Rússia entra em jogo perigoso com a Otan

Até que ponto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) está comprometida com a defesa dos países bálticos? Essa foi a pergunta feita indiretamente por Vladimir Putin quando caças russos violaram o espaço aéreo da Estônia na semana passada.

A posição pública da Otan não dá margem a dúvidas: a aliança de 32 países defenderá cada centímetro de seu território. É possível ver esse compromisso em exibição na base militar de Tapa, na Estônia, perto da fronteira russa. Tapa — que literalmente significa “matar” em estoniano – abrigou no passado uma base aérea soviética. Hoje, é a principal base das Forças Armadas estonianas e de um grupo de batalha da Otan encabeçado pelos britânicos.

Soldados do Regimento Real de Tanques, do Reino Unido, haviam acabado de chegar quando visitei Tapa na semana passada. Ao lado de um destacamento menor da França, eles têm um arsenal de fogo impressionante na base — incluindo tanques de batalha Challenger 2, o sistema de artilharia Archer e veículos blindados de transporte de pessoal Griffon. As tropas britânicas, francesas e estonianas têm uma estrutura de comando integrada e entrariam em combate juntas — se a Estônia alguma vez viesse a ser invadida pela Rússia.

Os soldados em Tapa são treinados para repelir um ataque russo em grande escala. No entanto, para estrategistas ocidentais, o mais provável é que a Rússia, de início, atue de forma gradual – pequenas operações ambíguas destinadas a testar as reações e o grau de união da Otan. A violação do espaço aéreo estoniano da semana passada se encaixa nesse padrão, ainda mais porque ocorreu logo após uma grande incursão de drones russos na Polônia, na semana anterior. Alguns drones foram derrubados por aeronaves da Otan e, desde então, os aliados deslocaram mais aviões para o flanco oriental.

A Otan discutirá como responder à incursão na Estônia ainda nesta semana. Há vozes dentro da aliança a favor de que, no futuro, a Otan derrube aviões russos que violem seu espaço aéreo. Outras, contudo, em particular nos Estados Unidos, acreditam que isso representaria uma perigosa escalada.

A Rússia poderia intensificar aos poucos suas provocações para testar essas divisões latentes dentro da Otan. Um cenário debatido há tempos é a incursão de tropas terrestres russas em algum dos países bálticos — talvez sob o pretexto de defender populações de etnia russa.

O objetivo definitivo do Kremlin é demonstrar que a garantia de segurança mútua do Artigo 5° da Otan não vale nada. Se os russos conseguissem isso, poderiam então tentar voltar-se contra os países europeus menores um a um – sem nunca precisar enfrentar a força combinada da Otan.

A incerteza quanto à resposta de Washington é a chave desse “testar de águas” sendo feito por Moscou. Os EUA fornecem cerca de 40% dos ativos militares da Otan na Europa e alguns de seus sistemas mais avançados. Também há soldados americanos nos países bálticos. Uma unidade de artilharia Himars realizou recentemente treinamentos na base de Tapa e espera-se a chegada em breve de uma companhia de tanques dos EUA.

No entanto, se os russos algum dia realizarem uma grande incursão na Estônia ou em outro país-membro da Otan, há dúvidas óbvias sobre como Donald Trump reagiria. Como me disse Gabrielius Landsbergis, exinistro das Relações Exteriores da Lituânia, semana passada: “Se uver uma incursão e ataque …, o que Putin pode esperar? A Sexta Frota americana entrando nos bálticos ou um telefonema para um encontro no Alasca?”

Logo abaixo da aparente superfície de união, existe uma tensão real entre o governo Trump e seus aliados bálticos. Em Washington, ouvi queixas sobre a “estonianização” da política externa europeia — referência ao fato de que Kaja Kallas, chefe da política externa da União Europeia, foi primeira-ministra da Estônia. Em alas do governo Trump, os países bálticos são vistos como perigosamente agressivos em sua atitude perante Putin. Em uma reunião de alto escalão no Pentágono, autoridades bálticas foram acusadas de serem “ideológicas” em sua oposição à Rússia.

A desconfiança entre os países bálticos e os EUA é mútua. Na semana passada, nos corredores do ministério das Relações Exteriores da Estônia — bem ao lado dos escritórios das autoridades de maior hierarquia — vi uma grande reprodução do placar da votação do debate da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a Ucrânia em fevereiro, em que os EUA votaram ao lado dos russos. A mensagem parecia clara. Não presuma que os EUA de Trump estão de nosso lado.

Os maiores países europeus são bem mais firmes que o governo Trump em sua insistência na necessidade de conter a agressão russa. Por outro lado, também mostram grande nervosismo diante da ideia de enfrentar a Rússia sem os EUA a seu lado — basta ver a visível agonia nas discussões sobre uma “força de tranquilização” europeia e se ela poderia algum dia ser enviada à Ucrânia sem um “apoio” americano por trás.

No entanto, assim como a Otan precisa lidar com incertezas, os russos ima crise internacional cambán. Trump é tão vluitos osevadores le trump presumiam ques ele jamais autorizaria a participação dos EUA em bombardeios ao Irã. E, no entanto, foi precisamente o que ele fez, neste ano.

Mesmo se, em uma crise nos países bálticos, os EUA se mantivessem à margem, os britânicos, franceses, alemães e canadenses já contam com soldados mobilizados no local, comprometidos a lutar. Polônia e Finlândia — ambos países bem armados — sabem que a própria segurança está intimamente ligada ao destino da Estônia, da Letônia e da Lituânia. Eles também provavelmente defenderiam os países bálticos.

Seria uma aposta imprudente de Putin testar a disposição dos países da Otan em defender o flanco oriental da aliança. Infelizmente, como o mundo descobriu quando as forças russas atacaram Kiev em 2022, Putin é mais do que capaz de fazer apostas imprudentes.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/22/analiseft-putin-entra-em-jogo-perigoso-com-a-otan.ghtml

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