A indústria da difamação

(The New York Times) Eu queria difamar alguém. Meu colega Kashmir Hill e eu estávamos tentando descobrir quem é o responsável pelo crescente – e lucrativo – ecossistema de sites cujo objetivo principal é destruir reputações.

Então, escrevi um post maldoso sobre mim.

Em seguida, observamos como uma constelação de sites republicaram meu texto. Para remover a difamação, muitas pessoas contratam uma empresa de “gerenciamento de reputação”. No meu caso, isso custaria cerca de US$ 20 mil.

Em pouco tempo, descobrimos um segredo escondido atrás de uma cortina de fumaça de empresas e identidades falsas. As pessoas que promovem a difamação e os autoproclamados “heróis” que ajudam a eliminá-la são geralmente a mesma pessoa.

A mácula

À primeira vista, os sites parecem amadores. Eles têm nomes como BadGirlReports.date (garotamáinforma.encontro), BustedCheaters.com (trapaceirospegos.com) e WorstHomeWrecker.com (piordestruidordelares.com). As fotos estão mal cortadas. Gramática e ortografia, melhor nem comentar. Eles são desleixados e têm blocos gigantes de texto, como se fossem feitos para serem lidos por máquinas, não humanos.

Mas não subestime o poder deles. Quando alguém o ataca nesses chamados gripes sites (sites ofensivos), os resultados podem ser devastadores. No início deste ano, fizemos uma reportagem a respeito de uma mulher em Toronto que corrompeu a reputação de dezenas de seus supostos inimigos postando mentiras em relação a eles.

Para avaliar o impacto da difamação, escrevemos um programa de software para baixar cada postagem de uma dúzia dos sites de reclamação mais ativos: mais de 150 mil postagens sobre cerca de 47 mil pessoas. Em seguida, configuramos um rastreador da web que pesquisou no Google e no Bing a respeito de milhares de pessoas que foram atacadas.

Para cerca de um terço delas, as postagens maldosas apareceram nas primeiras páginas de seus resultados. Para mais da metade, os sites ofensivos apareceram no topo de seus resultados de imagem.

Às vezes, os mecanismos de pesquisa vão além da simples lista de links; eles exibem o que consideram as frases mais relevantes em relação ao tema da sua busca.

Uma mulher em Ohio foi alvo de tantas postagens negativas que o Bing declarou em negrito, no topo de seus resultados de pesquisa, que ela “é uma mentirosa e trapaceira” – do mesmo jeito que ele afirma que Barack Obama foi o 44º presidente dos Estados Unidos. Para cerca de 500 das 6 mil pessoas que pesquisamos, o Google sugeriu adicionar a palavra “trapaceiro” no campo de busca junto a seus nomes.

As alegações não verificadas estão em sites desconhecidos e de aparência ridícula, mas os mecanismos de pesquisa dão a eles um verniz de credibilidade. Postagens do Cheaterboard.com (paineldetrapaceiro.com) aparecem nos resultados do Google ao lado de páginas do Facebook e perfis do LinkedIn – ou, no meu caso, artigos do The New York Times.

Isso já seria ruim o suficiente para pessoas cujas reputações foram destruídas. Mas o problema é ainda pior porque é muito difícil de se consertar. E isso se deve, em grande parte, à relação secreta e simbiótica entre aqueles que promovem a difamação e aqueles que são pagos para eliminá-la.

A disseminação

As postagens que criei apresentavam uma selfie estranha e me descreviam como um “fracassado que fará qualquer coisa para chamar atenção”. Postamos uma versão do mesmo insulto em cinco sites ofensivos. Cada selfie incluía uma marca d’água única que nos permitia rastreá-la caso aparecesse em algum lugar novo. Para uma imagem postada no Cheaterboard.com, por exemplo, ocultamos o nome do domínio e a data no código do arquivo.

As postagens se espalharam rapidamente. Em duas horas, a do Cheaterboard apareceu no FoulSpeakers.com (oradoresasquerosos.com). Em um mês, os cinco posts originais geraram 21 cópias em 15 sites.

Qual era o objetivo de copiar as postagens? Uma grande pista foram os anúncios que apareceram ao lado delas, oferecendo ajuda na remoção de conteúdo que manchasse a reputação de alguém.

Entramos em contato com todos os sites que copiaram as postagens originais. Apenas dois responderam, e apenas uma pessoa aceitou ser entrevistada: Cyrus Sullivan, que comanda o FoulSpeakers.com.

Sullivan, 37 anos, de Portland, Oregon, está no negócio de sites de reclamações desde 2008, quando lançou o STDCarriers.com (portadoresdeist.com). O site foi inspirado em sua própria experiência. Em seu último ano na Universidade de Oregon, disse, ele fez sexo com uma mulher que, mais trade, disse-lhe que tinha herpes.

“Achei que deveria existir uma maneira de alertar as pessoas a respeito de algo assim”, disse Sullivan. O STDCarriers.com permitiu que as pessoas postassem anonimamente informações não verificadas a respeito de pessoas que, segundo elas, tinham infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Sullivan disse que não ganhou muito dinheiro até 2012, quando o STDCarriers.com atraiu a atenção da imprensa americana. Anderson Cooper tinha um talk show diurno na época, e ele criticou Sullivan e outros que comandavam sites ofensivos em um dos blocos do programa. O tráfego da web para o site de Sullivan disparou e as postagens logo se multiplicaram no site.

Depois de algumas passagens na prisão – entre outras coisas, ele foi condenado por enviar ameaças de morte a uma mulher e por jogar Doritos sabor picante na cara de policiais, “usando a poeira picante como arma, como spray de pimenta”, de acordo com uma ação judicial – ele lançou o FoulSpeakers.com em 2018. O site se autodenominava “um mecanismo de busca de linguagem grosseira e arquivo da web” que capturava coisas horríveis escritas sobre pessoas em outros sites, como minha postagem no Cheaterboard.com.

Sullivan nos disse que copiar conteúdo era uma ótima maneira de atrair pessoas para seus sites. (Ele disse que não se sentia mal por espalhar acusações não verificadas. “Ensine as crianças a não falarem com estranhos, depois ensine-as a não acreditar no que leem na internet”, disse ele.)

Mas também havia um incentivo financeiro. Sullivan havia iniciado um serviço de gerenciamento de reputação para ajudar as pessoas a remover “informações indesejáveis” em relação a elas dos resultados de seus mecanismos de pesquisa. O “pacote ouro” custava US$ 699,99. Para esses clientes, Sullivan alterava o código do computador por trás das postagens ofensivas, instruindo os mecanismos de pesquisa a ignorá-las.

A arrombadora de cofres

Algumas empresas de gerenciamento de reputação usam táticas contraditórias para conseguir que os posts sejam retirados do ar. Mas contatos mais amigáveis costumam ser mais comuns.

Por exemplo, anúncios do site 247Removal.com aparecem em uma dezena de sites ofensivos conhecidos e foram mostrados ao lado de algumas das postagens sobre mim. A proprietária do 247Removal.com  é Heidi Glosser, 38 anos. Ela disse que não sabia como seus anúncios foram parar nesses sites.

Heidi cobra US$ 750 ou mais por remoção de postagem, o que chega a milhares de dólares para a maioria de seus clientes. Para que as postagens sejam removidas, ela costuma pagar uma “taxa administrativa” ao webmaster do site ofensivo. Perguntamos a ela se isso era extorsão. “Não posso dar uma resposta sincera”, afirmou.

Na primeira página dos resultados de pesquisa do Google a respeito de Heidi, há um link para uma decisão judicial relacionada à condenação dela em 2003 por roubo e arrombamento de cofres. “Isso não tem relação comigo”, disse ela. Heidi nos encorajou a checar os antecedentes dela, o que confirmou seu envolvimento.

Ela disse que decidiu tentar ajudar as pessoas a melhorar sua reputação on-line em 2018, depois de assistir a um documentário de 11 minutos sobre revenge porn (pornografia de vingança). O filme tinha como foco Scott Breitenstein, um ex-encanador que comandava sites que hospedavam fotos de pessoas nuas postadas sem o consentimento delas.

Os sites controlados por Breitenstein também eram locais para alegações não verificadas a respeito de trapaceiros, golpistas, predadores, caloteiros e clientes de prostitutas. Depois que o documentário foi lançado, Breitenstein disse aos parceiros de negócios que havia vendido os sites dele. Ele não respondeu às solicitações de entrevista.

Heidi disse que seu objetivo era ajudar as vítimas de Breitenstein e de outras pessoas como ele.

Uma inesperada marca registrada

Percebemos que o mesmo anúncio continuava aparecendo nas postagens que se proliferaram e diziam que eu era um fracassado. Era um anúncio de texto simples para algo chamado RepZe.com: “Remova conteúdo de sites charlatões”.

A maioria dos anúncios que aparecem na lateral das páginas são programáticos. Isso significa que eles são disponibilizados por uma rede de anúncios sem envolvimento com as pessoas que administram um site, e eles mudam toda vez que você visita um site. Esse não era o caso aqui. Os anúncios do RepZe eram acessórios permanentes, escritos no código dos sites.

Quando Kashmir ligou para o RepZe, uma mulher que se identificou como Sofia se recusou a responder às perguntas e disse para enviar um e-mail para a empresa. Ninguém respondeu os e-mails.

Quando entrei em contato com o RepZe por meio de um formulário em seu site para perguntar sobre a remoção de uma das postagens em relação a mim, Sofia me ligou. Ela disse que por US$ 1.500 a postagem seria removida em 24 horas. A remoção viria com uma “garantia vitalícia”, disse ela.

Ela me incentivou a agir rapidamente. “Não quero assustar você, mas essas postagens podem se espalhar”, alertou.

Nessa altura, percebemos que, quando alguém pagava a uma empresa como a RepZe para remover uma postagem, a RepZe pagava o site de reclamação para excluí-la. Mas nossa conclusão acabou se mostrando, na melhor das hipóteses, incompleta.

Rastreamos clientes reais do RepZe. Todos contaram a mesma história. Eles haviam contratado a empresa para remover postagens negativas em relação a eles, o que ela fez rapidamente.  Mas, então, a RepZe ameaçaria que, sem o pagamento rápido dos milhares de dólares que os clientes concordaram em pagar, as postagens reapareceriam e se multiplicariam.

“O conteúdo será recuperado”, escreveu um representante da RepZe em uma mensagem de texto para um cliente, que postou capturas de tela da troca de mensagens no Facebook. “Estamos tentando ajudar. Você está tentando nos irritar.”

Então, meses depois, as postagens reapareceriam.

Um cliente insatisfeito criou o RepZeFraud.com sob o pseudônimo de Greg Saint. Ele disse que pagou US$ 4 mil à RepZe, em 2019, para remover duas postagens negativas. Meses depois, afirmou, cópias das postagens começaram a reaparecer on-line e ele suspeitou que a RepZe fosse a responsável. Ele criou o RepZeFraud.com para expor a pessoa que ele acreditava estar realmente por trás do serviço: um desenvolvedor de sites de 28 anos na Índia, Vikram Parmar.

Uma pista nos metadados

Tínhamos ouvido o nome de Parmar pela primeira vez meses antes, de um desenvolvedor de software da Califórnia, Aaron Greenspan. Greenspan administra o PlainSite.org (sitesincero.org), que publica documentos judiciais e, portanto, torna os registros criminais das pessoas mais fáceis de se encontrar. Ele disse que uma dessas pessoas, um assassino condenado, tinha tentado destruir na internet a reputação dele e de sua família.

Greenspan poderia ter pago para remover os posts, mas não gostou da ideia de “pagamento de resgate”. Em vez disso, ele começou a desmascarar quem estava por trás dos sites e das empresas de gerenciamento de reputação. A ideia era boa, mas sua execução era mais difícil do que o imaginado.

“Você não sabe onde fica, quem comanda ou quem hospeda o site”, disse ele. “É assim que eles escapam de qualquer responsabilidade.”

Os sites usam o que são conhecidos como servidores proxy de privacidade para ocultar quem os comanda e onde estão hospedados. Greenspan vasculhou pistas digitais e rastreou ações judiciais envolvendo os sites – que ele começou a catalogar no PlainSite – para mapear a indústria. Ele concluiu que muitos sites pareciam pertencer a um pequeno grupo de pessoas. Cada vez que ele entrava em contato com uma delas, essa pessoa mencionava outras pessoas e dizia que elas eram os verdadeiros vilões.

Greenspan entrou em contato com a RepZe, que tinha anúncios ao lado de muitas das postagens que o atacavam. Ele fingiu ser um cliente interessado.  A RepZe deu a ele um orçamento de US$ 14.800 para remover 17 postagens. A empresa enviou um contrato. Greenspan olhou os metadados do documento e encontrou “Vikram Parmar” listado como autor.

Greenspan enviou uma mensagem para Parmar pelo Skype em setembro de 2019. Eles começaram a conversar. (Greenspan nos mostrou capturas de tela das conversas.) Ele exigiu que Parmar deletasse postagens sobre ele de graça. Parmar removeu uma, no DirtyScam.com, e a conversa tornou-se mais amigável.

Parmar queixou-se da ganância dos donos de outros sites de reclamações com Greenspan. Um deles era um cara de Ohio chamado Scott Breitenstein, que, segundo Parmar, era dono de centenas de sites que roubavam conteúdo original de sites “legítimos”.

Parmar disse a Greenspan que ele tinha que pagar a Breitenstein para que os posts copiados fossem retirados do ar. Ele disse que Breitenstein o instruiu a enviar cheques a outra pessoa. Seu nome era Heidi Glosser.

Fim do meu experimento

Três meses depois do início de meu experimento, meus resultados de pesquisa estavam sofrendo as consequências. O Bing prestativamente recomendava adicionar “fracassado” a uma pesquisa por “Aaron Krolik”. Quando você pesquisava meu nome no Google, o Cheaters.news estava no topo dos resultados de imagem.

Não tenho como deletar as postagens que escrevi; os sites de difamação não permitem isso. Com base nas estimativas fornecidas pelos serviços de remoção de posts, custaria cerca de US$ 20 mil para remover as postagens – e mesmo assim, outras talvez surgissem no lugar delas.

Mas existe outra maneira de diminuir o impacto das postagens. Em certas circunstâncias, o Google remove conteúdo prejudicial dos resultados de pesquisa dos indivíduos, incluindo links para “sites com práticas de remoção abusivas”. Se um site cobra para remover postagens, você pode pedir ao Google para não listá-lo.

O Google não anunciava essa política amplamente, e poucas vítimas de difamações na internet parecem saber que ela é uma opção. Isso ocorre em parte porque, quando você procura maneiras de limpar seus resultados de pesquisa, a solução do Google fica escondida entre anúncios de serviços de gerenciamento de reputação como o RepZe.

Acabei encontrando o formulário do Google em algum momento. Enviei uma reclamação para ter uma URL removida. “Seu e-mail foi enviado para nossa equipe”, o Google me disse.

Três dias depois, recebi um e-mail do Google dizendo que a URL seria removida dos resultados de pesquisa sobre mim. Mais tarde, naquele dia, ela havia desaparecido. Enviei os outros 25 links. Eles também foram removidos, mas as imagens de sites ofensivos continuavam reaparecendo em meus resultados de pesquisa.

Outras pessoas que usaram o formulário do Google relataram experiências semelhantes: geralmente funciona, mas é menos eficaz para imagens. E se você tiver um agressor que não para de escrever posts a respeito de você, a ferramenta é quase inútil. A difamação permanece.

Parmar, alguém que se autodenomina especialista em como influenciar os resultados de pesquisa, recentemente tomou medidas para aprimorar sua própria reputação. Na época em que começamos a tentar entrar em contato com ele, começaram a surgir artigos na internet cheios de elogios sobre ele.

Um deles falava a respeito de sua “história da pobreza para a riqueza”. Outro, no Freelancer.com, dizia que seu negócio de marketing na web gerava uma receita de US$ 2 milhões por ano. Parmar era citado como tendo dito que comprou carros para ele e sua família.

“Vivo sob minhas próprias regras”, ele dizia.

(Aaron Krolik e Kashmir Hill / The New York Times)

https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,internet-difamacao,70003728678

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