Klaus Kleber
Não acredito que os empresários de hoje, do campo e da cidade, tenham menos dedicação a seus negócios do que os senhores de engenho, cafeicultores ou criadores de gado do passado. Mas, pelo que eu tenho visto, ambos são igualmente dominados pela lógica do lucro a qualquer custo. Devo dizer que pensam da mesma forma quando se trata das relações de trabalho. O Brasil, como registram os livros de história, foi o último país das Américas a abolir a escravidão, como sabemos, em 13 de maio de 1888. Isto porque os empresários brasileiros e, logicamente, o governo, temiam uma queda violenta de nossas exportações, principalmente de café. Por motivos puramente econômicos, o Brasil resistiu enquanto pode em dar remuneração aos negros trabalhadores.
Hoje, no século XXI, os empresários também resistem à semana de quarenta horas para todos os trabalhadores brasileiros por motivos econômicos, em parte até verdadeiros. O que muitos empresários não compreenderam é que a semana de 40 horas (5/2 dias) representa um anseio da sociedade. Não se trata de uma questão puramente de contabilidade de custos das empresas. A grande massa do povo brasileiro deseja trabalhar 5 dias por semana e ter 2 dias de folga, como muitos dos operários, escriturários e profissionais de outros países. Em vista disto, chegou a época de resgatarmos o espírito da abolição. Lembrando a luta em que tomaram parte Luiz Gama, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças e outros notáveis brasileiros. Inclusive Machado de Assis, que não era tão desligado das grandes questões nacionais como se propaga.
O operário fabril geralmente trabalha 6 dias por semana com a folga no domingo e, às vezes, com o advento da semana inglesa, o total baixou para 44 horas. Isso depois das leis trabalhistas de 1930, no governo Getúlio Vargas. Antes disso, a grande massa de trabalhadores do Brasil, excetuando os funcionários públicos, trabalhava mais de 48 horas por semana e eram considerados progressistas aqueles industriais que achavam justo uma semana de 8 horas por dia, como defendia o Manifesto Comunista, de 1848, de Karl Marx e Friederich Engels. O domingo de folga e os dias santificados num país católico amenizavam a situação.
Curiosamente, depois das leis trabalhistas, algumas categorias, como a dos bancários e dos jornalistas, obtiveram leis que diminuíram sua carga horária de trabalho, fazendo juz aos rendimentos por horas extraordinárias se tivessem que trabalhar por demanda dos patrões. Uma forma de compensar em algumas categorias, como a dos jornalistas, tem sido os plantões dos fins-de-semana a que todo profissional está sujeito, uma ou duas vezes por mês.
Na realidade, o Brasil, como mostra nossa história, tem uma tendência de contemporizar com relação a direitos sociais. Por exemplo: alguns querem a semana de 40 horas num espaço de 10 anos, ou seja, em 2036. Isso me lembra a lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871. Negro que nascesse antes dessa data era escravo até morrer, a não ser que comprasse a sua alforria.
O Brasil não pode ser conduzido apenas por interesses econômicos, fabris ou comerciais. A sociedade brasileira, o povo brasileiro quer evoluir com justiça e com humanidade.
Dizem que com o avanço da Inteligência Artificial milhares de empregos desaparecerão no futuro. E não conheço nenhum empresário que deixaria de demitir um funcionário se os seus serviços pudessem ser dispensados em face da adoção de um sistema eletrônico qualquer. Mas eles não admitem que os trabalhadores mantenham o mesmo salário com a redução das horas de trabalho. Ninguém é contra a livre empresa, que deve procurar sempre diminuição de custos. Mas isso não deve ser feito apenas do lado humano. Sempre haverá formas contábeis que ajudam a compensar uma semana de trabalho mais justa para o trabalhador brasileiro, principalmente os operários das fábricas, da construção civil ou de qualquer outra atividade intensiva de mão de obra. Isto não deve ser tema partidário. É uma aspiração do povo.
Felizmente, o Brasil, cedo ou tarde, avança à despeito da ganância. A escravidão ficou lá atrás e a abolição é um exemplo de luta.
