Os 11 países-membros do Brics, entre eles China, Rússia, Irã, Brasil e Índia, pediram calma no Oriente Médio em uma declaração conjunta divulgada neste sábado, no primeiro dia da cúpula do bloco de potências emergentes em Nova Délhi. Ao abrir a reunião, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, anfitrião do evento, afirmou que o grupo havia atingido a maturidade e que era hora de traduzir sua unidade e consenso em resultados concretos no cenário global.
“Expressamos nossa profunda preocupação com a escalada contínua das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e (…) pedimos a máxima prudência, além de evitar ações que possam agravar ainda mais a situação”, afirma o comunicado.
Às margens do encontro, o presidente do Irã, Masud Pezeshkian, afirmou que a região “não precisa de um policial”, em referência aos Estados Unidos, país que entrou em guerra com Teerã no último dia de fevereiro. Em retaliação, a República Islâmica bloqueou o Estreito de Ormuz, por onde, em tempos de paz, transitava cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo. O controle da via tornou-se, desde então, um dos principais pontos de atrito do conflito.
— Não precisamos de um policial na região. A integridade territorial e a segurança regional só poderão ser garantidas por seus principais atores e pelos países que a integram — disse Pezeshkian, durante encontro com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Apesar de todas as injustiças sofridas por nosso povo, não desejamos a guerra nem seu prolongamento. A paz continua sendo nossa prioridade.
Os líderes também expressaram preocupação com os “ataques deliberados” à infraestrutura civil e às instalações nucleares pacíficas sob as salvaguardas da agência de energia atômica da ONU, afirmando que a segurança nuclear deve ser protegida durante conflitos armados. A declaração foi vista como uma crítica indireta aos ataques dos EUA e de Israel contra instalações nucleares iranianas durante a guerra.
Na cúpula, o presidente da China, Xi Jinping, disse que a guerra no Oriente Médio não atende aos “interesses comuns” da comunidade internacional.
— À medida que a situação no Oriente Médio e no Golfo continua evoluindo, a guerra ali causou graves perdas aos povos da região.
A presença do líder chinês é um dos destaques desta cúpula. Ele desembarcou na capital indiana neste sábado pela primeira vez desde 2019. A visita tem valor simbólico diante do histórico recente entre os dois países. Em 2020, soldados chineses e indianos se enfrentaram na disputada fronteira do Himalaia, em um confronto que deixou dezenas de mortos. Desde então, Pequim e Nova Délhi buscam reconstruir gradualmente o diálogo bilateral, embora o impasse territorial permança sem solução.
Os membros também criticaram as sanções unilaterais não autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Eles não mencionaram nenhum país especificamente, mas a Rússia, um dos membros fundadores do Brics, enfrenta sanções ocidentais após a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. “Apelamos à eliminação dessas medidas ilegais, que minam o direito internacional e os princípios e objetivos da Carta da ONU”, diz a declaração conjunta.
Além de Modi, Xi e Pezeshkian, participam da cúpula o presidente russo, Vladimir Putin, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, entre outros líderes do bloco. A China e a Rússia veem o Brics como uma forma de reduzir a dominância ocidental, particularmente a dos EUA, ao mesmo tempo que fortalecem a cooperação entre as economias emergentes e em desenvolvimento.
Putin, segundo a agência de notícias estatal russa Interfax, defendeu a expansão do Conselho de Segurança da ONU para dar maior representação à Ásia, África e América Latina, afirmando que isso melhoraria a eficácia do órgão. Em seu discurso, o russo afirmou que a transição para um mundo multipolar enfrenta resistência de países “acostumados a pensar em termos coloniais”, acusando-os de usar tarifas, sanções e “força bruta” para conter a ascensão de concorrentes.
Guerras desafiam a unidade do bloco
O Brics foi fundado em 2006 por Brasil, Rússia, Índia e China, com a África do Sul aderindo em 2010. Desde então, expandiu-se para 11 membros, representando cerca de metade da população mundial e uma parcela significativa da produção econômica global. O grupo tem defendido cada vez mais uma maior representação dos países em desenvolvimento nas instituições globais.
Nova Délhi, que mantém fortes laços com os EUA, Rússia, Israel, Irã e os Estados árabes do Golfo, está envolvida em um delicado jogo de equilíbrio diplomático, com Modi pressionando o bloco a impulsionar a cooperação comercial, reduzir barreiras e expandir as oportunidades de negócios.
— Ao mesmo tempo que fortalecemos o Brics, também devemos determinar a direção da reforma global — disse Modi antes da cúpula. — Hoje, o Sul Global está na linha de frente quando se trata de crises, mas na retaguarda quando se trata de tomada de decisões. Temos que transformar essa pirâmide e esse privilégio em uma plataforma de parceria, onde cada país tenha voz.
Ouvidos pela agência Reuters, especialistas afirmaram que a cúpula, que busca superar as divisões entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos sobre o conflito no Golfo, tem como desafio encontrar uma linguagem sobre a crise no Oriente Médio que seja aceitável tanto para Abu Dhabi quanto para Teerã.
Para eles, essa declaração conjunta provavelmente não vai influenciar o atual cenário geopolítico, mas demonstra a unidade de um grupo de nações emergentes contra políticas economicamente debilitantes, como as sanções ocidentais. Em maio, por exemplo, os membros do Brics não conseguiram emitir uma declaração conjunta.
