Fraca demanda faz indústria global reviver crise de 2008

Os indicadores de atividade industrial globais apontam para uma queda na demanda por produtos em níveis comparáveis aos da crise financeira de 2008, com a economia da China desacelerando e os gastos do consumidor se deslocando para o setor de serviços.

Para analistas, as perspectivas para a economia mundial vão depender se o setor de serviços será capaz de sustentar o emprego. 

A região do delta do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, no sul da China, conhecida como a “fábrica do mundo” por sua grande concentração de fabricantes, é um exemplo de que a maior parte dos problemas das cadeias de fornecimento – que pressionaram os preços durante a pandemia da covid-19 – foram resolvidos. O número de navios parados nos portos caiu de um pico de mais de 70 em março de 2022 para 20, segundo o provedor de dados Refintiv. 

Mas a queda na demanda impede os fabricantes de tirar o máximo proveito da desobstrução dessas linhas de fornecimento. Em alguns meses de 2023, o volume de remessas de contêineres da Ásia para os EUA caiu em torno de 20% a 30% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo o Centro Marítimo do Japão, que tem sede em Tóquio. 

Um representante de uma grande empresa de transporte de contêineres disse que, “embora a demanda de vendas exista, os estoques do varejo ainda não acabaram e [a demanda] não é forte o suficiente para que as empresas aumentem sua produção e despachem” mais produtos. 

O índice mensal de pressão sobre as cadeias de fornecimento mundiais do Federal Reserve Bank de Nova York (a unidade regional do banco central americano), ficou abaixo de zero pelo sexto mês seguido em julho, em -9 (números negativos sugerem redução da demanda). Em maio, a leitura foi a segunda menor já registrada, superada apenas pelo dado de novembro de 2008, de -1,59, durante a recessão nos EUA, quando a crise financeira secou a demanda por bens de capital e produtos de consumo caros, como automóveis. 

Durante a pandemia houve uma explosão na demanda por mercadorias, com os consumidores confinados em suas casas. Mas, à medida que a crise da covid-19 foi diminuindo, os padrões de consumo se deslocaram da aquisição de bens para a de serviços, como as viagens, segundo Daejin Lee, diretor de análise e pesquisa de transporte marítimo de carga da S&P Global Commodity Insights. 

Para alguns analistas, o aperto monetário dos bancos centrais, principalmente nas economias avançadas, também tem seu papel. As condições monetárias muito frouxas durante a pandemia levou a uma significativa alta dos preços dos ativos financeiros e a um consumo excessivo. Os rápidos aumentos nos juros que se seguiram criaram uma crise de crédito que derrubou a demanda.

Ao mesmo tempo, a demanda no enorme mercado chinês tem sido mais fraca do que se previa. Dados de junho mostraram uma queda das importações em dólar no mês e um declínio pelo quarto mês consecutivo em termos anuais. 

Em uma teleconferência sobre resultados em julho, o CEO da L’Oreal, Nicolas Hieronimus, reconheceu que a confiança do consumidor na China “ainda não está no nível anterior à covid”. 

A queda na demanda por mercadorias físicas afeta fabricantes em todo o mundo. O índice de atividade industrial dos EUA divulgado pelo Instituto para Gestão de Oferta (ISM, na sigla em inglês) melhorou ligeiramente em julho, para 46,4, mas continuou abaixo de 50 pelo nono mês seguido – a série mais longa desde a recessão provocada pela crise financeira de 2008. As encomendas de produtos eletrônicos e químicos têm sido especialmente fracas. 

O índice de atividade industrial mundial da S&P Global também ficou abaixo de 50 pelo 11o mês consecutivo em julho, uma sequência que só perde para as registradas em 2008 e 2009. A medição indica uma contração na atividade manufatureira em cerca de 70% das 29 principais economias. 

Os dados da pesquisa de atividade industrial da S&P Global mostram fragilidades específicas na Europa, e o índice da Alemanha, a maior economia da região, ficou em 38,8 no mês passado. 

No último trimestre, o grupo alemão do setor químico Basf observou uma queda na demanda de clientes importantes que não são fabricantes de veículos. Recentemente a empresa cortou sua perspectiva de lucros para o ano. 

O presidente da Basf, Martin Brudermuller, disse que o consumo em larga escala na China “não arrancou no segundo semestre como aconteceu durante a crise financeira, quando a China de fato superou o resto do mundo”. 

A desaceleração no Japão tem sido moderada, com um índice de atividade industrial de 49,6 em julho, com a produção de automóveis voltando a crescer após o fim da escassez de semicondutores. Mas a menor demanda externa é um problema. A Shin-Etsu Chemical, uma grande produtora de PVC, prevê sua primeira queda de lucro líquido dos últimos três anos. 

A Índia, por sua vez, vai bem graças à demanda interna e à de países vizinhos, como Bangladesh. O México se beneficia com transferência da produção da China para do lado dos EUA. 

Hoje o setor de serviços é o principal motor dos EUA e de outras economias. Como o emprego está em crescimento, o risco de uma recessão imediata parece baixo, mas não está claro se isso continuará a ser o caso se a desaceleração do setor manufatureiro se mantiver. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2023/08/08/fraca-demanda-faz-industria-global-reviver-crise-de-2008.ghtml

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