A Doutrina Donroe: Soberania Latino-Americana e a Reestruturação da Hegemonia dos EUA

Autora: Gabriella Fernanda da Silva

Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)

Coordenador: Prof. Dr. Roberto Rodolfo Georg Uebel

Em 2025 a Casa Branca publicou a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, documento que destaca as prioridades de Washington em segurança nacional. Em linhas gerais, o documento propõe políticas que seguem a tendência do America First, slogan do Presidente Trump desde sua candidatura.

Para a América Latina, o que chamou atenção no documento foi o Corolário Trump à Doutrina Monroe, ou Doutrina Donroe, que explicitou o objetivo em manter a região sob a esfera de influência do país. Os pilares dessa estratégia fundamentam-se no controle rigoroso de fronteiras e fluxos migratórios, no combate ao narcoterrorismo, na exclusão de competidores extrarregionais (notadamente a China) de ativos estratégicos e no reposicionamento militar para áreas de ameaça iminente.

Não demorou muito para essas políticas serem colocadas em prática, dia 03 de janeiro forças militares americanas capturaram Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela, motivados pela relação de Maduro com o narcoterrorismo. Logo depois, em 22 de fevereiro, o exército mexicano matou o narcotraficnate mais poderoso do México ao contar com informações fornecidas pelos Estados Unidos. Além disso, ‘El Mancho’, como era conhecido o narcotraficante, era líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), o qual foi adicionado à lista de organizações terroristas dos Estados Unidos em 2025.

Ainda mais, dia 10 de março, a Câmara de Deputados do Paraguai aprovou um acordo com o governo dos Estados Unidos que autoriza a presença de militares e integrantes do Departamento de Defesa norte-americano no país. A cooperação entre os países tem como objetivo o confronto ao crime organizado e narcotráfico na região, principalmente a presença do Hezbollah na Tríplice Fronteira com Brasil e Argentina. O acordo prevê privilégios, imunidades e isenções aos americanos, além de que eles estão sujeitos à  jurisdição penal dos EUA em território paraguaio. Essa autonomia, amplia o risco de negligência quanto às especificidades e necessidades locais.

Todas essas atividades também chegam ao Brasil quando o Presidente Trump anuncia o interesse em classificar facções de crime organizado brasileiro (PCC e Comando Vermelho) como terroristas. A nova classificação pode servir de pretexto para intervenções extraterritoriais, pressões por extradições e até operações de inteligência estrangeira em solo nacional, violando o princípio da jurisdição doméstica

A Casa Branca encontra facilidade em aplicar sua doutrina quando há um alinhamento ideológico com os países latino-americanos. A ascensão de líderes de direita, como José Antonio Kast no Chile e Rodrigo Paz na Bolívia, soma-se aos governos de Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai) e Daniel Noboa (Equador). Na América Central, essa tendência é reforçada por figuras como Nayib Bukele (El Salvador), Nasry Asfura (Honduras), José Raúl Mulino (Panamá) e Rodrigo Chaves (Costa Rica).

O alinhamento ideológico se concretiza com os Escudo das Américas, cúpula organizada pelos Estados Unidos que reuniu 12 líderes de países considerados pelo Departamento de Estado seus aliados mais próximos e com ideias semelhantes: Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, e Trindade e Tobago. As pautas dessa cúpula são as mesmas já colocadas na Estratégia de Segurança Nacional, o que mostra a organização americana em mobilizar aliados que facilitam e contribuem para atingir seus objetivos nacionais. Entretanto, a eficácia do bloco enfrenta limitações devido a ausência do Brasil, Colômbia e México. Juntos, esses três países detêm mais da metade do PIB regional e abrigam os maiores mercados ilícitos e centros de produção de entorpecentes, alvos nominais da coalizão.

Depreende-se, portanto, que a aplicação da Doutrina Donroe não se resume a invasões e captura como aconteceu na Venezuela, mas pode ser de forma diplomática e por órgãos multilaterais como os Escudos das Américas, diferença que depende das relações que o país mantém com os EUA. Todavia, embora o combate ao narcotráfico traga benefícios colaterais aos países da região, a diplomacia estadunidense reitera que sua prioridade máxima é a segurança nacional. Se ignorar as realidades socioeconômicas locais, essa estratégia corre o risco de apenas deslocar as rotas do tráfico em vez de desmantelá-las, além de fomentar o ressurgimento de sentimentos antiamericanos que poderiam empurrar a região para a órbita de influência chinesa.

REFERÊNCIAS

SIENA, David Pimentel Barbosa de. Terrorismo e crime organizado no Direito brasileiro: limites conceituais e repercussões internacionais. Boletim IBCCRIM, São Paulo, v. 33, n. 394, p. 11-14, 2025. DOI: 10.5281/zenodo.16943605. Disponível em: https://publicacoes.ibccrim.org.br/index.php/boletim_1993/article/view/2139.

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/congresso-paraguaio-ratifica-presenca-de-militares-dos-eua-no-pais

https://www.state.gov/translations/portuguese/estados-unidos-sediarao-a-cupula-escudo-das-americas

https://www.theguardian.com/us-news/2026/mar/07/trump-shield-of-americas-summit#:~:text=The ‘Shield of the Americas,7 Mar 2026 13.01 EST

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/com-kast-direita-consolida-avanco-em-governos-da-america-latina

https://www.dw.com/pt-br/como-méxico-matou-o-narcotraficante-mais-poderoso-do-país/a-76089407

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. National Security Strategy of the United States of America. Washington, DC: [s. n.], nov. 2025

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