O empurrão diplomático dado pelo governo de Donald Trump para tentar acabar com a Guerra da Ucrânia segue intenso, com o chefe de gabinete de Volodimir Zelenski dizendo que o seu presidente está pronto para se encontrar com o americano e finalizar uma proposta de paz.
Falta ainda combinar com os russos, que até aqui se mostram publicamente reticentes à revisão feita no texto original de 28 pontos favoráveis ao Kremlin que começou a ser debatido na semana passada.
Para tentar contornar isso, os Estados Unidos promoveram a primeira primeira reunião entre russos e ucranianos para discutir o plano, em Abu Dhabi. Até aqui nenhum detalhe do debate foi ventilado.
“Ainda há alguns detalhes delicados, mas não intransponíveis, que requerem mais conversas”, disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, no X. Ela sugeriu que há “tremendo progresso” nas negociações.
Enquanto isso, o chefe de gabinete de Zelenski, Andrii Iermak, afirmou ao site americano Axios que o ucraniano está pronto para acertar esses últimos pontos, que agora são 19, mais equilibrados e sem as menções mais amplas a paz entre a Rússia e o Ocidente, segundo a publicação.
As principais resistências de Kiev ainda são sobre perdas territoriais, que os americanos insistem ser vitais. É presumível que tudo isso esteja sendo discutido nos Emirados Árabes Unidos.
O encontro, que não havia sido anunciado, foi comandado pelo secretário do Exército dos Estados Unidos, Dan Discroll, que surgiu na semana passada como uma face nova na discussão sobre o conflito.
Ele é um braço-direito do vice-presidente americano, J. D. Vance, notório defensor de política pró-Rússia. Ambos estudaram juntos na Escola de Direito de Yale e são amigos pessoais. Sua presença sinaliza a Moscou que sua voz voltará a ser ouvida, após a Ucrânia reagir à primeira versão do plano.
Driscoll havia apresentado o texto, elaborado pelo americano Steve Witkoff e o russo Kirill Dmitriev, com consultoria do genro de Trump, Jared Kushner, a Zelenski na quinta (20). A partir daí, o texto amplamente favorável a Vladimir Putin, que não o apadrinhou oficialmente e fez reparos a diversos de seus pontos, ganhou o mundo.
No domingo (23), o secretário de Estado Marco Rubio e Witkoff se reuniram em Genebra com ucranianos, e uma versão calibrada da proposta foi feita.
A Rússia, sempre tratando o texto como americano, rechaçou as mudanças. Na segunda (24), o assessor de Putin Iuri Uchakov disse que os pontos que surgiram na mídia, como o congelamento de todas as linhas de batalha, são inaceitáveis. Nesta terça, foi a vez de o chanceler Serguei Lavrov dizer o mesmo com outras palavras.
Segundo ele, a versão revisada “precisa refletir o espírito e a letra do encontro do Alasca” entre Trump e Putin, em 15 de agosto, quando o russo apresentou suas demandas maximalistas para encerrar o conflito, que incluem a neutralidade e limitação militar da Ucrânia.
Qualquer outra coisa não seria aceitável. Já Zelenski afirmou nesta terça que estava de acordo “com a essência” do acertado em Genebra.
Os países europeus aliados de Kiev, que pressionaram os EUA a aceitar a reunião na Suíça e enviaram observadores ao encontro, se reuniram por videoconferência para discutir os próximos passos.
O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que o plano é “uma iniciativa que vai na direção correta. Mas há aspectos que precisam ser discutidos. Nós queremos a paz, mas não queremos uma paz que seja uma capitulação”, disse antes da reunião. Nela, afirmou que há chance de progresso.
Trump havia inicialmente dado até quinta, feriado de Ações de Graça nos EUA, para Zelenski aceitar seu plano, e o fustigou repetidas vezes desde então. Mas o prazo em si acabou relaxado, o que pode mudar com a disposição anunciada por Iermak —que, como o chefe, está pressionado por um grave escândalo de corrupção em Kiev.
Observadores da cena política do Kremlin disseram à reportagem que o presidente russo foi convencido por seus generais de que pode ter seus ganhos no campo de batalha, então todo o debate o favorece por postergar uma solução.
NOITE TEVE ATAQUES VIOLENTOS
Na madrugada desta terça a Rússia lançou 486 mísseis e drones contra diversas regiões, incluindo quatro modelos hipersônicos Kinjal, com foco em Kiev e o porto de Odessa. Na capital, ao menos 7 pessoas morreram e 13 ficaram feridas, e um blecaute atingiu várias partes da cidade.
O Ministério da Defesa do país disse que a ação foi uma retaliação contra ataques com drones ucranianos contra o território russo. O foco foi novamente o sistema energético, com falta de luz também nas regiões de Odessa, Sumi e Dinpropetrovsk.
Ao menos dois drones violaram o espaço aéreo da Romênia ao tentar atingir o porto do Danúbio de Ismail, levando o país da Otan a mobilizar caças Eurofighter alemães lá estacionados e F-16 domésticos para interceptar as ameaças. Ninguém foi ferido.
Já os ucranianos disseram ter atingido com mísseis de cruzeiro de produção local Netuno uma refinaria em Tuapse e um terminal de embarque de petróleo no porto de Novorossisk, ambos na costa do mar Negro. Imagens de redes socia is mostraram ações frenéticas de defesa aérea na região.
Sites de monitoramento e checagem também confirmaram um ataque da Ucrânia à estratégica base aérea de Taganrog, no sul russo. Segundo o bem conectado canal russo Fighterbomber no Telegram, dois aviões de teste que estavam aposentados foram atingidos, mas o aeródromo saiu intacto.
