A inteligência artificial ameaça ‘quebrar’ a criptografia

Os avanços na inteligência artificial ameaçam “quebrar” as ferramentas de criptografia usadas para proteger os dados digitais, o que deu início a uma corrida para garantir a segurança tanto dos atuais métodos predominantes quanto daqueles da próxima geração, ainda em planejamento.

As autoridades reguladoras e instituições como a Autoridade de Conduta Financeira (FCA, na sigla em inglês), do Reino Unido, vêm alertando cada vez mais as empresas para que criem planos para trocar os métodos de criptografia usados na proteção das informações online importantes.

Esses alertas se intensificaram depois de a OpenAI ter causado polêmica ao divulgar centenas de artigos matemáticos com “provas” para alguns problemas que há muito tempo estavam sem solução, sendo que algumas delas, segundo a empresa, foram geradas por seus modelos de IA.

A Associação pela Matemática Humana (AHM, na sigla em inglês), um grupo criado para proteger o campo contra a “ameaça da inteligência artificial”, criticou a criadora do ChatGPT por esses artigos e conclamou os matemáticos a pararem de trabalhar com a empresa. A OpenAI defendeu a iniciativa e prometeu US$ 5 milhões para uma fundação voltada para a matemática.

Segundo especialistas, os avanços possibilitados com a ajuda da IA levantam a dúvida se a tecnologia poderia em breve decifrar os principais métodos criptográficos existentes, como os usados para impedir que hackers invadam contas bancárias on-line e bancos de dados.

“O que vem ocorrendo nesses sistemas [de IA] é um tipo completo de reestruturação do que é a ‘dificuldade’, e a dificuldade serve de base para grande parte da criptografia moderna”, disse o matemático australiano Geordie Williamson, em uma recente palestra promovida pelo Imperial College London. “Acho que deveríamos esperar choques no futuro […] choques muito perturbadores, grandes, grandes choques.”

Apesar de IA ainda não ter decifrado nenhum método criptográfico importante e de alguns especialistas em cibersegurança continuarem céticos de que possa vir a fazê-lo, os matemáticos alertam para o aumento dos riscos.

Um dos motivos é que as melhorias de desempenho da IA na elaboração de algoritmos e na teoria dos números – relacionada às propriedades dos números inteiros – aumentaram a capacidade de resolver problemas antes considerados muito difíceis.

Um método criptográfico muito usado baseia-se na multiplicação de dois números primos muito grandes. Até agora, esse tem sido um processo que funciona bem, pois a multiplicação é fácil de fazer para os atuais computadores, mas o processo inverso, de descobrir qual é o par de números de origem, é bem mais difícil.

Os avanços da IA já vêm tendo impacto na cibersegurança. Na semana passada, empresas pelo mundo correram para corrigir rapidamente falhas em uma linguagem de programação muito usada para websites, a PHP, reveladas em parte por modelos de IA desenvolvidos pela OpenAI e pelo Google.

Os avanços da IA em matemática também colocam em dúvida a suposição anterior de que a ameaça mais premente à criptografia é o advento dos computadores quânticos – máquinas concebidas para explorar a física de partículas subatômicas e alcançar resultados além da capacidade dos computadores “clássicos”. A maioria dos especialistas, entretanto, acredita que um computador quântico poderoso o suficiente ainda está a anos de estar pronto.

“Qual é o crocodilo que está mais próximo do barco no que se refere a nossos algoritmos criptográficos?”, disse uma pessoa do setor financeiro. “É o quântico ou é a IA?”

As ciberameaças vêm “evoluindo rapidamente à medida que a IA e a computação quântica avançam”, declarou a FCA ao Financial Times. A agência reguladora destacou estar testando uma nova ferramenta de supervisão com 50 grandes instituições para avaliar se elas estão bem preparadas para uma era de novos riscos tecnológicos para a criptografia.

“As firmas não deveriam ficar esperando para agir”, declarou a FCA, que planeja compartilhar em novembro orientações práticas sobre como as mais de 35 mil empresas de serviços financeiros sob sua supervisão no Reino Unido deveriam lidar com os riscos da IA e da computação quântica.

“Elas deveriam compreender como seus sistemas estão protegidos hoje e começar a se preparar agora para um futuro seguro contra ameaças quânticas”, ressaltou a FCA.

A perspectiva de que a IA “quebre” ferramentas de criptografia emerge como um “risco significativo” para “formas mais matemáticas de criptografia”, disse Daniel Shiu, professor de criptomatemática na Universidade de Manchester.

Entre as vulnerabilidades estão alguns dos algoritmos “menos maduros” entre os novos que estão sendo projetados para garantir a segurança contra ataques de computadores quânticos, segundo Shiu.

A aptidão matemática cada vez maior da IA está desencadeando ações das autoridades, disse Shiu. Isso levou a uma reavaliação de algumas ferramentas criptográficas atuais e outras que ainda estão em planejamento em países como Estados Unidos, China e Alemanha, acrescentou.

A operadora de telecomunicações BT está entre as empresas que informaram já estar se preparando para migrar para novos métodos de criptografia em razão da ameaça futura dos computadores quânticos. A empresa acrescentou estar empenhada em garantir que as tecnologias criptográficas possam ser “trocadas mais facilmente, à medida que os padrões, tecnologias e ameaças evoluam”. (Tradução de Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/10/29/a-inteligencia-artificial-ameaca-quebrar-a-criptografia.ghtml

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