Nos primeiros meses da guerra comercial dos EUA contra o mundo, a especulação aumentou. Poderiam as duas outras grandes potências comerciais do planeta — a China e União Europeia — intensificar suas ligações comerciais de modo a compensar o isolacionismo americano? Uma cúpula que começa nesta quinta-feira, 24, em Pequim, mostrará que a resposta é um enfático “não”. O encontro tinha como objetivo celebrar 50 anos de laços diplomáticos. Agora, parece fadado ao fracasso.
Mais cedo este ano, as relações entre China e UE pareciam aquecer. Em maio, líderes da UE disseram estar prontos para “trabalhar de mãos dadas” com a China para lidar com “desafios comuns”. Mas a efêmera amabilidade dos europeus foi mais uma tentativa de manipular os americanos que uma proposta para cortejar os chineses, dizem fontes em Bruxelas. A UE é cautelosa com Trump, mas ainda mais com a China.
A cúpula estava prevista para ser realizada na Europa. Mas os europeus queriam um encontro direto com Xi Jinping, o presidente da China, em vez de seu segundo no comando, Li Qiang, que seria enviado para negociar com líderes da UE em Bruxelas. Então, os europeus decidiram fazer a viagem a Pequim na esperança de ver Xi. Isso provocou desencontros em outras áreas. Recentemente, a UE decidiu dispensar uma reunião econômica pré-cúpula aparentemente inútil com os chineses. A seguir, a China cancelou planos para Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, e outros figurões encontraram firmas de tecnologia e automóveis em Hefei enquanto visitavam o país.
Há mais em jogo do que a etiqueta, no entanto. As brigas da cúpula entre Pequim e Bruxelas refletem problemas profundos no cerne da relação, principalmente nas áreas de comércio e segurança.
O bloco acusa a China de prejudicar indústrias ao despejar bens subsidiados pelo governo em mercados do continente; teme também que as tarifas de Donald Trump resultem em um aumento desses bens na Europa.
O controle da China sobre a exportação de terras raras é outra questão. Outros problemas incluem o apoio da China à Rússia na guerra contra a Ucrânia; os ataques cibernéticos chineses contra alvos comerciais e políticos da UE; e a pressão militar da China visando ameaçar Taiwan.
No que diz respeito ao comércio, o problema da Europa é que a China exporta para ela ou em excesso ou em quantidade insuficiente. Consideremos a primeira reclamação. A UE está indignada com o aumento do seu enorme déficit comercial com a China. Novos dados mostram que, nos primeiros seis meses deste ano, as exportações chinesas para a UE cresceram 7%, enquanto as importações do bloco caíram 6%.
No ano passado, a China enviou cerca de US$ 560 bilhões em mercadorias para a UE, cerca de 30% a mais do que suas exportações para os Estados Unidos. As exportações da UE para a China foram muito menores: cerca de US$ 230 bilhões, menos da metade do valor das mercadorias da UE vendidas para os Estados Unidos.
Os carros são um ponto particularmente crítico. Os veículos elétricos, ou VEs (não incluindo híbridos), devem representar mais de 21% do mercado europeu total de carros este ano, e as empresas chinesas devem vender cerca de um em cada dez deles, de acordo com a Schmidt Automotive, uma empresa de dados.
Esses VEs custam cerca de 20% menos que os fabricados na Europa e, portanto, estão abalando o segmento mais barato do mercado. No ano passado, a UE apontou os subsídios e incentivos fiscais da China à sua indústria como motivo para impor tarifas de até 45,3% sobre os EVs chineses, a fim de evitar “prejuízos iminentes” às empresas europeias. Mesmo com as tarifas, as montadoras chinesas ainda podem lucrar na Europa. A BYD, a maior delas, espera ser a maior fabricante de EVs da região até 2030.
A segunda reclamação comercial da UE, de que a China retém produtos de que o bloco precisa, diz respeito particularmente aos metais raros. Novas restrições abrangentes sobre esses metais e produtos que os incorporam foram anunciadas pela China em abril como parte da guerra comercial. Elas estão prejudicando a indústria automobilística europeia, as indústrias aeroespacial e de defesa e os fabricantes de semicondutores, entre outros. Alguns fabricantes de peças automotivas tiveram até mesmo que suspender a produção. Em uma reunião dos líderes do G-7 no Canadá em junho, von der Leyen acusou a China de criar um padrão de “domínio, dependência e chantagem” ao controlar o fornecimento de terras raras.
Enquanto isso, as preocupações com a segurança estão se tornando mais agudas. Para a UE, o fornecimento de componentes pela China aos fabricantes de armas da Rússia é a principal preocupação: a tecnologia é vital para a máquina de guerra da Rússia. Mas a China é inflexível: ela considera sua parceria “sem limites” com a Rússia como vital. Ela se sente segura com a presença de um líder autoritário no Kremlin que compartilha a visão de mundo da China. E considera a guerra na Ucrânia como um escoamento útil dos recursos do Ocidente. Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China, disse a autoridades europeias este mês que a China temia que uma derrota da Rússia pudesse levar os Estados Unidos a voltar mais atenção para seu país, de acordo com o South China Morning Post, um jornal de Hong Kong.
A UE não se preocupa apenas com a ameaça indireta representada pelo apoio da China à Rússia. Ela também tem se manifestado cada vez mais sobre os supostos ataques cibernéticos chineses a alvos na UE. Em maio, após notícias de um ataque contra o Ministério das Relações Exteriores da República Tcheca, o Conselho Europeu, composto pelos líderes governamentais da UE, alegou que a China estava por trás de um número crescente de “atividades cibernéticas maliciosas”. A chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, alertou que o bloco está “pronto para impor custos” por tal comportamento.
Por sua vez, a China está preocupada com o apoio dos países da UE a Taiwan: dois navios de guerra alemães navegaram simbolicamente pelo Estreito de Taiwan no ano passado, a primeira travessia desse tipo em 20 anos. A mídia estatal chinesa culpou a UE e outros países ocidentais pelo aumento das tensões, acusando-os de apoiar os “separatistas” taiwaneses. A China gostaria de afastar a UE dos Estados Unidos, principalmente para minar a coesão ocidental nessas questões.
No entanto, a China faz poucos esforços para apaziguar os europeus. Em abril, suspendeu as sanções impostas há quatro anos aos legisladores da UE que expressaram publicamente preocupações com os direitos humanos na região ocidental de Xinjiang. E, em julho, ofereceu concessões aos produtores franceses de conhaque para ajudá-los a superar as medidas antidumping que a China impôs à bebida no ano passado.
Seu plano principal parece, ao contrário, envolver dividir a UE sempre que possível. A China está depositando suas esperanças em membros individuais do bloco, principalmente Alemanha e França, aos quais Wang fez visitas após suas reuniões em Bruxelas. A Alemanha é responsável por cerca de 40% das exportações da UE para a China. O chanceler Friedrich Merz estaria planejando uma visita à China ainda este ano, acompanhado por uma delegação empresarial. Espere um tapete vermelho para ele.
Jin Ling, do Instituto Chinês de Estudos Internacionais, um think tank ligado ao Ministério das Relações Exteriores da China, vê uma lacuna crescente entre alguns Estados-membros e a liderança da UE em relação à China. Isso torna difícil, diz ela, para a China decidir como lidar com a UE. Parece cada vez menos disposta a tentar. A esperança em Pequim é que os apelos a membros individuais mantenham os falcões do bloco à distância.
