Vacina e apoio fiscal criam mundo a duas velocidades

As novas previsões para a economia mundial do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que os países avançados vão se recuperar em um ritmo mais acelerado da crise causada pela covid-19 do que os emergentes, evitando assim danos de longo prazo às suas economias graças à maior capacidade de ampliar os gastos públicos. A desigualdade na vacinação contra a doença é outro fator a ampliar a diferença entre países ricos e pobres. 

A reação rápida dos países, que injetaram US$ 16 trilhões na forma de apoio fiscal desde o ano passado, impediu que a crise tivesse um desfecho muito pior do que se esperava inicialmente, afirmou ontem a economista-chefe do FMI, Gita Gopinath. 

No entanto, as diferenças na capacidade de adotar medidas para responder a crise terão influência direta sobre a recuperação. A distribuição desigual das vacinas ainda deve agravar a situação, promovendo uma recuperação com duas velocidades distintas – mais rápida entre os ricos e mais devagar entre emergentes e pobres. 

“Verifica-se uma perigosa divergência na recuperação entre e dentro dos países: o desempenho tem sido pior onde a distribuição de vacinas é mais lenta, a margem para aplicação de políticas é mais reduzida e a economia é mais dependente do turismo”, disse Gopinath. 

Praticamente todos os países tiveram suas previsões de crescimento melhoradas no mais recente “Panorama Econômico Mundial” do FMI, divulgado ontem. O destaque foi para a alta de 1,3 ponto percentual na previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA para 6,4% neste ano. 

Essa melhora na perspectiva para os EUA é atribuída em grande parte ao pacote de US$ 1,9 trilhão aprovado pelo Congresso em março, que elevou a resposta fiscal americana à pandemia para US$ 5 trilhões. Além disso, os EUA aceleraram a vacinação contra a covid, com o ritmo subindo de 1 milhão de doses por dia em janeiro para mais de 3 milhões recentemente. 

As novas previsões do FMI ainda não levam em conta a proposta de US$ 2,25 trilhões em gastos em infraestrutura anunciado por Biden na semana passada. Ainda assim, Gopinath disse que os EUA serão “a única grande economia a registrar em 2021 um crescimento do PIB superior às previsões do cenário pré-pandemia”. 

Com o otimismo em relação às perspectivas para os EUA, que impulsionarão a recuperação em outras partes do mundo, o FMI agora prevê um crescimento de 6% da economia global em 2021, contra 5,5% previstos em janeiro, após uma contração sem precedentes de 3,3% em 2020. 

As políticas de apoio também levaram a revisões substanciais para outros países avançados. Um deles é o Reino Unido, que deve crescer 5,3% em 2021 – alta de 0,8 ponto percentual em relação à estimativa de janeiro. 

Para a economista-chefe do FMI, as perdas a médio prazo causadas pela pandemia serão menores que as registradas após a crise financeira global de 2008. “Contudo, desta vez, economias de mercados emergentes e de países de baixa renda deverão sofrer sequelas mais graves, em função de sua margem limitada para a aplicação de políticas de apoio”, disse ela. 

O FMI estima que a perda média anual do PIB per capita até 2024 entre os países de baixa renda será de 5,7%, enquanto nos emergentes a queda deve chegar a 4,7%. Nas economias avançadas, por sua vez, o recuo previsto é de apenas 2,3%. 

Uma das poucas exceções entre os emergentes é a China, única grande economia a crescer em 2020 (2,3%), graças às medidas rigorosas para controlar o vírus. Para este ano, o FMI estima um crescimento de 8,4% do PIB chinês. 

Para diminuir as divergências, a economista-chefe do FMI propõe que os países avançados adotem novas políticas para ajudar os mais pobres a não ficarem para trás na recuperação pós-pandemia. 

“Um esforço não menos ambicioso é agora necessário na esfera multilateral para garantir a recuperação e construir um futuro melhor. Sem isso, a disparidade pode aumentar consideravelmente, revertendo os progressos feitos nas últimas décadas para reduzir a pobreza mundial”, disse Gopinath. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/04/07/vacina-e-apoio-fiscal-criam-mundo-a-duas-velocidades.ghtml

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