Dono do Politico e do Telegraph apresentou proposta para comprar divisão europeia do TikTok

Financial Times; Um dos maiores magnatas dos meios de comunicação da Europa procurou desmembrar as operações europeias do TikTok e adquirir uma participação nelas. Ao apresentar o plano de fortes implicações políticas a um membro influente do governo dos Estados Unidos, Mathias Döpfner, executivo-chefe e um dos proprietários da alemã Axel Springer, propôs que sua empresa fizesse parte de uma transação para comprar as operações europeias do aplicativo de propriedade da chinesa ByteDance durante um almoço com o embaixador dos EUA na França, Charles Kushner, de acordo com fontes familiarizadas com as discussões.

Döpfner, cuja empresa é dona do site Politico e do jornal britânico Daily Telegraph, do Reino Unido, convidou Kushner, que é pai de Jared Kushner, genro de Donald Trump, para uma reunião em janeiro na sede da gigante dos meios de comunicação em Berlim.

Fontes a par do encontro disseram que o executivo dos meios de comunicação propôs um plano semelhante ao acordo intermediado pelo presidente Trump para desmembrar as operações do TikTok nos EUA, como resposta às preocupações de segurança nacional com relação aos proprietários chineses da plataforma.

Pelos termos dessa transação, que avaliou a divisão americana do TikTok em US$ 14 bilhões, um grupo de investidores, entre eles a Oracle de Larry Ellison, criou uma joint-venture com a ByteDance, que tem sede em Pequim. A nova entidade, com sede na Califórnia, passou a ter mais controle sobre os algoritmos e os dados dos usuários dos EUA.

O encontro entre Döpfner e Kushner ressalta a escala da ambição do magnata alemão dos meios de comunicação, que em 2022 sugeriu a Elon Musk, em mensagens privadas, que ele deveria comprar o Twitter e deixá-lo sob seu comando. Em 2015, Döpfner fez uma oferta de compra do Financial Times, que não deu certo, e adquiriu o Business Insider dois meses depois e o Politico em 2021. Ele já afirmou em ocasiões anteriores que teria interesse em comprar o Wall Street Journal, de Rupert Murdoch, se algum dia fosse posto à venda. No início deste ano, o bilionário – que subiu do cargo de editor-chefe do jornal Die Welt para o de executivo-chefe e depois tornou-se coproprietário de toda a empresa – surpreendeu a imprensa britânica ao comprar o Telegraph por 575 milhões de libras.

O almoço com Kushner também realça os esforços da Axel Springer para se aproximar do governo de Trump, mesmo depois de a Casa Branca ter negado acesso a jornalistas do Politico no mês passado, como reação às suas reportagens.

Em fevereiro, Döpfner reuniu-se com a chefe de gabinete do presidente dos EUA, Susie Wiles. No mês passado, ele entregou um prêmio da Axel Springer ao investidor bilionário Peter Thiel, doador de campanha do Partido Republicano e financiador do vice-presidente J.D. Vance.

Durante o primeiro mandato de Trump na Casa Branca, ele estabeleceu uma relação bastante próxima com o embaixador dos EUA em Berlim, Richard Grenell.

O almoço privado com Kushner, realizado no “clube de jornalistas” da Axel Springer, com seus painéis de madeira, foi apresentado como uma discussão sobre antissemitismo nas plataformas de redes sociais.

Em declarações públicas, Döpfner descreveu o TikTok como “uma das máquinas de propaganda mais perigosas para amplificar conteúdo extremista”, inclusive de ódio contra o povo judeu.

Entes os presentes ao encontro estavam jornalistas de destaque da Axel Springer, um ex-presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha e vários membros do Bundestag, o Parlamento alemão.

Depois a conversa passou para as ambições de Döpfner de desmembrar a parte europeia do TikTok, de acordo com três fontes familiarizadas com a discussão.

Embora Döpfner tenha declarado apoio público à ideia já em 2022, ele nunca afirmou abertamente que queria ser um dos investidores.

No início de setembro, ele disse que o TikTok “deveria ser vendido a acionistas democráticos ou então banido”, em uma entrevista à agência de notícias alemã DPA. “Ainda não entendo por que nós, na Europa, não estamos tomando medidas. Os americanos mostraram que isso pode ser feito”. Ele acrescentou que faz muito tempo que as publicações alemãs da Axel Springer resistem a marcar presença na plataforma, mas isso pode ter de mudar. “Se uma solução não for encontrada em breve, não poderemos prescindir do TikTok como um canal de distribuição”, argumentou.

Autoridades de Bruxelas contaram que a ideia de Döpfner foi discutida com personalidades da divisão de tecnologia da Comissão Europeia, mas elas não se mostraram entusiasmadas e a ideia foi abandonada. A ByteDance também não demonstrou interesse. Nas últimas semanas, os jornais alemães Bild e Welt, da Axel Springer, estabeleceram uma presença no TikTok pela primeira vez. A embaixada dos EUA em Paris não quis comentar o assunto.

“Como fica claro em suas declarações públicas, Mathias Döpfner sempre defendeu uma solução europeia para o TikTok, nos moldes do modelo americano”, declarou a Axel Springer. “Se uma solução desse tipo tivesse se concretizado, a Axel Springer teria acolhido com satisfação a oportunidade de fazer parte dela como um importante veículo de comunicação europeu.”

A ByteDance negou a história. “Isso é uma completa invenção e não merece nem mesmo um comentário.”

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