O prêmio Nobel de Literatura de 2026 é da poeta e ensaísta canadense Anne Carson, anunciou a Academia Sueca na manhã desta quinta-feira (8).
É a consagração de uma autora que, há pelo menos uma década, era tida como uma favorita ao prêmio por seu trabalho inovador com a língua inglesa, realizando um tipo de vanguarda experimental intrinsecamente ligada aos clássicos.
Seus livros costumam beber da literatura grega e latina, assim como de autores basilares da filosofia e das letras inglesas, e desafiam gêneros ao misturar poesia a prosa, ensaio, tradução e não ficção.
Como disse o porta-voz do Nobel durante o pronunciamento, a arte de Carson mistura “a obsessão dos filólogos pelas palavras com a busca dos poetas por novos sentidos”.
Em seu comunicado oficial, a Academia Sueca afirmou ter premiado Carson “porque sua obra ousada e inventiva, em diálogo divertido com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
Aos 76 anos, Carson é a terceira canadense a levar o prêmio, vencendo 13 anos após sua conterrânea contista Alice Munro. Antes, Saul Bellow, nascido no Canadá e radicado nos Estados Unidos, ganhou exatamente 50 anos atrás.
A poeta é também a 19ª mulher a ganhar a premiação, realizada desde 1901, seguindo um padrão informal que o prêmio adota desde 2018 intercalando o reconhecimento de homens e mulheres.
E sua escolha reforça a predominância da língua inglesa entre as obras mais reconhecidas pelo prêmio europeu. A última vencedora a trabalhar a poesia em inglês, a americana Louise Glück, ganhou há apenas seis anos. A língua portuguesa só foi premiada uma vez, na figura do português José Saramago em 1998.
O primeiro livro de Carson foi “Eros, o Doce-Amargo”, lançado em 1986 e reeditado em 1998, uma investigação em poesia, teoria e ensaio sobre a natureza do desejo, um tema comum em suas obras. Desde então, lançou mais de 15 livros, como que elaborando um gênero literário muito próprio.
Na tradução, Carson leva ao inglês textos clássicos que banha em anacronismos e coloquialismos: em sua tradução da peça “Antígona” de Sófocles, por exemplo, ela dá a um dos personagens um barco a motor. Assim, a nova Nobel de Literatura embaralha tanto as fronteiras do cânone literário quanto as normas da tradução.
Apesar de sua importância para a literatura mundial, Carson foi trazida pela primeira vez ao Brasil apenas em 2017, quando Vilma Arêas e Fernando Guimarães traduziram “O Método Albertine” para as Edições Jabuticaba.
Depois dali, saíram no país uma série de obras de Carson, por diversas editoras correndo atrás do prejuízo: “Sobre Aquilo em que Eu Mais Penso” e “Autobiografia do Vermelho”, pela Editora 34, “Eros, o Doce-Amargo” e “A Beleza do Marido” pela Bazar do Tempo, e “Falas Curtas” e “Vidro, Ironia e Deus”, publicados pela Relicário.
A Bazar acaba de publicar “Antigonick”, sua versão para a “Antígona” de Sófocles. E a 34 tem planos de lançar, no próximo ano, o livro mais recente da autora, “Wrong Norma”, com tradução de Stephanie Fernandes —uma reunião plural, como de hábito, de textos de prosa poética. A obra foi finalista do National Book Award, nos Estados Unidos, no ano passado.
Entre os outros numerosos tradutores que assumiram a difícil tarefa de trazer a obra de Carson ao português, estão Julia Raiz, Adriana Lisboa, Ismar Tirelli Neto, Laura Erber, Sergio Flaksman, Sofia Nestrovski e Emanuela Siqueira.
A premiação do Nobel de Literatura deste ano é de 12 milhões de coroas suecas, equivalente a quase 6 milhões de reais
