Os Estados Unidos apresentaram no sábado sua primeira proposta formal ao Irã para um possível acordo nuclear, poucas horas depois de inspetores da ONU relatarem um aumento significativo, nos últimos três meses, no estoque de urânio de Teerã, com grau de pureza próximo ao de uma bomba.
O documento foi descrito por autoridades familiarizadas com as negociações diplomáticas como uma série de pontos, mas não como um rascunho completo de um acordo. Ele exige que o Irã interrompa todo o enriquecimento de urânio e propõe a criação de um consórcio regional para a produção de energia nuclear, envolvendo o Irã, a Arábia Saudita, outros países árabes e os Estados Unidos.
A proposta marca a primeira vez, desde o início das negociações em abril, que o principal negociador americano, Steve Witkoff, apresenta uma oferta formal por escrito.
A entrega do documento foi revelada em um tuíte do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, que afirmou que a proposta foi entregue por seu colega de Omã, que está mediando as negociações. Mais tarde, a Casa Branca confirmou a ação.
“O presidente Trump deixou claro que o Irã nunca poderá obter uma bomba nuclear”, disse Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, em um comunicado. “O enviado especial Witkoff apresentou uma proposta detalhada e aceitável ao regime iraniano, e é do interesse deles aceitá-la. Em respeito às negociações em andamento, o governo não comentará os detalhes da proposta à imprensa.”
Muitos especialistas estão céticos quanto ao fato de o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, aprovar um acordo que basicamente fecharia as instalações avançadas de produção nuclear que os iranianos gastaram bilhões para construir — e que têm sido alvo de ações de sabotagem por parte dos EUA e de Israel.
Araghchi disse que o Irã “responderia à proposta dos EUA de acordo com os princípios, interesses nacionais e direitos do povo iraniano”. Nas últimas semanas, as autoridades iranianas rejeitaram publicamente as exigências dos EUA para encerrar todo o enriquecimento nuclear, declarando que jamais abririam mão de seu direito de produzir combustível nuclear de grau civil. Essa capacidade dá ao Irã o status de um estado nuclear limítrofe, ou seja, capaz de construir rapidamente uma arma, se decidir fazê-lo.
A revelação do aumento da produção do Irã de urânio enriquecido a 60%, um pouco abaixo do grau de bomba, ilustrou de forma vívida o esforço iraniano para ganhar vantagem nas negociações. O aumento dá a Teerã a capacidade para produzir combustível suficiente para cerca de 10 armas nucleares, contra cerca de cinco ou seis quando Trump assumiu a presidência em janeiro.
Dois relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica, obtidos pelo The New York Times, retratam um regime iraniano decidido a acelerar sua produção, presumivelmente para ter mais força nas negociações com Witkoff, que é o enviado do governo para o Oriente Médio.
Oriente Médio
O diretor geral da I.A.E.A. (International Atomic Energy Agency), Rafael M. Grossi, disse que o relatório sobre o aumento da produção do Irã indicava que “precisamos chegar a uma resolução diplomática, sob um sistema de inspeção muito robusto da I.A.E.A.”. Nos últimos anos, o Irã desativou muitas das câmeras e sensores da agência em locais importantes, mas permitiu que os inspetores entrassem no país e medissem seus estoques crescentes de urânio enriquecido.
No relatório trimestral sobre a produção e os estoques nucleares do Irã, Grossi escreveu que “o aumento significativo na produção e acúmulo de urânio altamente enriquecido pelo Irã, o único Estado não detentor de armas nucleares a produzir tal material, é motivo de grande preocupação”.
Esse relatório concluiu que o estoque do Irã de urânio enriquecido com 60% de pureza – próximo aos 90% necessários para produzir armas – estava agora em torno de 900 libras, acima das 605 libras em fevereiro. Embora o Irã pudesse aumentar rapidamente esse combustível para o nível de bomba, levaria meses, talvez até um ano, para produzir uma arma viável. Autoridades de inteligência dos EUA concluíram, no início deste ano, que uma equipe secreta de cientistas iranianos estava trabalhando em uma abordagem mais rápida e mais rudimentar para construir armas, se necessário.
O aumento da produção iraniana ocorre em um momento em que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem pressionado Trump a se juntar a Israel em um ataque militar às instalações nucleares iranianas. Netanyahu argumenta que as principais instalações de produção de combustível do Irã, nas cidades de Natanz e Fordow, estão mais vulneráveis do que nunca nos últimos anos, depois que as forças israelenses atacaram as defesas aéreas iranianas em outubro passado. O The Times informou em abril que Israel havia planejado atacar as instalações nucleares iranianas já em maio, mas foi dissuadido por Trump.
Trump confirmou essa informação no início desta semana, dizendo que havia dito a Israel que seria “inapropriado” bombardear as instalações quando ele achava que estava perto de um acordo. Ele também defendeu que qualquer acordo diplomático alcançado por Witkoff permitiria aos EUA desmantelar as instalações de produção nuclear do Irã — algo que os iranianos já disse que jamais aceitaria.
“Quero um acordo muito forte, no qual possamos entrar com inspetores, pegar o que quisermos, explodir o que quisermos, mas sem ninguém morrer”, disse Trump a repórteres. “Podemos explodir um laboratório, mas não haverá ninguém no laboratório.”
Quando os dois relatórios da I.A.E.A. começaram a circular na manhã de sábado, Netanyahu emitiu uma declaração dizendo que eles apresentavam um quadro “grave” e que as nações do mundo todo deveriam “agir agora para deter o Irã”. Mas ele não fez ameaças militares. Israel não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e acredita-se que possua seu próprio arsenal nuclear, com cerca de 100 armas.
O segundo relatório emitido pela agência descreveu um esforço contínuo do Irã para impedir o acesso dos inspetores da agência, que há mais de nove anos buscam acesso a locais militares onde a agência acredita que o país realizou experimentos nucleares há mais de duas décadas.
Especialistas suspeitam que esses experimentos faziam parte de um programa secreto, no início dos anos 2000, para desenvolver uma arma nuclear. A inteligência dos EUA concluiu, durante o governo Bush, que o programa foi suspenso em 2003. Israel afirma que os elementos do programa continuaram, conduzidos pelo principal cientista nuclear do Irã, Mohsen Fakhrizadeh. Israel assassinou Fakhrizadeh enquanto ele dirigia para sua casa de fim de semana no final de 2020, em um ataque robótico assistido por inteligência artificial.
O Irã nega categoricamente que esses locais tenham feito parte de um programa nuclear e declarou no sábado que o relatório inclui “alegações infundadas que não podem ser comprovadas”.
O relatório descreve, em uma linguagem técnica, como autoridades iranianas forneceram relatórios de inteligência e notícias que, segundo elas, provam que material nuclear foi plantado nos locais. Os inspetores rejeitaram a explicação, citando uma “falta de respostas tecnicamente confiáveis”.
Não está claro se Witkoff insistirá, como parte de um possível acordo final, que o Irã admita atividades passadas.
Chanceler iraniano destaca cooperação do país
Após relatório da ONU mostrar que o Irã está aumentando ainda mais seu estoque de urânio enriquecido, o ministro das Relações Exteriores do Irã conversou por telefone com o diretor da agência de vigilância nuclear da ONU.
Em mensagem no Telegram, Abbas Araghchi disse ter ressaltado a “cooperação contínua” do Irã durante sua conversa com Rafael Mariano Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, com sede em Viena. A agência não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre a ligação.
Araghchi enfatizou para Grossi que todas as atividades nucleares do Irã estão dentro da estrutura dos acordos e estão sendo monitoradas pela agência. Araghchi também pediu a Grossi que garantisse “que certas partes não explorem a agência para agendas políticas contra o povo iraniano”. Países europeus podem adotar medidas adicionais contra o Irã com base no relatório abrangente, o que pode levar a uma escalada nas tensões entre Teerã e o Ocidente. / Com NYT e AP
