Os Estados Unidos encerrarão gradualmente os programas de assistência de segurança para exércitos de países da Europa na fronteira com a Rússia, pressionando o continente a arcar com uma fatia maior de sua própria defesa.
Segundo fontes a par do assunto, autoridades do Pentágono informaram na semana passada diplomatas europeus que os EUA não financiarão mais programas de treinamento e fornecimento de equipamentos a militares de países do leste europeu que estariam na linha de frente de um eventual conflito com a Rússia.
Os gastos com o programa do Pentágono precisam de aprovação do Congresso americano, mas o governo Trump não solicitou novos recursos. Os que já foram aprovados estarão disponíveis até setembro de 2026.
Um funcionário da Casa Branca disse que a medida se alinha aos esforços do presidente Donald Trump para “reavaliar e realinhar” a ajuda externa e corresponde a uma ordem executiva emitida por ele em seu primeiro dia no cargo.
“Essa ação foi coordenada com os países europeus, em linha com a ordem executiva e a ênfase de longa dada do presidente em garantir que a Europa assuma mais responsabilidade por sua própria defesa”, disse o funcionário.
Sob pressão de Trump, os aliados dos EUA na Otan concordaram em junho em aumentar seus gastos com defesa para 5% do PIB.
A redução gradual do financiamento afetará um programa com orçamento global de mais de US$ 1 bilhão, segundo estimativas de assessores do Senado, o que poderá cortar dezenas de milhões de dólares dos EUA para os países na fronteira com a Rússia. O Pentágono não informou aos parlamentares o valor exato que será suspenso.
Entre 2018 e 2022, foram alocados US$ 1,6 bilhão para a Europa, cerca de 29% dos gastos globais do programa, segundo o Escritório de Responsabilidade Governamental dos EUA. Entre os principais beneficiários desses recursos estão a Letônia, a Estônia e a Lituânia.
Autoridades de dezenas de embaixadas europeias em Washington, inclusive de países que não recebem a ajuda, participaram da reunião em que autoridades do Pentágono anunciaram os cortes.
A medida parece ter como objetivo encorajar os países europeus mais ricos a pagar mais pela assistência de segurança dos EUA na linha de frente, segundo disse uma autoridade europeia.
Os governos europeus ficaram surpresos com o comunicado e estão tentando obter mais detalhes de Washington, segundo disseram dois diplomatas a par das discussões.
Autoridades europeias também estão tentando entender se o financiamento interno conseguirá preencher a lacuna, ou se os cortes terão um impacto sobre elementos críticos da segurança região.
“Se os cortes forem brutais, então haverá grandes implicações”, disse um dos diplomatas, acrescentando que a Otan definitivamente seria afetada, já que parte do financiamento passava pela aliança. “Isso está causando muita incerteza”, disse o segundo diplomata, comparando a medida a uma decisão anterior de Trump de reduzir drasticamente a ajuda internacional dos EUA.
A senadora Jeanne Shaheen, principal democrata da comissão de Relações Exteriores do Senado, descreveu os cortes como uma “medida equivocada que envia exatamente o sinal errado enquanto tentamos forçar Putin a sentar à mesa de negociações e impedir a agressão russa”.
O programa separado de Financiamento Militar Estrangeiro dos EUA, que fornece recursos para que países comprem equipamentos de grande porte como caças, navios e tanques, não será afetado pela decisão mais recente, segundo uma fonte a par do assunto.
Os cortes ocorrem no momento em que o chefe de política do Pentágono, Elbridge Colby, busca redirecionar recursos de defesa dos EUA para o Indo-Pacífico, com o objetivo de reforçar a dissuasão e reduzir o risco de um conflito com a China por causa de Taiwan.
Mais cedo este ano, Washington interrompeu abruptamente o envio de munições e armas de alto valor destinadas à Ucrânia, depois que Colby iniciou uma revisão que levantou preocupações sobre os próprios estoques dos EUA. Posteriormente, Trump ordenou a retomada das entregas.
O futuro da Iniciativa de Segurança do Báltico, um programa separado criado em 2020 para reforçar as forças armadas da Estônia, Letônia e Lituânia, também está ameaçado. No ano passado, o Congresso aprovou US$ 288 milhões para apoiar a iniciativa.
A Casa Branca não solicitou novos recursos para o programa no orçamento do próximo ano. Uma fonte a par do assunto disse que o programa está sendo reavaliado pelo governo.
A perda de ajuda de segurança dos EUA seria “muito difícil” para os países bálticos, segundo o almirante reformado Mark Montgomery, pesquisador sênior da Foundation for the Defense of Democracies, um centro de estudos. “A ideia aqui é torná-los capazes de se defender.”
Os três países fazem fronteira terrestre com a Rússia, e a região já foi alvo de ataques atribuídos a Moscou, incluindo contra infraestrutura crítica no Mar Báltico, além de ataques cibernéticos e sabotagens
