Ucrânia abre mão de aderir à Otan em troca de garantias de segurança

A Ucrânia renunciou ao objetivo de ingressar na Otan, a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, em troca de garantias de segurança ocidentais, disse o presidente Volodimir Zelenski no início de novas negociações de paz em Berlim. Trata-se, segundo ele, de uma concessão na tentativa de encerrar a guerra com a Rússia, iniciada por Moscou em 2022.

Zelenski anunciou a decisão ao voar para a capital alemã, onde participou de reuniões com Steve Witkoff, o enviado do presidente americano, Donald Trump, e o genro do republicano, Jared Kushner.

A Ucrânia pleiteava aderir à Otan como salvaguarda contra ataques russos e tem essa aspiração incluída em sua Constituição. A desistência, portanto, representa mudança significativa relacionada às demandas do país. Também atende a uma das exigências da Rússia. Em relação a outra demanda de Moscou, a cessão de território, Kiev tem mantido sua recusa.

Zelenski se reuniu com os enviados dos EUA em conversas organizadas pelo premiê da Alemanha, Friedrich Merz. Segundo um interlocutor, o alemão fez breves comentários e deixou os dois lados sozinhos para negociar. Outros líderes europeus também devem chegar ao país para diálogos nesta segunda (15).

Garantias de segurança dos EUA, Europa e outros parceiros, em vez da adesão à Otan, representam uma concessão por parte da Ucrânia, disse Zelenski antes das discussões.

“Desde o início, o desejo da Ucrânia era ingressar na Otan. Essas são garantias de segurança reais. Alguns parceiros dos EUA e da Europa não apoiaram esse pleito”, disse ele em resposta a perguntas de repórteres em um chat numa plataforma de mensagens.

“Assim, hoje, garantias de segurança bilaterais entre a Ucrânia e os EUA, garantias semelhantes ao artigo 5 [da Otan], e garantias de segurança de colegas europeus, bem como de outros países —Canadá, Japão— são uma oportunidade para evitar outra invasão russa”, disse Zelenski.

“E já é uma concessão da nossa parte”, afirmou ele, acrescentando que as garantias de segurança devem ser juridicamente vinculantes.

O artigo 5 da Otan estabelece que um ataque armado contra um país-membro da aliança é considerado uma agressão contra todos, obrigando os outros membros a auxiliarem a nação atacada.

O presidente russo, Vladimir Putin, exigiu várias vezes que Kiev renunciasse às suas ambições ao ingresso na Otan e retirasse as tropas dos cerca de 10% do Donbass, leste russófono da Ucrânia, que ainda controla.

Moscou também disse que a Ucrânia deve ser um país neutro e que nenhuma tropa da Otan pode ser posicionada no território ucraniano.

deste ano, que Putin quer um compromisso por escrito das principais potências ocidentais de não expandir a Otan para o leste –o que excluiria formalmente a adesão da Ucrânia, Geórgia, Moldávia e outras ex-repúblicas soviéticas.

Zelenski já pediu em outras ocasiões uma “paz digna” e garantias de que a Rússia não ataque a Ucrânia novamente. Sob pressão de Trump para assinar um acordo de paz que inicialmente chancelava quase todas as exigências de Moscou, o líder ucraniano acusou o Kremlin de prolongar o conflito com bombardeios contra cidades e suprimentos de energia e água de seu país.

O envio de Witkoff, que liderou negociações com a Ucrânia e a Rússia sobre uma proposta de paz dos EUA, pareceu ser um sinal de que Washington viu uma chance de progresso quase quatro anos após a invasão russa de 2022.

Zelenski disse que a Ucrânia, os europeus e os EUA estão analisando um plano de 20 pontos que prevê um cessar-fogo. Segundo ele, Kiev não mantém conversas diretas com a Rússia. Um cessar-fogo ao longo das atuais linhas de frente seria uma opção justa, acrescentou o líder ucraniano.

MOMENTO CRÍTICO

Reino Unido, França e Alemanha têm trabalhado para melhorar as propostas dos EUA, que em um rascunho divulgado no mês passado, pediam a Kiev para ceder mais território, abandonar suas ambições ao ingresso na Otan e aceitar limites para suas Forças Armadas –todas reivindicações russas rechaçadas por Zelenski.

Aliados europeus descreveram este como um “momento crítico” que poderia moldar o futuro da Ucrânia. Eles tentam reforçar as finanças ucranianas usando ativos congelados do banco central russo para custear o orçamento militar e civil de Kiev.

Putin recebeu Witkoff e Kushner em uma reunião no início de dezembro que o Kremlin classificou de construtiva, embora nenhum grande avanço tenha sido alcançado.

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/12/ucrania-abre-mao-de-aderir-a-otan-em-troca-de-garantias-de-seguranca.shtml

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