecnologia — para alguns, soa como uma busca por algo como a AGI. Mas não é bem assim.

Ao Estadão, Jared Spataro, diretor de marketing da divisão de IA corporativa, da gigante tentou explicar a diferença: “Na nossa visão, superinteligência é uma inteligência focada em um domínio específico. Então, ela tem um certo escopo associado”. E reforçou: “AGI é algo que é mais inteligente do que todos os humanos, em todos os domínios. Nenhum ser humano individual poderia superar ou ter desempenho melhor do que essa ideia”.

O executivo conversou com exclusividade com a reportagem após os anúncios da companhia nesta terça, 18, que mostraram novas ferramentas para a implementação e orquestração de agentes de IA — esses sistemas que permitem níveis avançados de automação são a grande aposta atual dos principais nomes da tecnologia. Segundo Spataro, os agentes são como os aplicativos do iPhone, utilizam uma plataforma tecnológica importante (a IA) para acrescentar novas funções. Ou seja: os agentes podem pavimentar o caminho para uma superinteligência.

Veja os principais momentos da conversa abaixo.

Como a Microsoft aprofundou a ideia de agentes de IA com os anúncios desta semana?

O evento desta semana é baseado em algo que chamamos de frontier firm. E usamos isso em referência aos modelos de IA de ponta. Então, quando falamos de GPT-5.1, esse é o modelo de fronteira da OpenAI, assim como outros também têm seus próprios modelos de fronteira. Então, a nossa definição simples de frontier firm é uma empresa que ainda é liderada por humanos, mas operada por agentes. Nos últimos meses, apresentamos muitos dos elementos dessa estratégia. Adicionamos um novo recurso que chamamos de ‘modo agente’ no Word, Excel e PowerPoint. Isso permite que você trabalhe quase com um parceiro. E aí fizemos algumas coisas muito boas no que diz respeito ao que chamamos de AI-powered building, ou seja, criação de fluxos de trabalho, criação dos próprios apps, criação de agentes Tudo acionado por linguagem natural.

Agora apresentamos duas grandes novidades. Uma é o Work IQ, que é uma forma de descrever essa camada de inteligência na construção de agentes. Você pode pensar assim: temos todo esse contexto de como as pessoas trabalham, porque conseguimos ver como o dia delas se desenrola. Conseguimos ver a agenda, o e-mail, o correio de voz, as reuniões no Teams, os documentos. E conseguimos atravessar tudo isso, raciocinar sobre tudo isso e extrair padrões valiosos. A segunda grande novidade é o Agent 365, que é o painel de controle para todos os seus agentes. A grande ideia aqui é que, não importa quais agentes você tenha, não importa onde foram feitos, o que fazem ou como operam, o Agent 365 lhe dá um plano de controle para reuni-los. Ele dá visibilidade e controle sobre coisas como permissões, acesso a dados, a maneira como interagem com pessoas, a forma como interagem com sistemas. É um recurso realmente poderoso.

A promessa da indústria é de que as IAs vão evoluir de assistentes para um nível de ser quase como um colega de trabalho. O que muda nessa transição?

O que descobrimos ao longo dos últimos é que o diferenciador mais duradouro entre um assistente e algo que atua como um colega de trabalho é a identidade digital. O que quero dizer é que um assistente trabalha com a sua identidade. Ele acessa seu e-mail com a sua identidade, acessa o SharePoint com a sua identidade, até acessa a web com a sua identidade. Mas quando passamos para uma área ou um lugar em que um agente tem sua própria identidade e suas próprias permissões, então ele atua como um ator separado, quase soberano, independente no sistema. E isso começa a se parecer muito mais com o que você poderia chamar de um agente autônomo.

Já é possível detectar ganhos mensuráveis com o uso de agentes?

Vemos agentes sendo envolvidos em cenários de produtividade individual, em primeiro lugar; cenários de produtividade em equipe, em segundo; e depois cenários de produtividade orientados a processos. No caso dos indivíduos, na maior parte, trata-se principalmente de tempo economizado. É poder delegar trabalho a um agente. E tem sido difícil para as empresas mensurar esses ganhos, para ser honesto, porque elas não gerenciam o tempo economizado ou o trabalho nesse nível atômico. Isso nos leva às equipes e aos processos. Nesses dois lugares, estamos vendo o impacto real nos KPIs. Então, ali definitivamente vemos custos economizados e vemos receita gerada. Muitos dos trabalhos mais interessantes, ou de maior impacto, são “entendiantes”, mas estão economizando centenas de milhares, milhões, às vezes dezenas de milhões de dólares É meio engraçado, porque as pessoas querem exemplos muito chamativos, empolgantes. Eles são empolgantes se você gosta de dinheiro. Um de nossos clientes, por exemplo, usa agentes com papelada logística, o que não é necessariamente a coisa mais empolgante para se falar.

Quais competências as pessoas precisam desenvolver para ter agentes de IA como colegas de trabalho?

A primeira é que trabalhar com agentes é mais eficaz quando você aplica o que chamaríamos de habilidades de delegação, que você aprende trabalhando com humanos. Então, em vez de pensar no agente como uma calculadora ou como um computador, se você começa a pensar nele como algo para o qual é possível delegar, você divide o trabalho, delega uma tarefa ou um conjunto de tarefas, e depois deixa o agente fazer o trabalho, e então avalia o que ele devolveu. Descobrimos que as pessoas que têm experiência real de gestão são as mais eficazes com agentes.

Isso me leva ao segundo ponto: uma grande parte de ser um bom gestor é avaliar o trabalho das pessoas. E essa avaliação normalmente exige uma boa dose de especialidade no domínio. Então, as pessoas com mais expertise de domínio se saem para obter ganhos de produtividade, porque conseguem perceber rapidamente quando o que o agente está fazendo. Em resumo, habilidades de delegação e expertise de domínio são as coisas que acabam sendo muito valiosas agora.

O sr. certamente conhece o estudo do MIT que diz que 95% dos projetos baseados em agentes vão fracassar. Qual é a sua visão?

Estudei no MIT, então não quero dizer nada de ruim sobre eles, mas estamos muito mais focados em cenários reais de clientes, ajudando eles a economizar e ganhar mais dinheiro. E a realidade é que estamos vendo isso acontecer. Uma das melhores formas de enquadrar a questão é lembrar que foi em novembro de 2022 que o ChatGPT foi lançado. Três anos depois, muita coisa aconteceu. Tradicionalmente, teria levado uns dez anos o que aconteceu nesses três anos.

Durante muito tempo, a Microsoft afirmou que não tinha como objetivo construir uma inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês). Mas, recentemente a companhia começou a falar sobre buscar uma “superinteligência”. O que mudou? E existe alguma diferença entre AGI e superinteligência?

Deixe-me começar com superinteligência, porque sim, estamos falando disso agora. E acho que se eu definir isso um pouco melhor, pode ajudar. Na nossa visão, superinteligência é uma inteligência focada em um domínio específico. Então, ela tem um certo escopo associado. E consegue fazer o que chamamos de feitos incríveis de trabalho cognitivo, trabalho real. Feitos incríveis de trabalho cognitivo quando comparada ao humano médio.

Como um exemplo simples, um computador é superinteligente quando se trata de cálculos, se comparado a uma pessoa, só para nos colocar no modo de pensar certo. Isso não significa que os computadores tomaram conta do mundo. Significa que, se pensarmos neles da forma correta, acreditamos que esse exemplo de ferramenta superinteligente é uma ferramenta que pode ser usada por humanos para fazer coisas que, de outra forma, eles não conseguiriam fazer — é assim que definimos essa ideia de superinteligência.

Então, sim, estamos muito focados em construir superinteligência em várias áreas diferentes, mas isso é diferente da visão de mundo da AGI. AGI é algo que é mais inteligente do que todos os humanos, em todos os domínios. Nenhum ser humano individual poderia superar ou ter desempenho melhor do que essa ideia, esse conceito. Nós não estamos buscando isso. Essa não é a nossa perspectiva.

O lugar em que sentimos ter mais expertise aqui é naquilo que as pessoas, em geral, definem como produtividade: realizar trabalho cognitivo que tem um grande impacto no mundo. Essas ideias de como nos reunimos como humanos para fazer coisas juntos que não conseguiríamos fazer sozinhos — é disso que a gente gosta. Estamos totalmente focados nisso. E, por isso, estamos tentando construir modelos e ferramentas, como a superinteligência, para ajudar com essa missão

Talvez uma analogia que eu possa usar seja: se você voltar à era do mobile, quando o iPhone foi lançado pela primeira vez, as pessoas queriam que o iPhone fizesse tudo. Era como: “Nossa, essa é uma ferramenta nova incrível. O que será que ela não consegue fazer?” Mas, muito rapidamente, percebemos que o iPhone era uma plataforma fantástica para, nesse caso, computação pessoal de bolso.

O que o iPhone realmente precisava era apps. Foram eles que permitiram que o iPhone se estendesse, ampliasse suas capacidades para domínios que eram muito importantes para cada indivíduo. Assim como os apps eram para o iPhone, os agentes serão para a IA. Eles nos permitem escolher um domínio e ir bem fundo.

Existe uma bolha da IA?

Falando da perspectiva da Microsoft, estamos tentando ser investidores inteligentes, equilibrados, baseados na demanda de mercado. Então, à medida que construímos serviços e a infraestrutura, mantemos o olho na demanda. Na nossa última teleconferência de resultados, dissemos ao mercado que não tínhamos capacidade suficiente para atender à demanda atual. E, à medida que continuamos investindo, o motivo pelo qual estamos investindo é que a demanda atual excede a nossa capacidade.

Então, estamos tentando ser muito equilibrados e muito sábios em como investimos, em resposta à demanda. Essa é a nossa abordagem. Nem todo mundo no mercado segue essa abordagem. Não posso comentar sobre o que eles estão fazendo, mas basta dizer que há muita demanda agora, e muita dessa demanda vem para a Microsoft.

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