Tensões, vaivéns e concessões marcaram as negociações do acordo entre EUA e Irã

Por algumas horas em Teerã, os mediadores do Catar se permitiram acreditar que o pior poderia já ter acabado. Após semanas de idas e vindas entre dois inimigos ferrenhos e de um dia exaustivo de conversas com autoridades do Irã, a pequena delegação vislumbrou a materialização de um acordo no qual estivessem incluídos a extensão do cessar-fogo, a reabertura do Estreito de Ormuz e um arcabouço para guiar as negociações nucleares.

Então, enquanto se preparavam para pegar o avião de volta a Doha nas primeiras horas de quinta-feira (11), caças americanos atingiram alvos no sul do Irã. E quando os bombardeios pararam, o Irã lançou mísseis e drones contra bases dos Estados Unidos na Jordânia, no Bahrein e no Kuwait.

Os catarianos foram tomando conhecimento de tudo no avião. Tiveram que esperar por quase sete horas na pista, até as 7h, enquanto a frágil diplomacia que tentavam promover corria o risco de se desfazer com o dobro da velocidade. “Foi uma montanha-russa”, disse uma fonte que foi informada sobre as negociações.

O episódio ilustra a tensão de um mês de esforços diplomáticos para evitar que EUA e Irã voltassem à guerra. A cada vez que os mediadores pareciam próximos de algum grande avanço, o trabalho para concluir o acordo era atrapalhados por mais algum ataque, ameaça ou intervenção política.

O memorando de entendimento, com uma página e 14 pontos, negociado pelo Catar e pelo Paquistão tinha como objetivo estender o cessar-fogo de 8 de abril. Concluí-lo exigia superar quase meio século de desconfiança, a imprevisibilidade do presidente dos EUA, Donald Trump, e sua impaciência por um resultado rápido, além da necessidade de Teerã de que qualquer concessão parecesse legítima internamente.

Segundo um diplomata, um dos maiores desafios para os mediadores foi a diferença de “estilo”, o contraste entre a pressa de Trump por um acordo e a necessidade do lrã de um “processo – semanas ou anos de negociação”

Um ponto de virada crucial ocorreu em maio. As conversas haviam naufragado depois do cessar-fogo de 8 de abril e de uma reunião em Islamabad encabeçada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance.

A trégua parecia estar se esfarelando, enquanto Trump advertia que ela “respirava sob aparelhos” e descrevia a proposta mais recente do Irã como um “monte de lixo”. O risco de retomada da guerra aumentava, apesar das negociações.

Poucos dias depois, Washington pediu ao Catar para intervir. Até então, Doha desempenhava apenas um papel coadjuvante, de apoio ao Paquistão, a inesperada escolha para liderar a mediação, ao lado do Egito e da Turquia.

O Catar havia conquistado um papel como um dos canais preferidos de Washington para comunicar-se com os mais variados adversários, desde o Hamas e o Talibã até o regime bolivariano da Venezuela. Quando a guerra começou, o Catar, assim como outros países do Golfo Pérsico, tornou-se alvo do Irã, de forma que ficou em segundo plano nas iniciativas diplomáticas para encerrar a guerra.

No entanto, após o alerta de Trump de que o cessar-fogo estava à beira de ruir, a delegação catariana foi a Teerã, voando via Turquia para manter a missão em segredo.

O Paquistão, mais novato no papel de mediação, trouxe à mesa seus próprios canais de acesso ao círculo próximo de Trump, após ter ajudado a garantir a trégua de abril, que foi seguida pelas negociações diretas de mais alto escalão entre Irã e EUA desde 1979.

O maior problema a ser superado pelos mediadores era tentar criar uma confiança, mesmo que rudimentar, entre as partes. Os iranianos “estavam muito desconfiados” das intenções de Trump, segundo fontes. O Irã foi atacado duas vezes por EUA e Israel durante as negociações.

“Eles achavam’será que isso é mais um prelúdio para ataques? [..] os americanos continuam mudando de posição, não há comprometimento real”‘ , disse uma das fontes. “Portanto, parte do trabalho dos mediadores foi criar essa confiança.”

Quando a delegação partiu de Teerã em meados de maio, os mediadores se sentiam confiantes de ter em mãos uma boa proposta, que contava com o aval dos EUA.

Ainda enquanto deixavam o Irã, esse otimismo foi despedaçado, ao serem informados de que Trump considerava um ataque. Para tentar manter a diplomacia nos trilhos, líderes catarianos, sauditas e emiradenses ligaram ao presidente americano para dizer que os mediadores estavam perto de um acordo e pedir que não apertasse o gatilho.

Trump deu ouvidos ao conselho deles. Publicou no mesmo dia que havia suspendido um ataque ao Irã programado para o dia seguinte, pois “negociações sérias estavam agora” ocorrendo com Teerã.

Na manhã seguinte, em 19 de maio, a delegação do Catar pegou um avião para Washington a fim de detalhar a situação para Vance, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump.

Depois, Trump deu um prazo e deixou claro aos mediadores que precisava da resposta iraniana até o fim de semana ou não conteria os ataques. Os negociadores catarianos e paquistaneses se prepararam para voltar a Teerã.

No entanto, mais uma vez, a ameaça de retomada da guerra assombrou a missão. Na noite anterior à chegada prevista dos mediadores a Teerã, os catarianos e os paquistaneses foram informados por dois países ocidentais de que Israel considerava atacar o Irã naquela semana, segundo duas pessoas informadas sobre o assunto.

Isso deu início a ligações frenéticas das autoridades catarianas para os EUA e outros aliados para obter garantias de que Israel não atacaria enquanto a equipe estivesse em Teerã. Quando essas garantias foram dadas, eles voltaram ao Irã em 22 de maio.

Os mediadores passaram horas travados em discussões com Mohammad Qalibaf, o principal negociador do Irã, e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, enquanto aparavam os detalhes.

Os principais entraves eram a exigência do Irã de uma promessa de fim permanente da guerra; a obtenção de garantias de que Teerã discutiria com os EUA a entrega do estoque de urânio altamente enriquecido e o destino de Ormuz.

Encorajado pelo seu recém-descoberto poder de pressão, o Irã insistia em dizer que cobraria uma taxa dos navios que passassem.

Para levar um acordo adiante, os mediadores precisavam convencer o Irã a desistir dessa exigência, pelo menos durante a extensão de 60 dias do cessar-fogo.

Naquele mesmo dia, o marechal Asim Munir, chefe militar do Paquistão, desembarcou em Teerã para reforçar a pressão. “Os paquistaneses eram a face [pública] do processo, graças ao relacionamento com Trump, embora os catarianos tivessem feito a maior parte do trabalho pesado para aproximar os dois lados”, disse um diplomata ocidental.

Trump dizia que o Irã precisaria entregar o estoque de 440 quilos de urânio enriquecido a um grau próximo ao necessário para armas nucleares. Antes da partida da delegação catariana, no dia seguinte, o Irã, enfim, concordou em se comprometer a discutir a diluir o urânio ou a entregar o estoque. Em troca, os EUA prometeram um processo gradual de alívio de sanções, condicionado ao andamento das negociações rumo a um acordo final.

À noite, Trump disse que um acordo havia sido ” negociado em grande parte ” e seria “anunciado em breve”. As partes, entretanto, continuavam a negociar. “Os iranianos são negociadores muito cuidadosos; eles verificam cada palavra e negociam o significado dela”, disse uma das fontes informadas sobre as negociações.

Mesmo depois disso, os iranianos não assinaram o acordo como esperado. Frustrado, o governo Trump alterou a forma de redação de detalhes da reabertura do estreito e de questões nucleares.

No entanto, o pior ainda estava por vir. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ameaçou, no início de junho bombardear alvos do Hezbollah em Beirute, o que intensificaria o conflito com o grupo militante apoiado pelo Irã no Líbano.

A imprensa iraniana noticiou que Teerã, que insistia em incluir esse conflito no acordo com os EUA, havia suspendido as negociações com Washington Isso levou Trump a ligar para Netanyahu e a descarregar uma dura repreensão, repleta de palavrões, sobre seu parceiro na guerra. Isso pareceu acalmar a situação.

No entanto, no fim de semana seguinte, Israel e Irã trocaram tiros pela primeira vez desde a trégua, após forças israelenses lançarem ataques contra um edifício no sul de Beirute, um reduto do Hezbollah, o movimento libanês que é o mais importante aliado do Irã.

A troca de ataques terminou após Trump intervir dizendo que Israel e Hezbollah haviam concordado que “os disparos vão parar”.

Com isso, resolveu-se um empecilho que poderia fazer o acordo naufragar, de forma que na terça-feira da semana passada os mediadores voltaram a sentir que estavam bem próximos a um acordo. No entanto, logo surgiu outro empecilho, depois que Trump culpou o Irã por derrubar um helicóptero dos EUA.

A tripulação foi resgatada e o Irã informou que foi um erro, mas Trump disse que precisava responder. Isso resultou em duas noites consecutivas de trocas de tiros – incluindo o confronto que deixou os catarianos presos no aeroporto.

Houve uma ofensiva para convencer Trump de que havia um bom acordo no forno. Líderes do Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, além do poderoso chefe militar do Paquistão telefonaram ao presidente americano para pedir que se abstivesse de mais ataques.

Trump começou a última quinta-feira com ameaças de mais ataques e de que soldados americanos poderiam tomar a Ilha de Kharg, o principal centro de exportação de petróleo do Irã. Em questão de horas, contudo, ele disse que os pontos finais de um acordo com Teerã haviam sido aprovados por “todas as partes”, , no que chamou de “uma grande solução para a guerra”.

Ao longo da semana de escaramuças, a diplomacia continuou a trabalhar, com autoridades americanas e iranianas de escalões mais baixos mantendo conversas em Doha. No entanto, na sexta-feira, Trump, que passara a semana oscilando entre dizer que um acordo estava próximo e que estava frustrado com o Irã, declarou, furioso, que Teerã estava distorcendo o acordo.

Isso voltou a levantar temores de que ele atacaria, justo quando os mediadores se preparavam para uma assinatura preliminar na Suíça no fim de semana. “Os maiores obstáculos para o acordo foram a mídia negativa e as campanhas de lobby contra o acordo por ambos os lados”, disse uma das fontes.

Foi só depois que Trump disse no sábado que o memorando seria assinado no dia seguinte que os negociadores catarianos voltaram a viajar para Teerã.

Nesse momento, Israel voltou a atacar Beirute – provocando mais uma ligação furiosa de Trump para dizer que isso “não deveria ter acontecido” De forma crucial, ele acrescentou que não deveria haver mais ataques de Israel “em lugar nenhum do Líbano”.

Os catarianos, por sua vez, tentavam convencer os iranianos a não retaliar. Eles passaram 17 horas em Teerã, durante as quais em certo momento fizeram uma pausa para assistir a uma partida de futebol da Copa do Mundo nos EUA.

Em outro momento, os catarianos ameaçaram desistir depois que os iranianos continuaram a pressionar por pequenas alterações na redação do texto. Os catarianos advertiram que, se um acordo não fosse fechado antes de Trump entrar no evento de lutas do UFC na Casa Branca em comemoração a seu 80º aniversário, eles correriam o risco de enfrentar novos ataques americanos.

“Foi muito intenso”, disse a fonte. “Foi exaustivo, mas houve alívio. É omo quando você termina uma maratona, você está completamente gotado. Há um otimismo cauteloso – ainda faltam alguns dias para a assinatura.’

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