Autor: João Paulo Santos de Paiva Estevam
Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
Coordenador: Prof. Dr. Roberto Rodolfo Georg Uebel
Em 2025, Brasil e Peru celebraram cinquenta anos de cooperação técnico-científica, um marco que reforça a importância da diplomacia focada na cooperação regional na América Latina, tendo sido implementadas, durante todo esse período, mais de 150 iniciativas focadas em áreas desde saúde pública até gestão de recursos (ABC – Agência Brasileira de Cooperação, 2025). Como destacou o embaixador brasileiro no Peru, Clemente Baena Soares (La República, 2025), essa parceria não apenas consolidou laços bilaterais, mas também projetou uma visão de futuro baseada em ciência, inovação e desenvolvimento sustentável.
Quanto ao ponto de partida dessa trajetória, foi o Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica, firmado em 1975 e aprovado pelo Decreto Legislativo nº 46 de 1976, que deu início a bases sólidas para o intercâmbio em áreas como saúde, agricultura e meio ambiente. Contudo, estudos mostram que, já no início do século XX, havia intercâmbio científico entre Brasil e Peru, com o estabelecimento de trocas científicas sobre avanços na medicina e nas engenharias (MAST – Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2017), evidenciando uma tradição de colaboração acadêmica que se consolidaria institucionalmente décadas depois.
Atualmente, segundo a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), existem vinte projetos em execução, além de outros em negociação, abrangendo saúde, aquicultura, agricultura e fortalecimento institucional, sendo que, alguns desses projetos são acompanhados por instituições acadêmicas e cientificas. Entre essas instituições, está a Fiocruz, que, como instituição amplamente respeitada entre as duas nações, destaca o reconhecimento mútuo de cientistas brasileiros e peruanos. No entanto, essa cooperação bilateral não se limita ao campo científico, mas também tende a se conectar a dimensões políticas e estratégicas, como apontam estudos da Escola Superior de Guerra (ESG, 2021), que analisam políticas de segurança e defesa como parte de uma futura integração bilateral mais abrangente.
Já o futuro dessa frutífera e duradoura parceria, tende a se expandir em três direções principais: inovação tecnológica, com maior integração em biotecnologia e inteligência artificial aplicada à saúde e agricultura; sustentabilidade, por meio de projetos conjuntos voltados para a preservação da Amazônia e uso racional dos recursos naturais; e integração regional, com o fortalecimento da diplomacia científica como instrumento de aproximação política e econômica. No entanto, o futuro dessa parceria dependerá da capacidade de ambos os países de transformar ciência em desenvolvimento inclusivo e sustentável, o que reforça a dimensão multilateral dessa cooperação, que ao se consolidar como exemplo, inspira outros países latino-americanos a adotar a ciência como eixo central de suas políticas de integração (Baena Soares, 2025).
Dessa forma, esse caso pode ser interpretado como um exemplo de como o multilateralismo pode ser construído a partir de experiências bilaterais que se expandem para redes mais amplas de colaboração. Desse modo, é através da atuação conjunta em temas como bioprospecção e biodiversidade, que o caso Brasil-Peru se apresenta como exemplo concreto de como ciência e diplomacia se entrelaçam para construir pontes duradouras e estratégicas no continente, além de demonstrar que a ciência é um vetor estratégico para a diplomacia e para a construção de confiança entre Estados.
Assim, os cinquenta anos de cooperação científica entre Brasil e Peru representam não apenas um legado histórico, mas também uma oportunidade de projetar o futuro da região.
Referências:
BRASIL. Decreto Legislativo nº 46, de 1976. Aprova o texto do Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Peru. Diário das Leis, Brasília, 1976.
Disponível em: https://www.diariodasleis.com.br/legislacao/federal/1976/46/. Acesso em: 20 dez. 2025.
AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO (ABC). Brasil e Peru comemoram 50 anos de cooperação técnica. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 2025.
Disponível em: https://www.gov.br/abc/pt-br/assuntos/noticias/brasil-e-peru-comemoram-50-anos-de-cooperacao-tecnica. Acesso em: 25 out. 2025.
FIOCRUZ – Instituto Oswaldo Cruz. Do Brasil ao Peru: reconhecimentos que atravessam fronteiras. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2023.
Disponível em: https://www.ioc.fiocruz.br/noticias/do-brasil-ao-peru-reconhecimentos-que-atravessam-fronteiras. Acesso em: 2 jan. 2026.
DIAS, Camila Carneiro Costa; COSTA, Maria Conceição da. Cooperação internacional e bioprospecção no Brasil e no Peru: parcerias Norte-Sul e público-privadas em pesquisa aplicada. RECIIS – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, v. 4, n. 2, 2010.
Disponível em: https://arca7.fiocruz.br/items/ff84b341-26d3-4459-a490-8fbaeddadcc9. Acesso em: 2 jan. 2026.
MUSEU DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS AFINS (MAST). História comparada da ciência: Brasil e Peru. Rio de Janeiro: MAST, 2019.
Disponível em: https://www.gov.br/mast/pt-br/projetos-de-pesquisa/coordenacao-de-historia-da-ciencia-e-tecnologia-cohct/historia-comparada-da-ciencia-brasil-e-peru. Acesso em: 20 dez. 2025.
ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). Trabalho comparativo sobre políticas de segurança e defesa Brasil–Peru. Rio de Janeiro: ESG, 2021.
Disponível em: https://repositorio.esg.br/handle/123456789/1241. Acesso em: 19 dez. 2025.
SOARES, Clemente Baena. Los 50 años de cooperación técnica y científica entre Brasil y Perú. La República, Lima, 8 out. 2025.
Disponível em: https://larepublica.pe/opinion/2025/10/08/los-50-anos-de-cooperacion-tecnica-y-cientifica-entre-brasil-y-peru-por-clemente-baena-soares-hnews-756896. Acesso em: 10 out. 2025.
