Ucrânia e Rússia trocaram acusações nesta terça-feira (24), dia em que a guerra entre os dois países completou quatro anos, enquanto os atos em memória do início do conflito, o maior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, foram ofuscados por divisões entre os aliados do governo de Volodymyr Zelensky e por alertas dos EUA a Kiev.
Em discurso em vídeo ao Parlamento Europeu, Zelensky pressionou os 27 países da União Europeia (UE) a manterem o apoio a Kiev e afirmou que a adesão do país ao bloco seria uma garantia de segurança no pósguerra. “Os russos devem aprender que a Europa é uma união de nações independentes e milhões de pessoas que não toleram humilhações e não aceitam violência”, disse.
O aniversário do início do conflito, que já matou centenas de milhares de pessoas e devastou áreas da Ucrânia, ocorre um dia depois de a Hungria vetar novas sanções da UE contra a Rússia e um empréstimo de 90 bilhões crucial para a sobrevivência da Ucrânia.
Budapeste, que mantém laços estreitos com Moscou, e a vizinha Eslováquia acusam Kiev de bloquear deliberadamente o fornecimento de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba, que a Ucrânia afirma estar tentando reparar após um ataque russo no mês passado.
O presidente ucraniano, que enfrenta uma pressão crescente dos EUA para assinar um acordo de paz, tem instado os aliados a apertarem as sanções contra Moscou e enviar mais armas, enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, não dá sinais de que pretende pôr fim à guerra.
Em comentários transmitidos pela TV, Putin acusou a Ucrânia de tentar sabotar o processo de paz, que está travado por divergências sobre território e o controle da maior usina nuclear da Europa.
Em paralelo, o serviço de inteligência externa da Rússia disse hojeque o Reino Unido e a França estão “trabalhando ativamente” com a Ucrânia para ajudá-la a obter armas nucleares para garantir termos mais favoráveis em um acordo de paz.
A Rússia tem insistido que a Ucrânia precisa ceder os 20% restantes da região industrializada e intensamente fortificada de Donetsk, enquanto Kiev se mantém irredutível em sua posição de não abrir mão de terras que milhares morreram para defender.
Autoridades, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente finlandês, Alexander Stubb, e a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, participaram de orações com Zelensky na catedral de Santa Sofia, em Kiev. Mas, em contraste com os anos anteriores, nenhum chefe de governo de país ocidental de maior relevância, como França ou Alemanha, esteve no ato na capital ucraniana.
Os líderes em Kiev reuniram-se como a “Coalizão dos Dispostos”. Leyen afirmou que a UE cumprirá a promessa de 90 bilhões à Ucrânia, “de uma forma ou de outra”.
Já o premiê do Reino Unido, Keir Starmer, participando por vídeo, afirmou que os aliados terão de “fazer o trabalho duro” de ajudar Kiev e pressionar a Rússia. Hoje, o Reino Unido anunciou sanções contra a gigante de oleodutos Transneft, entre quase 300 outros alvos russos, no que chamou de seu maior pacote de medidas desde os primeiros meses da guerra.
“Sabemos que, quando se trata de negociações, há uma pessoa que está impedindo o avanço dessas conversas e essa pessoa é Putin”, disse.
O primeiro-ministro alemão Friedrich Merz, também participando remotamente, disse que é crucial “cortar as fontes de financiamento da guerra da Rússia” ao aprovar um 20º pacote de sanções. “Precisamos ser muito claros. Esta guerra só terminará quando Putin perceber que não pode vencer” “, disse ele.
Bruxelas pretende apresentar uma proposta em 15 de abril para proibir permanentemente as importações de petróleo da Rússia, três dias após uma eleição parlamentar vista como o principal obstáculo a um acordo com a Hungria, segundo autoridades da UE e um documento a que a Reuters teve acesso.
Em uma prova das divisões, Kiev disse ter recebido hoje uma mensagem formal do Departamento de Estado dos EUA de que seus ataques à Rússia não devem ferir os interesses americanos. O alerta foi feito após uma ação contra o porto russo de Novorossiyk, que teriam afetado negócios de Washington no Cazaquistão.
Em Moscou, onde não houve cerimônias oficiais de aniversário, o portavoz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que a intervenção ocidental significa que a Rússia estava agora em um confronto muito mais amplo com nações que querem destruí-la. Peskov disse que Moscou continua aberta para alcançar seus objetivos por meio da diplomacia, mas não soube dizer quando mais negociações devem ocorrer.
