A França viveu desdobramentos de uma nova crise que ameaça o governo, depois que a aposta do primeiro- ministro, François Bayrou, para obter apoio ao seu impopular plano de redução da dívida saiu pela culatra, mergulhando o país ainda mais na instabilidade política e financeira.
Os mercados franceses caíram após Bayrou convocar na segunda-feira um voto de confiança para 8 de setembro sobre o plano orçamentário.
A proposta é criticada por partidos da oposição, que disseram que aguardavam ansiosamente a oportunidade para encurtar o mandato do premiê.
Em um momento simbólico que reforçou a situação delicada, Bayrou tropeçou e quase caiu ao subir ao palco nesta terça-feira para fazer os primeiros comentários desde o anúncio do voto de confiança. Ele disse que os parlamentares precisam agora escolher entre o “caos” e a “responsabilidade” e pediu aos franceses que pressionem seus representantes a fazer uma escolha prudente antes de 8 de setembro.
Se o premiê cair, o presidente Emmanuel Macron poderá dissolver o Parlamento e realizar novas eleições legislativas — uma medida que elejá rejeitou —, ou instalar um novo governo. Entretanto, nenhuma das duas medidas deve resolver os problemas orçamentários ou o impasse político.
Uma fonte de um ministério importante disse acreditar que Macron optará por tentar eleger um novo premiê.
“A decisão do premiê francês provavelmente levará à sua substituição por outro primeiro-ministro, ou (menos provável) a novas eleições legislativas”, escreveram analistas da Capital Economics. “Seja como for, o déficit orçamentário da França continuará bem acima do nível necessário para estabilizar a relação da dívida.” O ministro do Interior, Bruno Retailleau, que lidera os republicanos conservadores, disse que seria “irresponsável” e “contra os interesses da França” votar pela queda do governo.
Outros discordam. A Reunião Nacional, partido de extrema direita de Marine Le Pen, disse querer que Macron convoque eleições parlamentares antecipadas. “Não consigo ver como um novo primeiro- ministro não seria imediatamente censurado”, disse uma fonte próxima de Le Pen.
Os socialistas, cujo voto será crucial, também disseram que votarão contra Bayrou. “Precisamos de um primeiro-ministro diferente e, acima de tudo, uma política diferente”, escreveu no X o deputado Boris Vallaud, líder da legenda.
A moção de confiança será votada dois dias antes de protestos convocados por vários grupos e apoiados por partidos de esquerda e alguns sindicatos, lembrando as manifestações dos “Coletes Amarelos” que eclodiram em 2018 por causa do aumento nos preços dos combustíveis e do custo de vida.
“A não ser que Bayrou for confirmado no cargo — hipótese que hoje parece improvável —, entraremos em uma nova fase, que será uma fase de desestabilização”, disse o pesquisador Jean-Daniel Levy, prevendo consequências negativas para a economia da França e sua imagem no exterior.Uma fonte próxima de Bayrou disse que seu governo está aberto para negociar os detalhes de suas propostas orçamentárias, embora ele tenha ressaltado que um aperto no orçamento é necessário.
Bayrou disse nesta terça-feira que pedirá aos contribuintes de alta renda um esforço especial para ajudar a reduzir o déficit. “Ele sabia que em algum momento seria apresentada uma moção de desconfiança sobre o orçamento e decidiu antecipar-se à oposição”, disse a fonte.
O índice francês de ações blue chips CAC 40 caiu 1,5% nesta terça-feira, depois de uma queda de 1,6% no final da segunda-feira. Gigantes bancários como BNP Paribas e Société Générale caíram mais de 6%
Já os rendimentos dos bônus soberanos franceses de 10 anos subiram brevemente para 3,53%, o maior nível desde março, estabilizando-se depois em 3,50%. Os rendimentos dos bônus caminham na direção oposta dos preços.
