Na semana passada, uma reunião do Conselho de Segurança russo chamou a atenção por uma ausência de peso: Sergei Lavrov, chanceler há 21 anos e membro permanente do conselho, não estava à mesa com o presidente Vladimir Putin. Ele também não representou o país em uma reunião internacional na Ásia e não irá à cúpula do G20, como faz desde 2022. O governo afirma que Lavrov segue no posto, mas os rumores dão margem a teorias mais elaboradas.
De acordo com o jornal Kommersant, citando fontes do governo, a ausência no Conselho de Segurança foi “coordenada” com Putin. No encontro, o presidente disse que irá explorar a possibilidade de realizar novos testes nucleares, em resposta a ameaças similares do líder americano, Donald Trump. Os dois países são signatários do acordo que veta testes com bombas atômicas, mas a retórica nuclear ganhou corpo após o retorno do republicano à Casa Branca.
Um dia antes, na terça-feira, o Kremlin anunciou que Maxim Oreshkin, vice-chefe de Gabinete, vai liderar a delegação russa na cúpula do G20, sem dar muitas explicações. No final do mês passado, Lavrov também não representou a Rússia nas cúpulas da Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático), na Malásia, e do fórum da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), na Coreia do Sul. Com Putin sob uma ordem internacional de prisão, e sob pressão para encerrar a guerra na Ucrânia, Lavrov era a face da Rússia em reuniões multilaterais desde 2022. Pelo menos até agora.
Na sexta-feira, o porta-voz da Presidência russa, Dmitry Peskov, disse que Lavrov continuava em seu posto, e que os relatos sobre sua saída não eram verdadeiros.
Um dos exercícios favoritos da Sovietologia, a ciência que estuda a antiga União Soviética, era a observação de ausências de líderes em Moscou de fotos, reuniões e documentos, uma forma de compensar a ausência de informações confiáveis de dentro do governo. À sua forma, a Kremlinologia herdou a arte de observar detalhes em busca de sinais. No caso de Lavrov há, além de imagens, relatos e episódios condizentes com um cenário de crise.
No começo de outubro, Trump e Putin concordaram com uma nova reunião bilateral, em Budapeste, para discutir os rumos da guerra na Ucrânia. Dias depois, revelou o jornal Financial Times, Moscou enviou um memorando a Washington no qual apresentava exigências para encerrar a guerra, como a manutenção dos territórios conquistados e argumentos recheados de nacionalismo. Em seguida, Lavrov conversou por telefone com Marco Rubio, secretário de Estado americano, e pessoas que acompanharam a conversa se disseram impressionados.
— Lavrov está claramente cansado e parece achar que tem coisas melhores para fazer do que se encontrar ou dialogar com os Estados Unidos, independentemente do que o presidente Putin queira — disse ao Financial Times uma pessoa que acompanhou as discussões.
Putin contava com uma nova reunião para, mais uma vez, mostrar ao Ocidente que não está isolado, e para apertar a mão de Trump em um país da União Europeia, uma imagem que poderia ser usada à exaustão por sua máquina de propaganda. Mas Trump cancelou o encontro, citando que não queria uma “reunião desperdiçada”. Segundo relatos, Lavrov foi apontado como o principal culpado.
O canal de Telegram russo Nezygar, citando fontes no Kremlin, disse que Putin teve uma conversa “muito séria” com Lavrov, e que o diplomata teria perdido poder. Um funcionário do governo ouvido pelo canal afirmou que, para Putin, “Lavrov não estava preparado para o diálogo com Rubio e o conduziu de maneira extremamente tensa, recusando-se a dialogar com o secretário de Estado”.
Um aliado de Lavrov disse ao Nezygar que as alegações eram “cheias de inverdades”, mas reconheceu que “Lavrov está realmente cansado e provavelmente ganhou mais adversários dentro do Kremlin”. Em vídeo publicado no YouTube, Boris Bondarev, diplomata que renunciou após a invasão da Ucrânia, lembrou que Lavrov, como um fiel burocrata, jamais se afasta da linha determinada por Putin. Mas isso não o exime de assumir a culpa de alguns fracassos.
— No sistema russo, o chefe nunca pode estar errado — disse Bondarev.
Lavrov é um dos últimos diplomatas da “velha guarda” no cenário internacional, conhecido por seu estilo franco e por comandar desde 2004 o Ministério das Relações Exteriores. Mas ele não tem mais o mesmo poder que ostentava nos mandatos anteriores de Vladimir Putin. Fontes diplomáticas, citadas pelo jornal britânico Guardian, relatam que ele não fazia parte do círculo próximo a Putin que decidiu invadir a Ucrânia, e que teria sido pego de surpresa.
Recentemente, a ascensão de Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo, como principal negociador junto aos EUA, soou como mais um alerta. Em fevereiro, durante reunião de alto nível com os americanos em Riad, Lavrov vetou Dmitriev à mesa, decisão revertida pelo próprio Putin. No mês passado, após o cancelamento da cúpula com Trump, o negociador viajou a Washington para reuniões das quais pouco se sabe, e vistas como uma forma de amenizar os estragos.
Em entrevista à agência RIA, no fim de semana, Lavrov reconheceu que houve “dificuldades” nas conversas com Washington, mas que está preparado para se encontrar presencialmente com Marco Rubio “sempre que for necessário”. Não houve perguntas sobre sua permanência no cargo.
No campo das especulações, Abbas Gallyamov, ex-autor de discursos de Putin e hoje alvo de uma ordem de prisão na Rússia, afirmou que uma das filhas do presidente, Katerina Tikhonova, está por trás da pressão para afastar Lavrov. Citando “fontes sérias”, Gallyamov revelou ao podcast Jivoy Gvozd que Tikhonova usou o episódio da reunião cancelada por Trump para mostrar ao pai que o chanceler é “muito agressivo”. Ela defende, segundo o ex-autor de discursos, que Dmitriev ganhe mais força dentro do Ministério das Relações Exteriores. O Kremlin não se pronunciou.
Em 2022, Tikhonova e sua irmã Maria Vorontsova, ambas nascidas do primeiro casamento de Putin, foram incluídas na lista de sanções dos EUA. O líder russo teria outros três filhos, não reconhecidos publicamente.
