Cientistas buscam pelo “Google tradutor” da linguagem dos animais

O rato-toupeira-pelado talvez não seja das mais belas visões, mas tem muito a dizer. Eles assobiam, trinam, gorjeiam, soltam grunhidos, soluçam e sibilam. Quando dois deles se encontram, eles fazem uma saudação específica.

“Eles conversam um pouquinho”, diz Alison Barker, neurocientista do Instituto Max Planck de Pesquisa do Cérebro, na Alemanha. O pesquisador é um dos vários no mundo a usar inteligência artificial (IA) para traduzir o que os animais “falam”.

O aprendizado de máquina, técnica de IA que usa algoritmos para detectar padrões em grandes compilações de dados, têm se destacado na análise da linguagem humana. Eles deram origem a assistentes de voz, softwares de transcrição e tradutores digitais.

Nos últimos anos, os cientistas começaram a utilizar essa tecnologia para decifrar a comunicação animal. Projetos ainda mais ambiciosos estão em andamento – para criar um catálogo abrangente dos corvejares dos corvos, mapear a sintaxe dos cachalotes e até mesmo construir tecnologias que permitam aos humanos responder a esses sons.

“Vamos tentar descobrir um Google Tradutor para animais”, disse Diana Reiss, cofundadora do Interspecies Internet, organização dedicada a facilitar a comunicação entre espécies. A área é jovem, mas o trabalho já está revelando que a comunicação animal é muito mais complexa do que parece ao ouvido humano.

Espionagem

Os algoritmos podem detectar padrões sutis. Por exemplo, cientistas mostraram eles podem distinguir a voz de cada animal, diferenciar os sons que eles fazem em diferentes circunstâncias e decompor suas vocalizações em partes menores. “Ainda há inúmeros mistérios na comunicação animal e são coisas às quais podemos aplicar a computação”, diz Dan Stowell, do Centro de Biodiversidade Naturalis, na Holanda.

O software foi reutilizado com outras espécies, entre elas lêmures e baleias, enquanto outras equipes desenvolveram seus próprios sistemas para detectar quando galinhas cacarejando ou porcos guinchando estavam com problemas.

Ainda há inúmeros mistérios na comunicação animal e são coisas para as quais podemos aplicar a computação”

Dan Stowell, do Centro de Biodiversidade Naturalis

Significado

Decodificar o significado dos sons produzidos por animais também requer muitos dados sobre o contexto de onde ocorrem.

Para saber mais a respeito das vocalizações de morcegos frugívoros egípcios, os pesquisadores usaram câmeras de vídeo e microfones para gravar grupos dos animais durante 75 dias.

Ao final, a IA conseguiu distinguir, com 61% de precisão, os sons agressivos emitidos em quatro contextos diferentes.

Yossi Yovel, neurobiólogo da Universidade de Tel Aviv, em Israel, Yovel ficou surpreso ao descobrir que a IA conseguiu identificar, quais morcego recebiam as mensagens.

“Isso implica que o aparato de espionagem é teoricamente capaz, pelo menos até certo ponto, de identificar se o morcego A está se dirigindo ao morcego B ou ao morcego C”.

Contudo, detectar padrões é apenas o começo. Os cientistas depois precisam determinar se os algoritmos descobriram algo significativo em relação ao comportamento animal do mundo real.

“É preciso ter muito cuidado para evitar detectar padrões que não são reais”, diz Stowell. 

Baleias

Outros grandes projetos estão em curso, como o Projeto CETI (sigla em inglês para Iniciativa de Tradução de Cetáceos). Ele conta com especialistas em aprendizado de máquina, biólogos marinhos, roboticistas, linguistas e criptógrafos para decifrar a comunicação de cachalotes, que emitem sons de estalos organizados em sequências semelhantes ao código Morse, chamadas de codas.

https://www.estadao.com.br/link/cientistas-buscam-pelo-google-tradutor-da-linguagem-animal-para-entender-bichos/

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