Possível programa atômico da Arábia Saudita amplia temor de uma corrida nuclear

Quando o presidente Dwight Eisenhower foi às Nações Unidas em 1953 para oferecer aos países tecnologia e conhecimento nuclear em troca da promessa de uso pacífico, a política recebeu um nome memorável: “Átomos para a Paz”. Sete décadas depois, ela poderia receber um nome menos idealista: nuclear hedging (estratégia de salvaguarda nuclear ou posicionamento estratégico nuclear).

O acordo nuclear civil do presidente Trump com a Arábia Saudita, anunciado nesta semana, reflete um mundo volátil no qual os aliados dos EUA buscam capacidades nucleares como forma de proteção contra vizinhos predatórios, interrupções prejudiciais no fornecimento de energia e a redução do “guarda-chuva de segurança” dos Estados Unidos. Reflete também uma Casa Branca ávida por negócios lucrativos para empresas americanas, disposta a flexibilizar padrões de não proliferação para um parceiro privilegiado em uma região perigosa.

O acordo com a Arábia Saudita poderia, futuramente, permitir ao país enriquecer combustível para reatores nucleares e limitar os locais que inspetores internacionais poderiam visitar para verificar se as intenções são pacíficas. Ambas as concessões — inéditas em acordos nucleares civis americanos recentes — alimentarão receios de que os sauditas possam mudar de rumo e iniciar um programa de armas nucleares.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, não esconde essa possibilidade. Ele alertou que, se o Irã obtiver uma bomba nuclear, os sauditas farão o mesmo.

“Estamos de volta a uma era de nuclear hedging”, disse Vipin Narang, professor de segurança nuclear e ciência política no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “Há muitos países nervosos, enfrentando uma situação de segurança em deterioração, que não têm certeza se podem contar com seus protetores formais ou informais.”

“Veremos uma onda de Estados buscando a capacidade de desenvolver um programa militar” que poderia resultar em uma arma, disse o professor Narang, que trabalhou com política nuclear no Pentágono durante o governo Biden.

Gary Samore, professor de política na Universidade Brandeis e consultor em negociações de controle de armas durante os governos Obama e Clinton, afirmou que esses países são, por vezes, chamados de “proliferadores amigáveis”.

Nem todos — ou talvez nenhum deles — chegarão a buscar uma bomba, segundo os especialistas. O último país a ingressar no clube dos Estados com armas nucleares foi a Coreia do Norte, em 2006. No entanto, a situação aponta para um novo período de riscos, no qual o mercado global de energia nuclear pode se tornar mais desregulado e menos sujeito a normas. Compradores de tecnologia nuclear, inquietos com a mudança na postura global dos Estados Unidos, provavelmente farão exigências maiores, ao passo que vendedores rivais, como Rússia e China, poderão aproveitar o precedente saudita para atendê-las.

Em países como AlemanhaPolôniaCoreia do Sul e Japão, governos que não possuem armas nucleares debatem a necessidade de adquiri-las. A Coreia do Sul, ameaçada pelo Norte armado com ogivas nucleares, iniciou um plano para desenvolver uma frota de submarinos de propulsão nuclear, com o apoio dos Estados Unidos.

O ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, declarou nesta semana que seu país precisa enfrentar a questão do papel das armas nucleares em sua defesa, apesar da aversão histórica enraizada na destruição de Hiroshima e Nagasaki durante a guerra.

O presidente da Polônia, Karol Nawrocki, afirmou que seu país deveria buscar um programa nuclear, enquanto o chanceler alemão Friedrich Merz integrou um grupo de alto nível sobre questões nucleares com a França e outras nações europeias.

França, que ao lado da Grã-Bretanha é uma das duas potências nucleares da Europa Ocidental, comprometeu-se a ampliar seu arsenal e oferecer uma forma de dissuasão estendida aos seus vizinhos para compensar a retração dos EUA sob o governo Trump. Em um gesto de cooperação, Paris enviou recentemente um caça com capacidade nuclear para uma base aérea alemã.

“O próximo meio século será uma era de armas nucleares”, disse o presidente francês Emmanuel Macron em março. Ele anunciava a mudança na doutrina nuclear de seu país para uma estratégia de “dissuasão avançada” — o uso das armas nucleares francesas para prevenir ataques a territórios além de suas próprias fronteiras.

Durante esse discurso, Macron falou de um mundo repleto de pontos críticos de tensão nuclear: Índia, Paquistão, Coreia do Norte e China. No entanto, especialistas afirmaram que a oferta francesa de dissuasão aos vizinhos europeus poderia reduzir o interesse dos aliados em adquirir capacidades nucleares. Embora um “guarda-chuva nuclear” francês não substituísse o fornecido pelos Estados Unidos, ele ainda poderia atuar como um fator de dissuasão.

“A melhor ferramenta de não proliferação que os EUA já tiveram são as suas alianças militares”, disse Matthew Fuhrmann, professor de estudos de segurança na Universidade do Texas. “Se os EUA não tivessem estendido a proteção nuclear a tantos países, estaríamos em um mundo com mais Estados possuidores de armas nucleares.”

O papel ampliado da França, segundo ele, reduziria o risco de outros países europeus buscarem obter uma arma. “Mas não creio que isso diminua o desejo deles de se precaverem”, acrescentou, observando que o simples fato de possuir um programa nuclear civil confere aos países poder de negociação junto a potências nucleares como os Estados Unidos.

Há uma certa ironia no fato de a França desempenhar um papel moderador, visto que, historicamente, o país tem sido um dos mais prolíficos vendedores de tecnologia nuclear. A França ajudou a desenvolver programas nucleares em Israel, no Iraque e no Paquistão.

O ritmo dos acordos nucleares civis havia diminuído nos últimos anos, disse o professor Fuhrmann, em parte porque a demanda global por energia nuclear despencou após o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011. No entanto, as preocupações com a segurança energética aumentaram após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e cresceram novamente depois que o conflito envolvendo os EUA, Israel e o Irã levou Teerã a interromper o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.

Ao fechar um acordo com os Estados Unidos, a Arábia Saudita segue os passos dos Emirados Árabes Unidos, que assinaram um acordo nuclear civil com a administração Obama em 2009. Esse acordo não permitia que os Emirados enriquecessem combustível nuclear — bloqueando assim o caminho para a produção de armas — e previa inspeções rigorosas. Especialistas o classificaram como o “padrão-ouro” da não proliferação.

Segundo analistas, as concessões originais do acordo refletiam o reconhecimento, por parte de Trump, de que a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã havia desestabilizado a Arábia Saudita e toda a região.

Conceder benefícios à Arábia Saudita provavelmente não colocará Riad no caminho para obter uma bomba tão cedo, afirmaram os especialistas. O reino está começando do zero na corrida nuclear, e levaria anos para desenvolver uma capacidade própria de produzir urânio com grau de pureza para armas.

Contudo, outros países com capacidades mais avançadas podem exigir as mesmas condições. Eles poderiam obter sucesso caso os Estados Unidos deixem de manter a postura de não fornecer tecnologia sensível de enriquecimento a Estados que não possuem armas nucleares.

https://www.estadao.com.br/internacional/acordo-entre-eua-e-arabia-saudita-amplia-temor-de-uma-corrida-nuclear-global

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