Como financiar a indústria do audiovisual

A indústria do audiovisual, responsável por 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, precisa de um sistema mais bem estruturado de financiamento e regulação para prosperar e atrair investimentos do mercado de capitais, segundo conclusão do primeiro dia de debates do Latam Content Meeting, evento do setor que se realiza em São Paulo até esta quarta-feira (dia 15).

“Trata-se de uma indústria que gera 600 mil empregos, com grande absorção de jovens e de mão de obra qualificada, com salário médio de R$ 6.800, 84% acima da remuneração média nacional”, disse, na abertura, o advogado José Maurício Fittipaldi, especializado em direito público, com foco no mercado de mídia e entretenimento.

“Precisamos aumentar a capacidade de atrair investimento privado”, disse Fittipaldi, considerado uma referência no setor, citando mecanismos como o “tax rebate” (incentivo fiscal) e o “completion bond”, que assegura retorno do investimento.

A gerente de audiovisual do Banco Naconal do Desenvolvimento (BNDES), Bárbara Oliveira, disse que são fundamentais a existência de uma diversidade de instrumentos financeiros e a flexibilização de garantias, já que a indústria do audiovisual tem peculiaridades, como o longo tempo de maturação dos projetos.

“O banco [BNDES] empacotou tudo o que é preciso fazer para o setor do audiovisual. Ajudamos a financiar a digitalização do parque exibidor, a formular orientação para negócios. Na pandemia [da covid], tivemos um papel anticíclico”, disse Oliveira, ressalvando que o banco nacional de fomento só trabalha com operações acima de R$ 10 milhões.

A executiva do BNDES avaliou que as incertezas quanto ao prazo para a conclusão de projetos e ao cronograma de retorno dos investimentos dificulta a tomada de decisão pelos bancos. “São ativos intangíveis [filmes e séries em produção], e é difícil obter crédito em um ambiente instável, irregular”, “, afirmou.

A secretária estadual de Cultura de São Paulo, Marília Marton, observou que é papel do Estado investir recursos para financiar produções, mas que há um gargalo na distribuição. “E o dinheiro do Estado é finito”, ponderou. Para ela, os investidores privados precisam aprender a lidar com projetos de maturação de três, quatro e até dez anos.

Segundo Fábio Lima, fundador e executivo-chefe (CEO) do Sofá Digital, agregadora de filmes e dados, fornecedora de conteúdo para as principais plataformas de streaming da América Latina, o problema está no total desconhecimento, da parte dos investidores brasileiros, da cadeia de produção do audiovisual.

“Ninguém na Faria Lima entende disso”, afirma o CEO, de 49 anos, e com mais de 20 anos de experiência como distribuidor. Ele acredita que um fundo garantidor do crédito, como existe, por exemplo, para a agricultura, ajudaria o setor a atravessar as intempéries.

Levar governança e pensamento estratégico para dentro do setor é uma das ambições da nova gestão da SPcine, disse sua presidente Anna Paula Montini. A SPcine é uma empresa pública dedicada a atrair e fomentar investimentos em cinema e audiovisual da Prefeitura de São Paulo, e que completará dez anos de existência em maio. “Estamos buscando alcançar o estado da arte na gestão de uma ‘film commission’ [empresa pública destinada a atrair investimentos para o setor]”, afirmou Montini.

A secretária paulista de Cultura defendeu que o eixo Rio-São Paulo concentre a atividade de produção audiovisual do país. “Não haverá dez Hollywoods no Brasil”, disse Marton.

No evento, também foram discutidos os projetos de regulamentação dos serviços de streaming que tramitam atualmente no Congresso. Segundo Luizio Felipe Rocha, diretor-executivo da Strima, entidade fundada em 2025 e que reúne as maiores plataformas de streaming em atividade no país (Globoplay, Netflix, Amazon Prime, Disney + e Max), a hora é de decisão. “O processo de escolha não é mais nosso, é o processo do Legislativo”, disse Rocha. “E a política é a arte do possível”, afirmou o dirigente da Strima.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/04/13/como-financiar-a-industria-do-audiovisual.ghtml

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