O misterioso fundador da Shein, gigante do fast fashion, usou sua primeira grande aparição pública para enfatizar as raízes da empresa na província meridional chinesa de Guangdong e elogiar as autoridades comunistas e governamentais pelo apoio que ajudou a impulsionar seu crescimento.
As declarações feitas por Xu Yangtian nesta terça-feira (24) em um evento organizado pelo governo de Guangdong, contrastam fortemente com os esforços feitos pela Shein nos últimos anos para se apresentar como uma plataforma internacional de comércio eletrônico com sede em Cingapura.
Xu vinha mantendo até agora um perfil cuidadosamente discreto, e a Shein nunca havia divulgado fotos suas. Sua aparição ocorre no momento em que a empresa enfrenta uma série de desafios, como o cansaço dos consumidores e o escrutínio regulatório global, ao mesmo tempo em que busca abrir seu capital.
O Financial Times informou em 2024 que as tentativas de “afastar” a Shein da China, vistas como uma forma de preservar o acesso aos mercados internacionais, haviam irritado as autoridades reguladoras chinesas, que precisam autorizar qualquer oferta pública inicial de ações (IPO) no exterior.
“Guandgong é onde a Shein tem suas raízes e também onde começamos nossa trajetória. Estamos certos de que, na esteira do desenvolvimento de alta qualidade de Guangdong, a Shein poderá, junto com esta terra dinâmica, transformar o ‘made in Guangdong’ no padrão global da indústria da moda”, disse Xu.
Ele prometeu investir 10 bilhões de yuans (US$ 1,45 bilhão) em cadeias de abastecimento em Guangdong nos próximos três anos, dizendo que a liderança do Partido Comunista Chinês e o governo da província deram um apoio vital à sua companhia.
“As conquistas da Shein hoje não teriam sido possíveis sem a orientação atenta do comitê provincial do partido e do governo de Guangdong”, disse ele.
A Shein foi fundada na cidade de Nanjing, no leste da China, mas Xu afirmou que a empresa conta com quase 10 mil fabricantes parceiros em Guangdong. A companhia também mantém na província do sul a sede de sua cadeia de abastecimento. Desde 2022, sua sede corporativa fica em Cingapura.
Xu vestia terno escuro, gravata vermelha escura e óculos, e usava o cabelo bem curto. Suas declarações foram feitas diante de uma plateia de autoridades e líderes empresariais. Em seu curto discurso, Xu não mencionou uma série de temas que têm ocupado lugar de destaque nas discussões internacionais sobre a Shein nos últimos anos.
A companhia vem tentando listar suas ações no exterior. Inicialmente, tentou uma IPO em Nova York, mas depois mudou o foco para Londres, depois que parlamentares dos Estados Unidos levantaram preocupações com as práticas trabalhistas em sua cadeia de abastecimento.
Desde então, a Shein protocolou um pedido de IPO em Hong Kong, depois que as autoridades reguladoras britânicas e chinesas não conseguiram chegar a um acordo sobre a redação da divulgação de riscos em seu prospecto proposto, referente à região de Xinjiang, no extremo oeste do país, onde grupos de direitos humanos alegam que a China utiliza trabalho forçado. O Financial Times noticiou em julho passado que a Shein ainda pretendia listar suas ações em Londres.
Xu é natural da província oriental chinesa de Shandong e começou sua carreira abastecendo compradores estrangeiros com produtos que iam de juntas de vedação a velas de ignição, adquiridos de fábricas chinesas. O Financial Times já havia relatado que ele era tão discreto que até mesmo muitos funcionários da Shein tinham dificuldade para identificá-lo.
Na semana passada, a Comissão Europeia abriu uma investigação sobre a Shein após relatos de que seu marketplace estava facilitando a venda de bonecas sexuais com aparência infantil. A Comissão também apura se o aplicativo é potencialmente viciante para os usuários.
O modelo de negócios da companhia também foi abalado pelo cancelamento nos EUA das chamadas “isenções de minimis”, que dispensavam de tarifas pacotes com valor inferior a US$ 800. Iniciativas parecidas estão em curso na União Europeia e no Reino Unido.
