A relativa calmaria nos mercados globais favoreceu ontem a estreia tranquila do novo regime de banda cambial na Argentina com a desvalorização do peso ficando dentro do esperado pelo governo e analistas. Mas as incertezas persistem em relação à sustentabilidade do fim dos controles cambiais no médio e longo prazos.
O dólar fechou com uma alta de 11,32% frente ao peso no câmbio oficial, a 1.233 pesos por dólar — depois de ter começado a jornada com uma alta de 13,9%. A cotação no mercado de dólar paralelo, que o governo quer ver extinto, fechou em baixa de 6,55% em relação à sexta-feira. A diferença entre uma cotação e outra (spread) se reduziu para 7,3%.
O presidente argentino Javier Milei recebeu ontem a visita do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, levou o apoio da Casa Branca ao acordo firmado com o FMI e um aceno de acordo comercial entre os dois países.
“Sob a liderança do presidente Milei, a Argentina e os EUA compartilham valores semelhantes. É por isso que fiquei entusiasmado com esta viagem, para iniciar as primeiras discussões formais sobre comércio recíproco entre nossos dois países”, disse Bessent. “O programa do Fundo Monetário Internacional proporcionará alívio financeiro à Argentina em meio ao ajuste; facilitará a liberalização da taxa de câmbio e, ao mesmo tempo, protegerá a estabilidade do mercado”, disse ele, projetando um “aumento maciço no investimento estrangeiro direto”.
Pelo acordo com o FMI, a Argentina receberá um crédito de US$ 20bilhões — com o primeiro desembolso, de US$ 12 bilhões, sendo depositado hoje — a ser pago nos próximos dez anos e com uma carência de quatro anos e meio. A flexibilização do câmbio era uma exigência do fundo para o pacto e o governo estabeleceu a política de banda, pela qual a cotação oficial vai variar entre 1.000 e 1.400 pesos por dólar, corrigidos a 1% ao mês. A medida, na prática acaba com as restrições cambiais (“cepo”).
Para assegurar a capacidade da Argentina de defender seu novo regime cambial, o ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou na sexta- feira que o Banco Central argentino disporá ao longo deste ano de cerca de US$ 50 bilhões — incluindo, além dos crédito do FMI e o saldo remanescente das reservas internacionais, um pacote de US$ 12 bilhões do Banco Mundial a partir de maio e outro de US$ 10 bilhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Com o mercado esperando uma alta do dólar de até 25%, o aumento de apenas 11,32%, acabou sendo interpretada como um sinal muito positivo pelo governo. Mas as dúvidas ainda se mantêm, sobretudo em relação à inflação nos próximos meses. As ações das empresas argentinas no exterior subirame o risco-país caiu.
“A primeira reação do mercado parece estar em linha com as expectativas do governo, basicamente porque o mercado já havia antecipado o acordo com o FMI, mas no caso da economia real, os preços foram ajustados no fim de semana tomando como referência o maior valor da banda cambial proposta pelo governo, de 1.400 pesos por dólar”, disse o analista da EPyCA Consultores, Dante Moreno. “As tabelas de preços que os fornecedores enviaram às empresas neste fim de semana mostraram aumentos entre 20% e 30%”, afirmou.
“Durante as primeiras semanas, o comportamento dos exportadores, que trazem dólares para o país, terá de ser monitorado. Se a taxa de câmbio cair, é bem possível que eles não liquidem seus dólares, esperando um aumento”, disse Moreno. “Os importadores, por outro lado, demandarão o máximo que puderem porque também possivelmente especulam que o dólar não ficará perto da zona inferior da banda cambial mínima, de 1.000 pesos por dólar, por muito tempo”, afirmou.
Ontem, Milei fez pressão para que os agricultores liquidem seus créditos de exportação agora. Os agricultores estão começando acolher sua safra de soja, que vale bilhões de dólares em receitas de exportação e que Milei precisa desesperadamente no banco central. Mas, até agora, eles têm negociado a passos lentos, na expectativa de uma cotação mais alta do dólar.
Para Kevin Sijniensky, analista chefe da consultoria Econviews, o mercado recebeu bem as medidas de Milei. “Acreditamos que há boas chances de que esta fase do programa seja exitosa. E que em médio prazo seja um prgrama sustentável porque o governo já tinha feito avanços significativos na consolidação fiscal e em algumas coisas de reformas estruturais”, disse.
“A parte mais frágil do programa de Milei está na capacidade de acumulação de reservas para viabilizar o plano. Mas com o respaldo do FMI e organismos multilaterais é viável pensar que ele possa se sair bem neste ponto”, afirmou.
“Por outro lado, um cenário ruim seria que a inflação suba mais do que esperado, causando o esfriamento da atividade econômica. E o governo neste caso tenha um mau resultado nas eleições de outubro. Isso seria um desastre que comprometeria o programa”, disse Sijniensky.
