Fed mantém taxas nos EUA e retira previsão de queda de juros na primeira decisão sob comando de Warsh

O Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) manteve a taxa de juros dos Estados Unidos entre 3,5% e 3,75% nesta quarta-feira (17), na primeira reunião presidida por Kevin Warsh, que substituiu Jerome Powell no comando da autarquia em maio.

Apesar da manutenção das taxas, 9 entre os 19 membros do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) agora preveem pelo menos uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa neste ano —destes, 6 esperam ao menos duas elevações. Nenhum deles compartilhava dessa opinião há três meses, quando o BC dos EUA publicou suas últimas projeções.

Outros 9 não projetam nenhuma mudança ou corte, e Warsh se absteve de fazer projeções. Essas previsões estão no chamado “gráfico de pontos” do Fed, que traz as visões individuais dos diretores sobre a trajetória das taxas de juros. Essas projeções foram divulgadas junto com o comunicado da decisão do Fed.

A declaração marca uma virada não apenas na liderança do banco, mas em uma perspectiva de política monetária que desde o outono de 2024 estava orientada para reduzir os custos de empréstimos das taxas elevadas usadas para ajudar a domar a inflação.

No comunicado sobre a decisão, o Fomc voltou a defender que pretende “garantir a estabilidade de preços” e “manter reservas amplas no sistema bancário”. O comitê alertou para o momento de “elevada incerteza” causada “em parte pelo conflito no Oriente Médio”.

O tom do comunicado já mostrou alguns sinais da influência do novo presidente ao retirar qualquer orientação sobre movimentos futuros nas taxas, com um formato revisado que simplesmente declarou a decisão sobre a taxa e teve um texto mais enxuto do que nas reuniões anteriores. Após a reunião, Warsh disse que o comunicado não ofereceu orientação futura porque ela não é “adequada” ao momento econômico atual.

A primeira decisão sob o comando do indicado do presidente Donald Trump contrariou a postura do republicano, que defende a redução drástica dos juros para 1,5% como uma forma de impulsionar a economia do país. A decisão foi unânime e Warsh foi um dos 12 votantes.

Apesar dos pedidos de Trump, os dados recentes indicando forte criação de empregos nos EUA, uma taxa de desemprego relativamente baixa de 4,3% e inflação bem acima da meta de 2% do BC norte-americano levaram o Fed a manter a postura cautelosa das últimas reuniões.

Depois da divulgação da decisão, Trump sinalizou que estava disposto a ser “guiado” por Warsh em relação à política monetária. “Temos um cara muito bom lá agora, então me guio pelo que ele quer fazer”, disse Trump a repórteres em Paris, a caminho de um jantar com Emmanuel Macron.

Questionado sobre o que achava da possibilidade de um aumento de juros ainda este ano, Trump disse: “Pode acontecer. Quer dizer, é difícil de acreditar. Isso simplesmente segura o país. É muito incomum”.

O mercado também se surpreendeu com as novas projeções e com o tom do comunicado, embora já antecipasse a manutenção da taxa e a retirada de um “viés de afrouxamento” em favor de uma linguagem mais neutra no comunicado. No Brasil, o dólar reverteu as perdas e fechou em alta de 0,39%, cotado a R$ 5,109.

A Bolsa brasileira, antes em valorização acentuada, fechou em queda de 0,7%, a 168.453 pontos. O mercado americano também encerrou o dia com reação negativa ao comunicado, com quedas relevantes nos índices Dow Jones (-0,97%), S&P 500 (-1,21%) e Nasdaq (-1,35%).

O dólar subiu globalmente, com o DXY, que compara a moeda ante uma cesta de seis divisas fortes, avançando 1%, chegando ao maior valor desde março e batendo o maior salto em um único dia desde maio de 2025.

Os rendimentos dos títulos do Tesouro de curto prazo dispararam para o maior nível em 14 meses, com investidores aumentando apostas de alta de juros já em outubro diante do tom mais duro de Warsh. O título do Tesouro de dois anos, sensível às expectativas de política monetária, saltou 0,17 ponto percentual para 4,22%, seu maior nível desde fevereiro de 2025.

“Desde a indicação de Warsh, parte do mercado alimentou a expectativa de que sua chegada pudesse acelerar um ciclo de cortes de juros. Mas a realidade é que a política monetária não funciona dessa forma. Primeiro, porque o presidente do Fed não decide sozinho. Segundo, porque independentemente das preferências pessoais de qualquer dirigente, os dados econômicos continuam sendo o principal norteador”, observa Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital.

FIM DAS DIVERGÊNCIAS

A reunião acabou também com a divisão que se notabilizou entre os indicados por Trump e os outros integrantes. Essa foi a primeira decisão unânime do Fomc desde junho de 2025. Depois disso, os diretores aliados ao republicano votaram contra as decisões, na maioria das vezes defendendo um corte maior do que o proposto pela maioria.

A reunião de 28 e 29 de abril, a última sob o comando de Powell, foi a que apresentou a maior divergência, com oito votos favoráveis à manutenção dos juros entre 3,5% e 3,75%. Um dos diretores pediu a redução de 0,25 ponto percentual, e outros três solicitaram alterações em instruções da política monetária. Agora, os diretores indicados por Trump aceitaram a permanência da taxa no patamar atual.

A descrição da economia abordou questões que Warsh tem enfatizado, mencionando que “o crescimento da produtividade e o investimento de capital estão fortes”. Embora reconhecendo que a inflação estava “elevada em relação à meta de 2% do Comitê”, isso foi atribuído em parte a “choques de oferta que impulsionaram aumentos de preços em certos setores, incluindo energia”.

Deixe um comentário