Há mais de uma década a indústria automobilística brasileira enfrenta um dilema complexo: possui uma capacidade produtiva instalada de cerca de 4,5 milhões de veículos por ano, mas nem sequer consegue usar muito mais que a metade disso na prática. Em 2025, por exemplo, foram 2,64 milhões de unidades fabricadas nacionalmente, entre leves e pesadas, exato 1,8 milhão ou 41,3% abaixo do que poderíamos.
O baixo crescimento do mercado interno e a dificuldade de exportar explicam esse sub-aproveitamento fabril. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, o país vem passando por uma transformação profunda em sua dinâmica de mercado, liderada pela chegada de pelo menos dez marcas chinesas – a saber: BYD, Caoa Chery, Caoa Changan, GAC, GWM, Jetour, Leapmotor, MG, Omoda Jaecoo e Zeekr -, além de outras em estudo, como Lepas, Lynk & Co e xPeng.
A maioria delas promete ou deixa clara a intenção de produzir carros aqui, até por conta do aumento do aumento do Imposto de Importação para veículos híbridos e elétricos importados, que alcançará o ápice de 35% já a partir de julho deste ano. Ou seja, ter uma operação de montagem ou produção local será cada vez mais essencial para manter a competitividade.
Com operações já mais consolidadas no país, BYD e GWM optaram por construir suas próprias fábricas, embora com um detalhe: ambas adquiriram o espólio de outras montadoras que fabricavam aqui e encerraram sua produção local, no caso Ford e Mercedes-Benz, respectivamente. Com isso, seus investimentos não representam uma mudança efetiva na capacidade produtiva nacional instalada. Pelo menos por enquanto.
Enquanto isso, outras marcas estão apostando em uma alternativa que reduz custos e promete aliviar a ociosidade de fábricas já instaladas em nosso território: o compartilhamento de produção entre diferentes fabricantes, mesmo que não haja nenhuma ligação societária entre elas. O mais interessante é que a estratégia vem se desenrolando por meio de parcerias dos mais diferentes modelos.
A estratégia parece ser um bom negócio para todos: permite que as chinesas entrantes tenham produção local e fujam dos impostos mais altos, ao mesmo tempo em que ajuda fabricantes há mais tempo instaladas a reduzir sua capacidade ociosa e, assim, otimizar custos operacionais.
A forma mais robusta de parceria é quando duas empresas diferentes formam sociedades, as chamadas joint ventures, para produção conjunta e até sinergia no desenvolvimento de produtos. No Brasil, é o caso da Geely, que adquiriu 26,4% de participação na estrutura da Renault do Brasil, o que deu à gigante chinesa o direito de usar a fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, para produzir aqui alguns de seus veículos.
Por isso, já em 2026, a marca confirmou a fabricação local do EX5 EM-i, configuração híbrida do SUV médio. Além disso, deve montar por aqui também o EX2, hatch compacto elétrico que vem fazendo sucesso entre motoristas de aplicativo.
Se a sociedade de Geely e Renault é local, a Stellantis firmou uma joint venture global com a chinesa Leapmotor, que está sendo aproveitada localmente. Além de liderar a operação da marca chinesa de elétricos e híbridos em série (os chamados veículos de autonomia estendida ouREEV), a maior fabricante em operação no Brasil vai montar SUVs da estreante na fábrica de Goiana (PE), embora ainda sem confirmar quais modelos serão ali manufaturados.
Entretanto, quem começou essa tendência nacional foi a Caoa Chery, quando o grupo brasileiro adquiriu 51% das ações da operação chinesa no país e passou a ficar responsável pela produção local de modelos da marca Chery no país. Atualmente, a Caoa produz no município de Anápolis, em Goiás, os SUVs Tiggo 5X, Tiggo 7 e Tiggo 8 nas versões apenas a combustão. Em breve, passará a fabricar também as configurações híbridas desses modelos.
Menu Por falar em Caoa, o grupo brasileiro anunciou no ano passado, no Salão do Automóvel de São Paulo, uma aliança com a chinesa Changan. Conforme antecipado por Autoesporte, a parceria ainda não envolve participação societária, mas, além de ser responsável pela importação, a companhia local vai produzir pelo menos três modelos da montadora.
Buscar chinesa, também em Anápolis. O primeiro será o SUV médio cupê Uni-Outra aliança que ainda está em elaboração é a da americana e General Motors com a sul-coreana Hyundai. Por enquanto, esta união se confirmou apenas no desenvolvimento conjunto de quatro novos produtos destinados aos mercados da América do Sul, sendo que três deles utilizarão a plataforma K2 de veículos compactos da Hyundai e um será a partir da base GMT 31XX-2 para picapes de chassi sobre longarina.
Recentemente, a GM se pronunciou afirmando que não vai deixar de produzir seus próprios veículos, mas não será surpresa caso a fabricante americana empreste parte da capacidade de suas três fábricas no Brasil – Gravataí (RS), São Caetano do Sul (SP) e São José dos Campos (SP) – para a nova parceira, que atualmente opera no limite de sua fábrica em Piracicaba (SP), com três turnos.
O cenário mais viável é que as duas picapes previstas na aliança, uma intermediária e uma média, tenham fabricação compartilhada e feita pela GM nas plantas de São Caetano e São José. Já os carros de passeio os de maior volume, continuam a ser feitos cada um nas respectivas fábricas das duas empresas.
Por fim, há as operações de produção terceirizada, quando uma fabricante contrata a estrutura de outra sem estabelecer nenhum outro tipo de vínculo. É o caso da chinesa GAC, que contratou a brasileira HPE para montar na fábrica de Catalão (GO) até 50 mil veículos por ano. A HPE é representante oficial da marca Mitsubishi no Brasil, mas não terá nenhum outro tipo de aliança com a GAC.
Ou, ainda, o caso da empresa Pace, que assumiu a estrutura fabril da Troller em Horizonte (CE), que também foi descontinuada pela Ford. Ali, o grupo iniciou recentemente a montagem dos elétricos Chevrolet Spark EUV e Captiva EV, da GM, e deve em breve anunciar uma parceria para fazer o mesmo com produtos da chinesa MG, que pertence ao grupo Saic.
