Nos EUA, “taxa das blusinhas” sinaliza desglobalização

Ao meio-dia desta terça-feira, no horário de Washington, os Estados Unidos de Donald Trump passaram a taxar em 10% as remessas internacionais oriundas da China, pondo fim à política de isenção de impostos que o país vivia desde 2016. Naquele ano, o governo de Barack Obama elevou a tarifa zero de importação para envios de até US$ 200 para até US$ 800, um valor recorde, e algo equivalente a R$ 4,6 mil.

Guardadas as devidas proporções, a América de Donald Trump em 2025 pode ser o Brasil de 2024, quando o país decidiu, após muita grita das redes brasileiras, acabar com a isenção nos envios de até US$ 50.

Há até certas semelhanças na medida tomada entre os países, ambos afetados pela invasão dos sites chineses de varejo, mas a questão é mais complexa do que parece.

Acontece que esse tipo de mudança tarifária tem impactos também dentro dos EUA, e não só na China.

Os efeitos globais

No Brasil, seis meses atrás, foi definida uma taxa de importação de 20% nas remessas internacionais para empresas que seguem um programa do governo, o Remessa Conforme. Quem está fora do “Remessa”mpaga 60% de taxa nos envios.

No fim das contas, a importação caiu por aqui de forma considerável, cerca de 30% desde agosto, na comparação ano contra ano, segundo a Receita Federal. E não por acaso a venda de produtos nacionais nas redes locais acelerou exatamente nos últimos seis meses, após a taxação.

Pode até parecer que o Brasil é uma boa amostra do que os EUA verão amanhã, e é tentador pensar nessa lógica entre aqueles que defendem a desglobalização do varejo para proteger mercados.

Em certa medida, o recuo na venda de produtos chineses deve ocorrer nos EUA — lá fora, analistas não se arriscam a projetar números sobre a queda. Mas na maior economia do mundo, com um varejo altamente competitivo, os efeitos serão mais extensos e imediatos do que este, e podem até ser marginalmente negativos ao país.

A gigante americana Amazon, de Jeff Bezos, bem mais alinhada ao segundo governo Trump, e maior concorrente dos chineses, naturalmente, deve ser beneficiada pelo possível baque nas asiáticas, mas pode ter que lidar com consequências em seu próprio negócio.

A questão central é que a Amazon tem centros de distribuição na China e no México, e sua importação ficará mais cara.

Inclusive, ciente do risco de um aumento de tarifa a itens chinesesTrump faz ameaças deste tipo há meses —, a Amazon já teria elevado o estoque de produtos chineses nos centros de distribuição nos EUA, diz uma fonte de um marketplace asiático no país, ouvido nesta terça-feira pelo Valor.

Cerca de 60% de tudo que a Amazon vende nos EUA vem de lojistas terceiros, e parte deles são chineses.

Em 2023, pela primeira vez na história, a empresa admitiu que eles já foram uma “porção relevante” do negócio.

Os vendedores asiáticos na Amazon superam, em números, o total de americanos na plataforma. Segundo pesquisa da reportagem no site Statista, eles já respondem por 70% de todo tipo de produto vendido por parceiros lojistas no site americano ao ano. E EUA, Índia e Alemanha vêm com a parcela restante.

De acordo com um prestador de serviço da Amazon no Brasil, isso é um complicador maior para a companhia nos EUA lidar do que o seu braço específico de “bugigangas” baratas vendidas da China, o Amazon Haul.

O Haul foi criado em novembro, exatamente para competir com Temu e Shein. A plataforma da Amazon sentirá diretamente esse aumento na taxação, mas especialistas dizem que deve ser algo marginal.

“O Haul ainda é pequeno, pelo que sabemos. A questão é como a Amazon vai acomodar essa tributação dos seus importados também. Achamos que, pelas questões políticas, já estão aumentando a leva de lojistas americanos no ‘app’ da Amazon, mesmo que eles não sejam tão competitivos quanto os asiáticos, em termos de preços”, disse esse prestador de serviços no Brasil.

Asiáticas pressionadas

No centro desse movimento de Trump estão, principalmente, Temu e Shein, e em segundo plano AliExpress.

Essas companhias podem começar a sentir os reflexos ao longo de fevereiro.

Teoricamente, elas teriam que repassar a cobrança já nas compras a partir de hoje, que começam a ser feitas de produtos oriundos dos centros de distribuição de lojistas da China.

Trata-se de um volume gigantesco de exportação dessas companhias aos EUA.

Quase um terço (30%) de todos os pacotes pequenos que chegam anualmente ao mercado americano são encomendados nos sites e “apps” da Temu e Shein, segundo o comitê americano do Parlamento daquele pais, que preparou um relatório sobre o tema, informou hoje a agência Reuters.

A alfândega dos EUA teve um aumento de 600% desde 2016 em remessas asiáticas de até US$ 800, relata a agência de notícias. Foram 1,4 bilhão de pacotes internacionais de até US$ 800 em 2024.

Isso representa 80% de todo o mercado de venda on-line americano, segundo o “The New York Times”.

Para efeito de comparação, no Brasil, foram 187 milhões de pacotes em 2024 de até US$ 50, segundo o Fisco, ou menos de 20% de tudo o que gira nos EUA anualmente.

Reação “made in China”

Apesar da pressão envolvida nos negócios dessas empresas a partir de agora, parte do mercado acredita que vale aguardar para ver os reais efeitos nos marketplaces das asiáticas.

Fontes do setor ouvidas pelo Valor hoje creem que uma alíquota de 10% é algo a se lidar, e pode não mexer tanto no comércio no varejo global.

Isso, caso este seja só a tarifa aplicada no “cartão de visitas” de Trump aos sites chineses — porque se novos aumentos aparecerem, aí a situação muda de figura.

“Esses 10% vão encarecer quanto a remessa? Uma blusa passa de US$ 10 para US$ 11? Se pensarmos no limite máximo de US$ 800, dá US$ 80 a mais, e a depender, ainda vale a pena importar”, disse o diretor de um marketplace brasileiro.

“E ainda temos que considerar os subsídios a esse aumento, caso interesse às empresas bancar parte disso, apesar do efeito desse custo nos resultados”, disse ele.

O Brasil pode entrar nessa conta por aí. Ocorre que as plataformas asiáticas têm tido bons resultados no mercado nacional, apesar da taxação de 20% e do recuo nas vendas por conta disso.

A Temu, principalmente, mantém aceleração no tráfego e volume vendido no Brasil desde a sua chegada, em 2024, apesar de ainda perder dinheiro por aqui. E a Shein teve uma desaceleração no crescimento após o fim da isenção, mas mantém ganhos de mercado, porque avança mais que a média do setor no país.

Isso pode ajudar as empresas a compensar eventuais subsídios nas compras dos americanos com repasses em custos em mercados emergentes, como o Brasil, ajudando a equilibrar essa balança, dizem especialistas em marketplace.

Sobre o México, Trump ameaçou taxar em 25% a importação daquele país aos EUA, mas deu 30 dias de pausa, em troca de concessões sobre o controle das fronteiras entre os dois países.

Esse prazo de “carência” ao México pode elevar, inicialmente, os envios de importados da Ásia — tanto da Amazon quanto da Temu e Shein — para os centros de distribuição do México. E de lá, serem enviados aos EUA, driblando a taxa de 10%.

Isso até que Trump decida se aplica ou não os 25%, bem mais pesados que os 10%.

De qualquer forma, os sinais iniciais são de que essas mudanças devem afetar o nível de globalização do varejo digital no mundo, e pode exigir uma outra forma de as empresas pensarem estrategicamente sua atuação.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/02/04/analise-com-taxacao-a-partir-de-hoje-trump-recria-batalha-das-blusinhas.ghtml

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