Jesse Zhang e David Lu têm muito em comum – estão na faixa próxima aos 30 anos, se graduaram em escolas americanas prestigiadas (em Harvard e na Universidade Brown, respectivamente) e fizeram do Vale do Silício, na Califórnia, sua casa. Os dois estão entre os novos gênios da tecnologia que pretendem mudar o mundo com a inteligência artificial.
Zhang, cofundador e CEO da Decagon, quer revolucionar o atendimento ao cliente; Lu, cofundador e diretor de tecnologia da Laminar, planeja lançar as bases da fábrica do futuro. Os dois estão em São Paulo nesta semana e trazem uma novidade importante na bagagem – vão abrir escritório no Brasil.
Fundada em 2023, a Decagon está avaliada em US$ 4,5 bilhões e tornou-se uma favorita dos investidores, com cerca de US$ 500 milhões captados até agora. “O capital de risco é muito importante na forma como o Vale do Silício e o setor de tecnologia funcionam, porque é necessário crescer rápido”, diz Zhang, de 29 anos. “Há potencial demais na mesa, então é preciso dar escala à equipe. Dois anos e meio atrás éramos duas pessoas na empresa. Hoje, somos 600.” A nova operação terá à frente o brasileiro Eduardo Rubini como líder de Desenvolvimento de Negócio na América Latina e o mexicano Haig Hanessian como diretor-geral para a região e a Península Ibérica. A sede será em São Paulo e a equipe está sendo montada.
Já a Laminar é um dos melhores exemplos da chamada IA física. “Antes, a inovação se dava quase sempre apenas por meio de software. Mas você não consegue otimizar de verdade uma fábrica desse jeito, porque ela não é só software, código”, diz Lu. “Fábricas produzem coisas, lidam com material físico. Construir a fábrica do futuro exige criar soluções que combinem software e equipamentos.”
O plano é abrir escritório no Brasil “em um horizonte bem curto”, revela Lu. “Provavelmente até o fim do ano, ou, no mais tardar, no comecinho do ano que vem”. A companhia já começou a formar um time no país. “Fizemos contratações e faremos ainda mais.”
Os dois empresários participaram, ontem, da conferência Vale do Silício @ Brasil, promovida pelo Brazil at Silicon Valley – movimento que conecta empreendedores, investidores e empresários brasileiros ao Vale do Silício, principal polo americano de tecnologia – em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O interesse de Zhang em aplicar IA ao atendimento de clientes nasceu de seu negócio anterior, a Lowkey, voltado a fãs de videogame. A companhia chegou a ter um milhão de usuários, contingente que o levou a compreender as dificuldades de atender bem tanta gente ao mesmo tempo. Com a chegada dos modelos de IA generativa, que nasceram hábeis em manter conversas, Zhang e seu sócio Ashwin Sreenivas conceberam a Decagon.
Ser atendido por um robô pode ser irritante dependendo da urgência do consumidor – mas é exatamente isso que Zhang quer mudar. “A vantagem de usar IA generativa é que a empresa não precisa empurrar o cliente para aquele modelo ‘aperte 1 para isso, 2 para aquilo’. A IA resolve o problema e toma ações quando necessário”, explica. À medida que avança, a tecnologia permite criar atendentes virtuais cada vez mais críveis, com sotaques e maneiras de falar diferentes, e oferece recursos de personalização como lembrar de todo o histórico do cliente.
Em uma empresa de “wearables” (dispositivos de vestir) atendida pela Decagon, o número de clientes que pediam para falar com um atendente humano ao telefone mudou de um a cada três para um a cada vinte, conta Zhang. “Temos registros de conversas em que a experiência é tão realista que as pessoas nem percebem que estão falando com uma IA.”
David Lu, de 28 anos, encontrou sua vocação e uma sócia dentro de casa. A CEO e cofundadora da Laminar é sua irmã mais nova, Annie. Como o pai e o avô tinham uma fábrica de produtos químicos, o assunto era assunto constante em casa. “Sempre gostei muito de pesquisa e sonhava ganhar o Prêmio Nobel de química quando era criança. Mas também passava muito tempo no chão de fábrica. Então, desde cedo tive um contato profundo com a manufatura”, conta o empresário. “Foi isso que nos inspirou a criar a Laminar.”
Originalmente, a empresa estava voltada ao controle da água nas fábricas e se chamava H20K Innovations. As operações começaram em 2020. Com a expansão para outras áreas, o nome mudou para Laminar, que remete ao conceito de “fluxo laminar”, definido por operações suaves e estáveis na área de manufatura.
“Desenvolvemos um novo tipo de sensor inovador que consegue ‘entender’ a química dentro da linha produção. Com isso é possível acompanhar em tempo real o que está acontecendo quimicamente em reatores, tubulações e tanques”, explica Lu. Os sensores coletam dados que são combinados a modelos de IA e permitem um controle mais eficiente das linhas produção. A fábrica passa a usar a menor quantidade possível de água, produtos químicos e energia, com a redução de perdas de produto e aumento do rendimento na manufatura.
Nos últimos dias, depois que Dario Amodei, CEO da Anthropic, uma das maiores empresas de IA do mundo, divulgou um documento no qual sugere uma desaceleração da evolução da inteligência artificial, o assunto explodiu no Vale do Silício e tornou-se tema de discussões calorosas em todo o mundo, trazendo à tona novamente o medo sobre o alcance das novas tecnologias.
Para a nova geração de líderes, o assunto precisa ser visto com menos paixão. “Para ser honesto, acho isso tudo um pouco exagerado”, diz Zhang. “As manchetes são extremas, mas falando de maneira realista acho com o volume de concorrência saudável que existe nos Estados Unidos, o progresso continuará sendo muito rápido. O que precisamos é aplicar ‘guardrails’ para que os mecanismos de segurança avancem na mesma velocidade que a IA.”
