Rússia: não houve ‘nenhum acordo’ após conversa de 5 horas com EUA sobre Ucrânia

O Kremlin afirmou que não fez “nenhum acordo” sobre a questão dos territórios ocupados na Ucrânia durante o encontro entre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o enviado do governo dos Estados Unidos, Steve Witkoff, embora tenha considerado a reunião “útil e construtiva”.

O líder russo se reuniu por cerca de cinco horas em Moscou com Witkoff e com o genro de Donald Trump, Jared Kushner, para discutir o plano dos EUA para pôr fim à guerra na Ucrânia – apresentado duas semanas atrás e reelaborado desde então em consultas com os ucranianos.

A reunião na capital russa ocorreu após vários dias de intensas gestões diplomáticas para tentar encerrar o conflito mais violento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

“Houve alguns pontos em que conseguimos chegar a um acordo”, disse o principal assessor do Kremlin, Yuri Ushakov. “O presidente não escondeu nossa postura crítica, até negativa, sobre várias propostas”, acrescentou.

Sobre os territórios ocupados pela Rússia na Ucrânia, que representam aproximadamente 19% do país, Ushakov disse que “nenhum acordo” foi fechado, mas que “algumas soluções americanas podem ser debatidas”.

Em uma entrevista exibida na noite de terça-feira, na emissora Fox News, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que as conversas com a Rússia alcançaram “algum progresso” para tentar acabar com a guerra na Ucrânia. Contudo, não ficou claro quando a entrevista foi gravada.

Um funcionário de alto escalão de Kiev disse à Agence France-Presse que, após o encontro com os russos em Moscou, Witkoff e Kushner devem se reunir nesta quarta-feira, 3, com uma delegação ucraniana, possivelmente em Bruxelas, na Bélgica.

Momento crítico para Kiev

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, sob forte pressão política e diplomática, pediu durante uma visita à Irlanda o fim da guerra e não “apenas uma pausa” nos combates.

Em uma publicação nas redes sociais, Zelenski afirmou que “não haverá soluções fáceis”. “O importante é que tudo seja justo e transparente […] Que nada seja decidido sem a Ucrânia sobre nós, sobre o nosso futuro”, escreveu.

A reunião entre americanos e russos ocorre em um momento crítico para a Ucrânia. Kiev vem sendo sacudida por escândalos de corrupção, que resultaram na demissão do chefe de gabinete de Zelenski. Nas últimas semanas, Moscou também intensificou seus ataques com drones e mísseis contra o país.

Conflito dura quase quatro anos

Trump afirmou na terça-feira que não será fácil avançar rumo ao fim de uma guerra que já dura quase quatro anos. “Não é uma situação fácil, garanto. Que desastre”, disse durante uma reunião de gabinete na Casa Branca.

Putin ordenou a ação militar em larga escala contra a Ucrânia em fevereiro de 2022. Milhares de civis e militares morreram desde então e milhões de ucranianos foram obrigados a deixar suas casas.

Os europeus temem que Washington e Moscou cheguem a um acordo sem envolvê-los ou pressionem os ucranianos a fazer concessões consideradas injustas.

Antes do encontro com os enviados americanos, Putin acusou os europeus de dificultarem os esforços para pôr fim ao conflito e insistiu que a Rússia está pronta para a guerra “se a Europa quiser e começar”.

O plano americano de 28 pontos apresentado no mês passado estava tão alinhado às exigências russas que gerou acusações de que Moscou teria participado de sua redação, o que Washington nega.

Avanço russo

Witkoff já se reuniu com Putin em várias ocasiões, mas veículos de imprensa americanos informaram que esta foi a primeira vez que Kushner – que ajudou a negociar o cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza – participou das conversas com o líder russo.

No terreno, as forças russas realizaram em novembro seu maior avanço no front ucraniano em um ano, segundo uma análise da Agence France-Presse baseada em dados do Instituto Americano para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), que trabalha com o Critical Threats Project (CTP).

Em um mês, a Rússia tomou 701 km² dos ucranianos, o segundo maior avanço desde o registrado em novembro de 2024 (725 km²), excluídos os primeiros meses da guerra, em fevereiro de 2022.

Na segunda-feira, 1, Moscou reivindicou a conquista da cidade de Pokrovsk, no leste da Ucrânia, um centro logístico estratégico para Kiev, assim como de Vovchansk, no nordeste. A Ucrânia, porém, afirmou nesta terça-feira que os combates em Pokrovsk continuam.

Também em novembro, a Rússia lançou mais mísseis e drones em ataques noturnos contra a Ucrânia do que no mês anterior, totalizando 5,66 mil projéteis e aeronaves não tripuladas de longo alcance (+2%).

https://www.estadao.com.br/internacional/russia-nenhum-acordo-guerra-na-ucrania-reuniao-eua-npr

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